O ano é 2016, mas o que acontece nas salas
de bate-papo da internet remete a pelo menos uma década. Da mesma forma que
acontecia na época em que as redes sociais no Brasil ainda se restringiam ao
Orkut e ao MSN, é naquele ambiente online, repleto de pessoas desconhecidas,
que os pedófilos encontram suas vítimas.
Bastou entrar em uma sala de bate-papo do site UOL, direcionada às pessoas de Teresina, para que o nick (apelido) Nina12 atraísse rapidamente a atenção dos homens. A menina de 12 anos, tímida, inocente, porém curiosa, foi assediada por pelo menos cinco homens.
Fotos: Moura Alves/ODIA
Imagem ilustrativa
Alguns fizeram convites diretos: “Vamos se encontrar hoje a tarde?”. Outros demonstraram certa preocupação: “Nunca vi uma menina tão nova aqui”. Um deles foi além e pediu o número do whatsapp. Foi com este que a reportagem manteve contato por alguns dias, tempo suficiente para constatar que o pedófilo apresenta um perfil sedutor e geralmente trata a vítima com carinho e atenção.
Segundo a psicóloga Cinthya Selma de Holanda, especialista em psicologia infanto-juvenil, reconhecer esses abusadores é uma tarefa difícil. “São pessoas com as quais se convive socialmente, sem motivo específico para desconfiança”, alerta.
Para os pedófilos, o mundo virtual – através de sites como as salas de bate-papo - oferece a grande vantagem do anonimato. Valendo-se dessa possibilidade, eles conseguem enganar, seduzir ou induzir crianças e adolescentes a acessarem conteúdos inadequados, como pornografia. As vítimas ainda podem ser encorajadas a enviar fotos e informações pessoais para serem utilizadas de forma criminosa.
Muitas são as qualificações para diagnosticar um pedófilo, entre elas a atração por menores de 13 anos e a diferença de, no mínimo, cinco anos de idade entre a vítima e o abusador.
Jogo de sedução
Pode ser uma filha, uma neta, uma sobrinha. Pode ser a menina curiosa e esperta ou a criança ingênua. As vítimas da pedofilia possuem características diversas e são facilmente seduzidas pelo falso romantismo dos seus algozes.
A psicóloga Cinthya Selma de Holanda informa que a conquista da confiança por parte do pedófilo pode ocorrer através de uma tática conhecida como grooming, em que o contato é constante e desenvolvido ao longo do tempo. “Elogiar, oferecer presentes, chantagear e até intimidar são verbos que fazem parte do cotidiano do abusador”, afirma a especialista.
A estratégia ficou evidente durante os dias em que a reportagem manteve contato com um pedófilo. O homem, que se identificou como Alex, mandava mensagens a todo instante e elogiava a beleza da suposta menina, embora não tivesse visto fotos dela. “Você é linda! Você é top”, eram algumas das frases ditas.
Ele também fazia questão de destacar os bens materiais que supostamente teria, como carro e moto. “Tenho um Gol Prata todo automático. Você gosta de carro?”, perguntou. O veículo, inclusive, seria o local onde o abuso iria acontecer. “Você teria coragem de conversar comigo dentro do carro?”, questionava.
Era constante ainda a insistência por fotos, áudios e para que o encontro acontecesse logo. “Você pode que horas? Aonde lhe pegaria?”, “Então vamos pra onde eu quiser?”, “Será que posso lhe ver? Só quero lhe ver, não precisa sair”, “Mande foto do seu corpo, por favor”, “Quero ouvir a sua voz”, dizia o pedófilo.
A maioria das abordagens era feita de forma envolvente e sedutora, ao sugerir, por exemplo, que iria ensinar muitas coisas à menina. “Você quer que eu lhe ensine a beijar gostoso? Você quer aprender tudo comigo?”, perguntava.
Explorar o sentimento de medo também era uma estratégia do pedófilo, com o objetivo de estimular o sigilo. “E se sua mãe souber de nós dois, como ficaria? Ela me mataria? Ela me mandaria pra cadeia?”, “Então podemos sair escondido, né?”, falava o suposto Alex.
O pedófilo chegou a sugerir que era melhor parar com as conversas. “Eu tenho medo de ser preso, moça”, “Alguém sabe que estamos nos falando? Jura por Deus?”, perguntava. Mas, quando a suposta menina concordava em não falar mais, ele voltava atrás. “Vamos nos ver. Vamos tentar. Aonde eu lhe pegaria?”, insistia.
Na análise do psiquiatra e professor da Universidade Federal do Piauí, Leonardo Luz, essa pode ser também uma estratégia de conquista. “Falar que poderá acontecer, mas que tem medo, já é uma sedução. Dizer para uma criança de 12 anos que poderá se encontrar com ela, tem um quê de fantasia”, afirma o especialista.
Era constante ainda a insistência por fotos, áudios e para que o encontro acontecesse logo. “Você pode que horas? Aonde lhe pegaria?”, “Então vamos pra onde eu quiser?”, “Será que posso lhe ver? Só quero lhe ver, não precisa sair”, “Mande foto do seu corpo, por favor”, “Quero ouvir a sua voz”, dizia o pedófilo.
Em determinado momento, o homem falou claramente sobre pedofilia e sobre o risco de ser descoberto. “Tenho medo de você, sabia? Porque muitas pessoas foram presas pela polícia só porque marcaram encontros com meninas da sua idade. A lei brasileira diz que é pedofilia ficar com meninas novinhas”, destacou, embora tenha afirmado em seguida que não estava fazendo nada de errado.
A titular da Delegacia da Criança e do Adolescente, delegada Kátia Esteves, lembra que existe diferença entre a abordagem de um pedófilo e a de um estuprador. “O primeiro é envolvente, o outro usa da força”, destaca a delegada.
Por outro lado, ela defende que ambos cometem o mesmo crime, que é o de estupro de vulnerável. “Não importa como o homem conseguiu realizar seu intuito, nem se a criança também queria. O adulto é quem precisa ter a noção de que não pode. A diferença, portanto, é apenas na abordagem, e não na tipificação do crime”, afirma Kátia Esteves.
Abuso online
A internet se mostra como o meio ideal para os grupos de abusadores manterem contato com crianças e adolescentes. Sem precisar revelar a identidade, eles conseguem a interação necessária para fins sexuais, bem como adquirem material para gerar e difundir imagens de pornografia infanto-juvenil. Surge, então, o conceito de abuso online, que éa manifestação do abuso sexual por meio da internet.
A psicóloga Cinthya Selma de Holanda afirma que isso pode acontecer de diversas maneiras e chegar ou não ao contato pessoal, embora o desejo desse encontro sempre exista por parte do abusador. “Em alguns casos, tal o contato pode terminar em violência física ou sexual”, alerta a especialista.
As crianças ou adolescentes com baixa estima, que não têm com quem conversar, são pouco ouvidos pelos pais ou não sabem com quem tirar suas dúvidas, podem estar mais vulneráveis ao abuso online. “Quanto mais a criança ou adolescente se sentir sozinha, mais estará sujeita a entrar nesse jogo cruel de sedução”, lembra a psicóloga.
Antigamente, os menores eram orientados a não falar com estranhos e nem aceitar nada que eles oferecessem. Tal princípio vale para o ambiente virtual. “É importante, sobretudo, que os jovens se sintam seguros para compartilhar suas experiências com pais, professores e familiares”, reforça Cinthya.
Transtorno de preferência sexual
A pedofilia é considerada um distúrbio sexual do grupo das parafilias, assim como ocorre com sadomasoquismo, por exemplo. Trata-se, portanto, de um transtorno de preferência sexual, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Isso significa que o pedófilo não é necessariamente um criminoso, quando ele controla os impulsos provocados pela doença. O psiquiatra Leonardo Luz destaca que, mesmo sem nunca ter praticado o ato sexual com uma criança, mas se existirem pensamentos pedofílicos recorrentes ou dominantes, já é caracterizado o distúrbio.
Por outro lado, se o pedófilo ceder ao transtorno de impulso, poderá cometer crimes como estupro de vulnerável, realização de desejo sexual com menores de 14 anos, aliciamento de menores, posse de pornografia infanto-juvenil, entre outros.
Segundo Leonardo Luz existem diferenças entre a parafilia e a psicopatia. O psicopata tem transtorno de personalidade antissocial. “Isso não tem nada a ver com a pessoa retraída socialmente. No caso, é a pessoa que não obedece às regras e nem às convenções sociais. Geralmente são dissimuladas. Exemplo disso é alguns criminosos, os assassinos em séries ou até os políticos”, explica. Já a parafilia é um transtorno de identificação do objeto de prazer, que na pedofilia, é a criança ou o adolescente, explica o psiquiatra.
Existem pelo menos dois tipos de pedófilos: os exclusivos, que sentem atração apenas por menores, e os não-exclusivos, que se relacionam também com adultos. “Dentro desses perfis existe ainda o pedófilo de orientação homossexual, heterossexual ou bissexual. Muitas vezes há o preconceito de associar a pedofilia com a homossexualidade, o que não tem nada a ver”, destaca Leonardo Luz.
Outra classificação que não está cientificamente registrada é a que separa os pedófilos entre os que estão em genuíno sofrimento e os que não sentem qualquer tipo de remorso. Os primeiros buscam entender o seu distúrbio e não aceitam os pensamentos pedofílicos. “Estes geralmente procuram tratamento, mesmo sem cometer o ato, e quando identificam uma situação de vulnerabilidade, evitam. Há um sofrimento verdadeiro com a situação”, afirma o psiquiatra.
Por outro lado, existem os pedófilos que não sentem culpa e usam da sedução para satisfazer o seu prazer a qualquer custo. “Estes são os que vão para a rede social ou para locais com aglomeração de crianças. Tem gente que se torna professor ou até motorista de van escolar. Este perfil, quando busca tratamento, é apenas para conseguir algum respaldo legal ou um atenuante, caso seja preso”, destaca o especialista.
Nessa discussão sobre pedofilia é possível ainda destacar a questão cultural que envolve a relação entre meninas e homens mais velhos. “Essa situação é alarmante, principalmente em cidades do interior do estado. Crianças de 13, 14 anos se relacionam com adultos e isso é consentido pelos familiares. Tudo é encarado com normalidade”, lamenta o psiquiatra.
Para além disso, é
marcante na sociedade a ideia de que adolescentes, principalmente do sexo
feminino, sabem exatamente o que querem. O corpo delas é sexualizado de forma
natural, justificando o fato de se tornarem desejo masculino.
Tratamento para pedófilos
No Brasil ainda não existe tratamento específico para a pedofilia, mas alguns projetos polêmicos estão em discussão no Congresso Nacional, como a castração química.
Segundo o psiquiatra Leonardo Luz, a Austrália e os Estados Unidos e alguns países da Europa permitem a realização da castração química, mas somente com a autorização do indivíduo. “Se ele permitir, passará a receber uma dose de hormônio injetável mensalmente. Isso tem efeitos colaterais, mas teoricamente garantiria a prevenção do ato pedófílico”, afirma.
O tratamento em questão é indicado para os pedófilos que passam por genuíno sofrimento ou que foram presos e querem receber a liberdade condicional. “É um debate interessante, porque precisamos de alternativas para lidar com essa situação de risco”, defende o psiquiatra.
O tratamento também poderá ser psicoterápico, mas de acordo com Leonardo Luz não traz resultados satisfatórios. “Algumas teorias mais evidentes mostram uma etiologia não só psíquica, mas também orgânica”, ressalta.
No ambulatório de sexualidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Pro-Sex, é desenvolvido um projeto de atendimento aos pedófilos. O psiquiatra Leonardo Luz cogita a possibilidade de trazer para o Hospital Universitário da Ufpi um trabalho parecido, mas esta é uma ideia futura.
Vítimas sofrem consequências emocionais
Assim como nas histórias infantis, os “lobos” reais podem provocar grandes danos psicológicos e emocionais às crianças ou adolescentes. O impacto do abuso sexual para uma vítima de pedofilia pode motivar sentimentos como vergonha, timidez, impotência, desamparo, inferioridade, falta de valor próprio e aversão por si mesma.
A psicóloga Cinthya Selma de Holanda afirma que a criança ou adolescente que internaliza suas respostas à pedofilia apresentará sinais de recolhimento, depressão, tristeza e autoculpa. Também poderá externalizar sua mágoa com ataques, hostilidade, violência e raiva; pode ainda culpar os outros. “Seja qual for o modo como responde emocionalmente, a origem dessa resposta é um turbilhão interno de vergonha, ansiedade, medo e confusão”, afirma.
Psicóloga Cinthya Selma de Holanda, especialista em psicologia infanto-juvenil
De acordo com o psiquiatra Leonardo Luz, alguns estudos sugerem que a criança abusada torna-se abusadora em potencial na fase adulta. “Certas teorias evidenciam que até 70% dos pedófilos foram abusados na infância. Mas outros estudos não corroboram”, afirma, chamando atenção para necessidade de olhar com muito cuidado uma vítima de abuso sexual infantil.
A resposta ao trauma sofrido não pode ser mensurado de forma generalizada. “Não existe um quantificador objetivo para medir a gravidade do caso. Tudo se passa no registro da subjetividade”, avalia Cinthya.
Nesse sentido, são determinantes fatores como a idade na época em que o abuso aconteceu, a duração e frequência da situação, os tipos de atos sexuais praticados, o relacionamento da vítima com o abusador, a idade e o sexo dele e até os efeitos da revelação do ocorrido.
O fato é que alguns minutos de prazer de um adulto podem se transformar em sofrimento, mágoa e angústia para o resto da vida de uma vítima. E assim como o pedófilo precisa tratar o seu distúrbio, a criança abusada necessita de acompanhamento por profissionais da saúde mental. Isso porque a confusão de sentimentos certamente terá efeitos danosos sobre a vítima, tanto a curto quanto a longo prazo, e em níveis diferentes.