A Secretaria de Saúde do Piauí (Sesapi) divulgou hoje um boletim epidemiológico com números sobre mortes provocadas por suicídio. De acordo com esses dados, o estado possui Taxa Bruta Mortalidade Especifica por Suicídio 43% maior que a média nacional. Enquanto no Brasil a taxa é de 5,3 mortes por grupo de 100 mil habitantes, no Piauí esse indicie chega a 7,6 mortes, considerando dados de 2014.
O estudo foi divulgado em evento feito em alusão ao Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio.
Cristiane Moura Fé, superintendente de Atenção à Saúde da Sesapi (Foto: Assis Fernandes/ O Dia)
No Nordeste, esta taxa é de 4,3 casos para cada 100 mil. Ou seja: o Piauí atinge quase o dobro da media regional. O estudo também registrou um aumento do número de casos de 2013, quando a taxa era de 7,1 óbitos para cada 100 mil habitantes, para 2014, quando alcançou 7,6.
Segundo a superintendente de Atenção à Saúde da Sesapi, Cristiane Moura Fé, a partir da análise desses dados sera possível saber que intervenções devem ser prestadas a esse agravo de saúde pública. "Os dados que a gente apresenta, a gente também vive. Um sobrinho meu de 22 anos tirou a própria vida. O irmão também tentou." disse ela, bastante emocionada.
Chama a atenção também que o número de óbitos entre os homens é mais de 4 vezes maior do que o número de mortes de mulheres. No Piauí, a taxa de suicídio de homens é de 13,1 para cada 100 mil habitantes, e de 3,7 para mulheres.
Por outro lado, as tentativas são mais frequentes entre as mulheres. Em números absolutos, no ano de 2016, considerando dados coletados até junho, foi registrado que 322 mulheres atentaram contra a própria vida, contra 199 tentativas por homens
."Essa é uma grave questão de saúde pública a ser enfrentada. Esses dados estão na nossa casa. Esconder não dá mais", disse Cristiane Moura Fé.
O estudo revelou também que a faixa etária onde há mais mortes é a de 20 a 29 anos, seguida pela faixa de 30 a 39 anos. Cristiane destaca, no entanto, que o suicídio é uma das 10 maiores causas de morte em todas as faixas etárias. O levantamento revela inclusive casos de suicídio de crianças entre 10 e 14, e idosos com mais de 79 anos.
"Nossa mente adoece como o corpo", diz mãe que perdeu filho
Há um ano e 7 meses, Valdete Silva tem que conviver com a dor de ter perdido um filho por suicídio. Ela deu depoimento no evento realizado hoje pela Sesapi, e destacou a importância de falar sobre esse assunto e de tratar o tema como se trata outras doenças. O filho dela tinha depressão, déficit de atenção e tomava remédios.
Valdete Silva deu depoimento emocionado sobre o filho. (Foto: Assis Fernandes/ O Dia)
"Ele sempre me dizia: 'Mãe eu tenho tudo para estar feliz, por que não estou?' A gente que está perto nunca acredita que a pessoa vá cometer suicídio. Mas essas pessoas criam um mundo particular. A nossa mente adoece, assim como o corpo.", disse. Segundo ela, a informação é fundamental para evitar casos. "A gente não vê debates nas igrejas, nas escolas, ou na imprensa. Somos uma geração de pessoas despreparadas para enfrentar o suicídio. Que haja divulgação com responsabilidade, mas sem acusação. A pergunta 'por que ele fez isso?' dói tanto, e acredito que nem quem interrompeu a vítima teria essa resposta". disse Valdete Silva.
OS transtornos mentais mais comumente associados ao suicídio são depressão, transtorno de humor bipolar, dependência de álcool e outras drogas. Esquizofrenia e certas caracteristicas de personalidade também são fatores de risco.
Em Teresina, um dos serviços de prevenção é oferecido pelo CVV (Centro de Valorização da Vida). Pessoas com ideação suicida podem ligar para o número 3222-0000 e conseguir ajuda.
Outras formas de obter informações sobre prevenção de suicídio é no site da Organização Mundial de Saúde (OMS), e no site do Ministério da Saúde, que possui o Programa de Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio. Uma alternativa de leitura é o livro "Viver é a melhor opção", do autor André Trigueiro, publicado em 2015.
Ações e capacitações
A superintendente de Atenção à Saúde da Sesapi, Cristiane Moura Fé, destaca que é preciso investir em pesquisas para que se tenha condições de enfrentar a situação, inclusive investindo em capacitação nos profissionais da Saúde, desde a atenção básica até aos que estão nas emergências dos hospitais. “Os agentes da atenção básica estão sendo preparados para atender a vítima e a família. E quando ele chega na emergência, é preciso que esse profissional esteja pronto para atendê-lo da melhor forma possível”, fala.
Ainda para este ano, estão sendo pensadas ações voltadas para os trabalhadores da saúde, como oficinas regionais, discussão da temática em todos os municípios, e um cuidado especial para os pacientes com dependência química. Além disso, o Secretário de Saúde, Francisco Costa, aprovou a proposta para criação de uma coordenadoria com ações voltada para a prevenção do suicídio.
A psicóloga do Ambulatório do Hospital Getúlio Vargas (HGV), Zilma Maria Bento Cavalcante, enfatiza que em muitos casos o paciente chega ao consultório com um encaminhamento de ideação suicida, mas na maioria das vezes ele está sozinho e não tem o apoio da família.
“Tem a questão do medo, dos estigmas, e ele está sozinho. É preciso trabalhar a família e a população para que eles possam dar o apoio a essa pessoa. Na clínica, fazemos a ressignificação dessa vida, do que se perdeu e quebrou e precisa melhorar na vida dele, pois é muito confuso entrar em um processo depressivo. E esse trabalho começa desde a infância do paciente, para tentar entender o que está o levando a querer interromper o ciclo da vida”, explica.
Outras atividades
Dando continuidade ao evento, será promovido, nesta quinta-feira (15), um workshop tendo como tema "O suicídio como pauta na saúde", a partir das 8h, no auditório do Hospital Getúlio Vargas (HGV). A palestra será ministrada pela psicóloga da Unidade Integrada do Mocambinho, Valéria Raquel Alcântara Barbosa, além da exibição do documentário “Suicídio no Brasil”.
Também serão feitas rodas de conversas e orientações à população, apresentação artística cultural e encerramento com a dança circular do Grupo Somos Saúde AS, no Parque da Cidadania, às 16h, com a participação das faculdades, Conselhos de Medicina, Psicologia e técnicos da Fundação Municipal de Saúde de Teresina.
Herlon Guimarães, diretor de Atenção à Saúde da Sesapi, acrescenta que essas atividades fazem parte das diversas ações que o governo do estado tem feito para diminuir este índice. “Esse tema deve ser tratado com responsabilidade e nós estamos chamando as organizações sociais, academias, profissionais e serviços que já oferecem esse apoio para que possamos discutir e criar um comitê para termos um grande plano de ação e enfrentar esse indicador muito ruim para o nosso estado”, finaliza.
Essas atividades são promovidas em parceria com o Hospital do Mocambinho, Hospital Getúlio Vargas, ProVida, Centro de Valorização da Vida(CVV), Conselho Regional de Psicologia(CRP21), Conselho Regional de Medicina(CRM), Secretaria de Estado da Educação, e universidades públicas e privadas.