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Ana Regina Rêgo

Agnotologia e a produção da ignorância

Tornou-se comum e corre de boca em boca, tomada de forma crítica, mas também, apropriada pelos produtores intencionais de ignorância.

12/12/2019 12:02h

Caríssimos leitores! Hoje vamos falar de ignorância produzida a partir da instauração de um processo de dúvida no seio da sociedade. Vivemos em um momento em que a palavra mediocridade, como sinônimo de uma concentração da ignorância, sobretudo, relacionada ao pensamento, relacionada a ética e a uma boa educação, que nada tem a ver com um processo civilizatório eurocêntrico, mas que tem a ver com índole e com as boas intenções; tornou-se comum e corre de boca em boca, tomada de forma crítica, mas também, apropriada pelos produtores intencionais de ignorância.

Estamos vivenciando uma proliferação de contra-narrativas científicas, históricas, educacionais em vários pontos do planeta que, teoricamente, já haviam ultrapassado o estágio da ignorância e onde a cientificidade aparentava ter voz preponderante. Ledo engano, os indivíduos e as sociedades encarceradas em valores, em muitos casos de um conservadorismo que remete à idade média, tem abraçado com grande empolgação os discursos que descredibilizam a ciência, a história e os avanços da medicina, por exemplo.

Nesse contexto o historiador americano Robert Proctor da Universidade de Stanford cunhou na década passada, o termo Agnotologia e publicou em parceria com Londa Schiebinger o livro Agnotologia da construção e descontrução da ignorância, disponível no site da própria universidade no link https://www.sup.org/books/title/?id=11232 .

A agnotologia dedica-se a estudar os meios utilizados para produção de um processo coletivo de ignorância no seio da sociedade, como temos visto com maior clareza, recentemente, nas eleições de 2016 nos Estados Unidos, nas eleições de 2018 no Brasil, um pouco antes em países da África, assim como, no processo do Brexit na Inglaterra, dentre vários outros países e contextos.

Em síntese, dedica-se a estudar os fenômenos da desinformação deliberada produzida culturalmente e socialmente com o intuito claro de promover um processo de ignorância social e coletivo, tendo a dúvida como motor desse processo de construção de outras versões que se afastam da factualidade, muitas vezes inegável e redundantemente visível.

Vale destacar que o mainstream político atual adotou e acolheu essa prática a partir de uma contextualidade complicada que, infelizmente, não temos espaço ou tempo para aqui detalhar, contudo essa prática de produção intencional da ignorância a partir das fábricas de desinformação (fake News, pós-verdade, etc.), impulsionadas pelas possibilidades tecnológicas com o uso de bots, trolls, algoritmos, etc., mas também com a apropriação dos métodos jornalísticos e históricos para construir as verdades em seus campos; nasceu no campo mercadológico e, mais especificamente, na indústria do tabaco, embora as raízes históricas estejam no começo do século XX.

As grandes corporações da indústria do tabaco ainda nas décadas de 1970 e 1980, momento em que se começava a questionar as consequências do consumo de tabaco para a saúde e a sociedade civil norte-americana se organizava para limitar as formas de visibilidade do produto, de modo a diminuir a influência no público que se via seduzido pelos lindos comerciais em que o cigarro era sempre associado à juventude, beleza, sucesso e saúde.

O documento O tabagismo e a proposta de saúde escrito pela empresa Brown & Williamsom que deveria ter sido adotado pela indústria do cigarro e outros produtos tabagistas, para tentar neutralizar as ações dos grupos sociais antitabagistas naquele país, revela os passos necessários para criar no público, primeiro a dúvida, depois a certeza e a garantia da parcela de mercado consumista.

A primeira das estratégias seria o trabalho a partir da mídia de massa. Mapear os locais em que se há necessidade e abertura para especialistas colocarem seus posicionamentos, de preferência, contrários ao que diziam os cientistas. Cooptar especialistas favoráveis à sua causa e colocá-los em locais chaves da mídia, contrapondo, no caso do tabaco, a ideia de que o cigarro faz mal à saúde. Nesse sentido, os cientistas que desenvolveram e desenvolvem trabalho sério para tentar impedir que o câncer provocado por determinados produtos se torne epidêmico, passa a ser contestado por pessoas alçadas midiaticamente à condição de cientistas/especialistas, mas cujos trabalhos são apenas produções narrativas sem base real. Esse processo tem sido adotado de forma generalizada para as questões do clima e da sustentabilidade ambiental, por exemplo, mas também para a questão da eficiência das vacinas.

Como suporte a essa primeira ação, a ciência também precisava ser cooptada para gerar credibilidade e é aí que se entra com a criação de pseudocientistas, pseudojornalistas, pseudohistoriadores que são pagos para tratar temas favoráveis aos grandes mercadores. Como também pseudocientistas políticos que dão base a um pensamento medíocre que procura fundir as bases do totalitarismo sob o manto democrático. Nessa trajetória de construção da ignorância vários institutos think thanks criam formas e fórmulas de construção de pseudoverdades a partir da utilização artificial de métodos utilizados no campo científico. Chegando, inclusive, a criar cópias dos relatórios de instituições renomadas como a ONU e seu relatório sobre as mudanças climáticas, obviamente, inserindo dados fictícios.

O último pilar de implantação da estratégia da ignorância é também o primeiro, ou seja, é trabalhar desde a base, desde o processo de educação, portanto, são contra-narrativas que visam trazer a ignorância para o berço, por esse motivo, Paulo Freire está sendo tão escrachado. Um pensador brasileiro (do sul do planeta) que influenciou e é referência em todo o mundo, por ter criado métodos de educação crítica, que não só ensina a ler e escrever, mas que ensina a pensar, é de fato um homem pensamento que ameaça as intenções da dominação medíocre e conservadora que hoje tenta se impor em nosso país, a partir da cooptação das mentes e corações abertos a esse tipo de discurso.

Quantos e quantos vídeos, criados intencionalmente, para geral a ignorância chegam a nós através dos grupos familiares (vale destacar que os grupos familiares no Brasil são os maiores difusores de fake News) e que falam que as mudanças climáticas são invenções. Esses são repassados como verdades por uma grande porcentagem de brasileiros, mesmo que os problemas estejam batendo à nossa porta, com vários tipos de desastres ambientais acontecendo e se anunciando pelo mundo.

Quantos e quantos vídeos em formato jornalístico chegam a nós enviados pelos nossos parentes e que tratam de elogios aos governos da ditadura civil-militar negando que houve um processo ditatorial e elogiando os processos econômicos daquele tempo, assim como, a sensação de segurança que aparentava existir, quando a aparência somente encobria os rastros de sangue da violência governamental, em que o pensar diferente era crime.

Nos grupos evangélicos a produção da ignorância passa por ataques ao movimento feminista, pelos ataques aos avanços da medicina e pela louvação extrema a palavra de um Deus que discrimina o outro e não respeita as demais crenças, não respeita o direito à liberdade de pensamento e de expressão. Condena as religiões de matrizes africanas e seus deuses. Condena as culturas indígenas e querem “evangelizar” em um processo de dominação similar ao que sofremos no “encontro” cultural de 1500.

Fiquemos todos atentos. Somos todos alvo das estratégias de construção da ignorância. Fica a dica!


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