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Ana Regina Rêgo

A perfeição (im)perfeita, os valores e nós: os produtos mais lucrativos

Ana Regina Rêgo - Jornalista

13/02/2020 17:36h

Jean Baudrillard, filósofo francês, em algumas de suas últimas obras, se pôs a analisar a virtualidade da vida e o que ele denominava, ora de assassinato do real, ora de cadáver do real, e foi um contumaz denunciador da complexidade que iniciava a envolver a sociedade ocidental no adormecer do século XX e que viria a se potencializar no século XXI, cujos primeiros anos ele ainda viveria.

A tecnologização da vida em sociedade, a centralidade midiática e a internalização dos processos virtuais como inerentes à vida humana passaram de processos de interação externos ao corpo e ao espírito, para compor uma essencialidade da vida no século atual. Não somente os suportes tecnológicos que nos auxiliam na comunicação, interlocução, como nos são extremamente necessários para a realização de serviços de qualquer natureza.

Nos dias atuais, um aparelho celular carrega em si, toda as potencialidades da vida na virtual, fazendo-nos sumir dos espaços reais de convivência, negociação e aprendizagem, por exemplo. Pelo celular ou pelo relógio digital, vamos ao banco, pagamos contas, conversamos diretamente, por áudio ou vídeo, enviamos e recebemos mensagens de áudio e vídeo, lemos as últimas notícias, fechamos as portas da casa, observamos o que acontece em nossas casas em nossa ausência. Respondemos mensagens por e-mail, pedimos um transporte através dos vários aplicativos, pedimos comida, compramos entradas para shows, compramos roupas, equipamentos, passagens aéreas, reservamos hotéis, planejamos viagens, batemos fotografias, filmamos nosso cotidiano e, principalmente, expomos nossa vida em nossos perfis ( avatares) virtuais nas redes sociais, dentre um sem fim de atividades diárias que realizamos.

O aparelho que carregamos em nossas mãos como se fossem uma extensão do corpo, especificamente, como extensão dos membros superiores, mas também dos olhos, pois representam uma janela infinita para um mundo infinito, encontra-se ligado a um número considerável de aplicativos que por sua vez, pertence a empresas que conformam o mercado virtual e possuem grande poder sobre os usuários. É bom pensar, que a maioria dos aplicativos que utilizamos nos chegam de forma gratuita e aparentemente nos empoderam do ponto de vista da fala, da reverberação do nosso discurso e da reflexividade desse em determinado contorno social.

Já na década de 1990, Braudrillard percebia que as sociedades caminhavam movidas por uma forte compulsão e por necessidades criadas mercadologicamente, que se revelavam através de uma nova bios, que por sua vez, agindo sobre todos, por meio das tecnologias da comunicação que agregam interação e afetividades, se expande por meio do que denominamos de “[...] rodovias da informação, que bem poderiam ser chamadas de rodovias da desinformação”.

Para Baudrillard, o desaparecimento do real frente ao que denominava de crime perfeito, ou seja, o tempo real, a instantaneidade aliada à ubiquidade informacional, tem em seu processo não uma ausência de realidade, mas um excesso. O deslocamento para um mundo virtual teria em sua visão provocado uma superação da alienação, e teria nos levado a um estado de privação do Outro, de qualquer alteridade ou negatividade. A exposição de um mundo perfeito em um tempo perfeito, em uma realidade pura e absoluta, livre de todo e qualquer mal, sem doenças, sem feiura, sem infelicidade, comporiam o crime perfeito, que contra o próprio atingiria sua perfeição que seria também o momento de desaparecimento. Mas como diz o próprio Baudrillard o crime não é perfeito e as fissuras que então se anunciavam e eram vistas por poucos, tornaram-se hoje, verdadeiras crateras da infelicidade e da manipulação que pregava ultrapassada pelo empoderamento social nas infovias.

Como bem afirma este autor, a visão mais comum aponta o virtual como oposto do real, todavia, em seu entendimento, o real é inapreensível, portanto, em essência uma simulação de si mesmo. O que há em sua visão, são efeitos de real que se coadunam com efeitos de verdade, efeitos de objetividade, mas o “ real em si não existe”, logo para Braudrillard, o virtual seria o hiper-real. Um lugar que nasce tendendo a perfeição e que hoje se lança no abismo dos acirramentos traçados no hiper-real e que chegam ao espaço social concreto, contudo, sem essa consciência contida no pensamento do filósofo em pauta. O virtual “é o que nos pensa: não há mais necessidade de um sujeito do pensamento, de um sujeito da ação, tudo se passa pelo viés de mediações tecnológicas”.

Ao pensar a relação entre o objeto de acesso ao virtual no que ele denomina de senhas, ou seja, os códigos e os signos, a linguagem, os discursos e o que tudo o que poderia produzir lugares de trocas simbólicas e o sistema de valores, Baudrillard avalia que poderia ser possível uma possibilidade das coisas circularem sem que as trocas fossem forjadas pelo valor de uso ou pelo valor de troca, muito embora houvesse a presença de uma consciência, de que ao lado dos valores mercadológicos, existem os valores morais, como também os estéticos, que terminam por estruturar um sistema de valores em que se determina o bem e o mal, numa concepção mais próxima de Nietzsche. Entretanto, ao pensar a possibilidade sociedades não pautadas em valores, Braudrillard já alertava para um possível “[...]curto circuito no sistema de valores e na esfera de influência que ele alicerça”.

Todavia, na contextualidade analisada por Braudillard diferentemente dos dias atuais, o espaço virtual teria supostamente aberto mão dos valores em favor de uma compulsiva promoção da informação, através de um processos tecnológicos e computacionais que fariam os efeitos de real desaparecem. Entretanto, o filosofo parecia desconfiar de que o crime perfeito teria algo a mais em sua aparente transparência holística, guardando nas sombras suas verdadeiras intenções, visto que, “ [...] podemos igualmente pensar que tudo isso não passa de caminho mais curto para uma jogada que não podemos ainda discernir qual seja”.

Efetivamente, são os valores que vão implodir com o crime perfeito baudrillardiano, são valores expressos e expostos em nossos perfis que após minerados, garimpados e vendidos, permitem a polarização das sociedades nos dias atuais e, portanto, são as nossas essências tornadas transparentes e muito distantes da perfeição pensada, que em si, são os principais produtos de um mercado virtual, pautado em ideologias potencialmente, morais e posições econômicas neoliberais.

Nesse cenário de uma vida virtual, enquanto projeção do real ou como uma hiper-realidade nos termos de Braudillard que nos tornamos escravos de um sistema de valores e de um grande mercado informacional e simbólico, em que somos os produtos principais.


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