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Ana Regina Rêgo

Paulo Freire sem medo: da opressão à esperança

Paulo Freire é, talvez, a maior referência brasileira mundo à fora, quando se trata das humanidades.

10/10/2019 07:16h

Desde janeiro deste ano que não escrevo para este espaço opinativo. Motivo? Angústia coletiva? Loucuras governamentais disparadas por minuto por vários membros do governo, por parlamentares e até membros do nosso Supremo Tribunal Federal? Constituição de 1988, dita cidadã, sendo rasgada antes mesmo de ser completamente regulamentada? Minha incapacidade para acompanhar tudo e todos? Acho que tudo isso e muito mais. Retorno hoje, portanto.

Com ou sem projeto de país definido, os atuais donos do poder estão desconstruindo a nação tendo como parâmetro para seus ataques, os direitos adquiridos pelo povo nos últimos vinte anos. Em muitas áreas, como na cultura, na cidadania, nos direitos trabalhistas, o retrocesso é de quase 60 anos. A educação por outro lado, vem sendo alvo direto e constante, desde o ensino fundamental ao superior. Uma falsa moralidade se insere na agenda educacional dos primeiros anos da formação, enquanto que uma pauta econômica estrangula o ensino superior público e gratuito, objetivando, forçar as Universidades Federais a aderir ao Programa Future-se, que no frigir dos ovos, pode ser denominado de fature-se e se configura como uma cortina para a intenção de privatização indireta das IES públicas.

Nesse deserto em que a idade das trevas teima em retornar, nós enquanto educadores e cientistas temos a responsabilidade de resistir e de formar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres para com a sociedade, mesmo que tenhamos que sofrer represálias do governo e de sua massa de seguidores, muitos por convicção, outros por ódio ao PT, mas ainda sem consciência dos estragos que a atual administração está articulando e promovendo no país.

Portanto, trazer Paulo Freire nesse cenário é preciso, não somente porque sua obra e ele mesmo estão sendo alvo de ataques completamente violentos e equivocados, mas porque sua obra nos fala de um educar para a liberdade, fala de um fomentar o pensamento e a consciência de si, em sociedade.

Considerado um dos maiores pensadores do campo educacional no mundo, tendo seus livros traduzidos para várias línguas ainda na década de 1970 e seu método implantado em vários países, Paulo Freire é, talvez, a maior referência brasileira mundo à fora, quando se trata das humanidades.

Mas, por que parte do Brasil o despreza e deseja desqualificar seu maior pensador e sua obra? Resposta tão simples e direta, quanto seus livros. Na maioria dos casos, a repulsa e os ataques a Paulo Freire vêm de sua trajetória e de suas posições políticas e ideológicas, sobretudo, considerando que PF alfabetizou e ensinou o povo a ler e a pensar usando apenas ferramentas do dia a dia e o conhecimento prévio de cada aluno. As elites brasileiras com seu ranço colonial, historicamente, não aceitam que o povo seja educado, pense, seja crítico, lute por seus direitos e os mantenha. Aliás, como ocorre na atualidade, quando estão tentando derrubar as cotas para minorias nas universidades públicas, quando estão reduzindo os direitos trabalhistas e obrigando o povo a voltar a um estágio de quase escravidão, quando estão acabando com as bolsas sociais e levando parte da nossa população de volta à uma condição de miséria e de pedintes, coisa que não víamos no Brasil há duas décadas.

Em verdade, parte das elites brasileiras, precisa do pobre para poder exercer a “caridade” e se colocar em um lugar que denomina de bem, enquanto desqualifica o povo como interesseiro e mal. Já outra parte é portadora de um sentimento de aversão ao pobre, como se este fosse culpado de sua condição, como se o pobre representasse o próprio mal; desconhecendo assim, ou, negligenciando, as disparidades históricas e a construção da desigualdade social em nosso país. A aversão ao pobre é conhecida na Espanha por APOROFOBIA e o Brasil está cheio de pessoas que possuem esse sentimento, o que configura uma posição ideológica de superioridade, ainda muito forte no Brasil que provoca no pobre, ainda não consciente de seus direitos, uma vergonha de si e muitas vezes, um apoio a seus próprios opressores. A hegemonia, no sentido gramsciano, então prepondera.

Mas o que há na pedagogia do oprimido de Paulo Freire que causa tanto medo nas elites?

Em Pedagogia do Oprimido o autor destaca o medo da liberdade, destaca a educação como prática conscientizadora e necessária para que o ser humano ultrapasse um estágio de ingenuidade em direção à uma consciência crítica e libertadora, pautada na dialética entre a subjetividade e a objetividade, incentivando o educando a transformar sua própria contextualidade, sua própria condição de oprimido. O diálogo com o povo é o instrumento que possibilita uma leitura crítica da sociedade, sempre a partir de seu próprio mundo e não pautado em outra realidade inacessível.

Paulo Freire de forma simples e direta nos fala do ser humano enquanto ser transformador de sua realidade histórica, um ser que luta pela liberdade e pela desalienação e combate as injustiças sociais. A ação libertadora se traduz e se concretiza enquanto resultado da educação e da conscientização conquistadas por uma revolução educacional, em que o principal método é a consciência, método no qual educador e educando trabalham juntos para desmitificar uma realidade injusta, objetivando criticar e reconstruir seu mundo.

O autor critica o que denomina de concepção bancária da educação, usada como instrumento de opressão, que foi repassada como uma “dádiva” assistencialista para o povo, então considerado como uma tábua rasa. Nesse modelo, o educador deposita seus conhecimentos e o diálogo não se estabelece. Para Paulo Freire a educação bancária não permite a desalienação, nem tampouco promove o pensamento crítico.

O autor destaca por exemplo, que o processo educacional pressupõe uma mediação do mundo de forma problematizadora e que exige a superação da oposição educador x educando, promovendo o diálogo, reconhecendo que ambos são sujeitos do processo e crescem juntos em uma visão crítica da realidade.

Interessante ainda é a abordagem que PF impõe à dialogicidade enquanto fenômeno essencial para o processo educacional como prática para a liberdade. Na visão de Paulo Freire o diálogo somente acontece quando o amor ao mundo e à humanidade se manifesta de forma humilde no próprio ser humano, como transformador de sua realidade em prol de um bem comum. Logo o diálogo como opositor do desentendimento que hoje experimentamos, se estrutura em relacionamentos horizontais em que a confiança e a esperança caminham em direção a um pensamento crítico.

Para Paulo Freire, o diálogo no processo educacional já deve estar inserido no conteúdo programático, abrindo espaços para a interação e troca de conhecimentos, portanto, não é uma doação de um ser iluminado a um pobre sem educação, mas uma troca intermitente que possibilita a liberdade para ambos. A educação autêntica para o pensador Paulo Freire faz-se de “A com B, mediatizados pelo mundo” considerando as condições estruturais de poder em que o pensamento e a linguagem do povo se constituem.

Sugiro a leitura de toda sua obra!


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