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Geração Z: a criatividade e o individualismo dos jovens nativos digitais

Quando eles nasceram, o mundo, em dimensões, era o mesmo que sempre fora há bilhões de séculos, mas quase que paradoxalmente, as distâncias deste mesmo planeta tinham se encurtado. A chegada da internet aproximou a sociedade, revolucionou as relações sociais e, para quem chegou em um meio já conectado, a forma de se colocar neste mundo também foi influenciada. 


Os jovens da geração Z, nascidos a partir da metade década de 90, são resultados de um emaranhado de fatores que tornam esta a geração que desconhece viver somente a parte “off-line” da vida. Críticos, dinâmicos, exigentes, sabem o que querem, autodidatas, não gostam das hierarquias nem de horários poucos flexíveis. As características que se sobressaem na atual geração de jovens mostram o porquê do mundo ainda estar se adaptando a esta nova ‘safra’ de seres humanos. 


Os relacionamentos se reinventam, sejam eles familiares ou afetivos; o mercado de trabalho tenta se moldar, a educação também exige novas fronteiras, tudo para responder as demandas de uma geração que é delimitada, entre outras coisas, por seu imediatismo. 

Em um estudo intitulado “Likers - A Nova Geração de Consumidores”, encomendado pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, em 2014, os pesquisadores destacaram aspectos sociais que influenciam esta geração. Entre eles, o fato de terem mães inseridas no mercado de trabalho, maior diversidade na formação familiar, além da sensação de insegurança e o maior acesso ao mundo através da internet. Influenciados por estes aspectos sociais, o comportamento da geração Z desafia os mais atentos estudos, que tentam delimitar se esta geração ganha em aspectos positivos ou negativos na forma de intervir no mundo. 


Foto: Elias Fontinele/ODIA


Há muito o que celebrar, mas preocupações tamanhas. Se por um lado o fato de serem ultraconectados, autênticos, adaptáveis, criativos, faz este grupo largar em vantagem quanto à forma de se portar de outrora; outros aspectos, como o individualismo, a solidão e a frustração, freiam a geração que cresceu com a expectativa de poder mudar o mundo através da tecnologia e da interação possibilitada por ela. É um cenário de contradições. Expectativas que se confrontam com a sua aplicabilidade na vida real. 


Se há interação por meio das redes, há um isolamento no convívio da ‘real life’. Sentar-se à mesa com os familiares para uma conversa despretensiosa é missão árdua. Por isso, a “Z” também é chamada de Geração Silenciosa, porque se bastam na troca individual entre si e a tecnologia, os fones de ouvido são companheiros fiéis e aspectos de egocentrismo ficam cada vez mais latentes. 


Criados por pais, mães ou familiares em sua grande maioria nascidos nas gerações X e Y, que tiveram que ralar duro por sua independência financeira, trabalharam em empregos que não gostavam para ter o mínimo para viver e proporcionar aos filhos uma vida melhor, essa geração cresceu acreditando que merecia mais – e o melhor. Tornam-se protagonista na sua vida, em experiências compartilhadas a todo segundo, mas demonstram não lidar com frustrações ou adiamento de planos. A geração Z é, assim, um desvendar-se constante. Evoluem com um mundo que não para de mostrar novas fronteiras da tecnologia, mas, por isso, também são bombardeados com a rapidez de uma sociedade cada vez mais exigente. 


Para traçar o perfil desta geração, a reportagem do Jornal ODIA embasou-se em estudos científicos, opiniões de especialistas e, claro, escutou o que dizem os jovens que se tornam os protagonistas deste mundo conectado. Eis aqui o Raio-X da Geração Z. 


Processo de individualização


A geração Z já nasceu cercada de tecnologia digital, ela se conecta e compartilha suas experiências com o mundo todo. Essa hiper interação digital, no entanto, não se reverte propriamente em laços reais. E é por isso que o doutor em psicologia social, Denis de Carvalho, alerta: “essa geração passa por um processo de individualização drástica, porque não usa mais espaços reais de interação”. 


Foto: Elias Fontinele/ODIA


Para o estudioso, os jovens que se formam nessa sociedade são marcados por diversas condições socioambientais que os levam para um maior isolamento. Se por um lado o advento da internet possibilitou avanços importantíssimos na consolidação desses indivíduos, ela também tolheu a convivência em sociedade. “Temos uma geração que tem pouca vivência com o diferente, porque tem pouco espaço de convivência. A violência vai minando esses locais. A rua era um espaço de convivência do diferente, hoje as pessoas não vão mais para a rua; a escola pública da mesma forma, o transporte público. Hoje, os jovens de classe média são superprotegidos. Posso estar conectado com pessoas bem distantes e ter pouco contato com pessoas que estão próximas. Essa é a constante”, considera. 


Dessa análise vem a individualização destacada pelo psicólogo. Denis lembra que tais fatores levam a dificultar até mesmo as definições de indicadores de transição. “Nós não sabemos mais o que é o adulto. A literatura fala de adolescência postergada e isso dificulta a criação do senso de autonomia, as pessoas não têm clareza do que é ser adulto”, destaca o psicólogo. 


Consequências 


É como se os jovens não fossem maturados para a idade adulta. A inabilidade de lidar com esse amadurecimento conta para que aspectos como depressão, ansiedade e solidão disparem desde 2012, com uma diminuição nos índices de felicidade. A taxa de suicídio entre os adolescentes aumentou mais de 50%, assim como o número de adolescentes com depressão no nível clínico. 


Para o psicólogo, é preciso buscar um maior equilíbrio nas relações entre tecnologia e mundo real. “Temos que buscar um equilíbrio maior por causa da complexidade do mundo. Hoje, as pessoas passam muito tempo no espaço escolar, apesar de benéfico, esse espaço é uma redoma que afasta o sujeito da sociedade também. Os condomínios da mesma forma. É preciso repensar essa transição para termos mais vivencias comunitárias e afetivas dessa garotada. Discutir afeto é necessário”, finaliza.

*Leia a reportagem completa na edição de fim de semana do Jornal O DIA