Em uma rápida busca na internet sobre Magia Negra, é possível encontrar diversos sites com alguns passos para realizar a prática, imagens de ritos com o uso de velas e notícias sobre o envolvimento de animais e crianças em rituais de tortura e sacrifício, na maioria das vezes com um fim trágico para ambos. Em rodas de conversa de amigos, o assunto é envolto de especulações, histórias estigmatizadas e narrativas que se confundem com filmes de suspense e de terror.
A antropóloga Verônica Cavalcante (Foto: Elias Fontenele/ O Dia)
Os supostos casos de Magia Negra, quando descobertos e divulgados, já trazem à tona pessoas que participaram dos rituais e são encontradas em um estado de fragilidade e debilidade quase irreversível. As vítimas desses rituais, geralmente, possuem algumas particularidades possíveis de serem identificadas, como marcas e cicatrizes espalhadas pelo corpo e a cabeça raspada, por exemplo. Entretanto, estes sinais também são característicos de ritos realizados em terreiros de religiões de matrizes africanas que, não necessariamente, realizam práticas voltas para o mal. Devido a isso, uma pessoa de fora, mais afastada dessas culturas e dessas tradições, acaba por misturar tudo em um conceito só, confundir todas essas práticas e contribuir para a disseminação de opiniões e discurso equivocados a certa dos temas.
Segundo a antropóloga e pesquisadora na área de religiosidades, Verônica Cavalcante, “nos espaços em que as práticas são voltadas exclusivamente para fazer trabalhos para o mal, em seus rituais, são incorporados espíritos desencarnados, obsessores, onde se utilizam, por vezes, bebidas como aguardente”. Desta forma, a pesquisadora afirma que existe, geralmente, um horário certo para que esses rituais aconteçam. “São cultuadas entidades durante a noite e os rituais geralmente acontecem em terreiros, barracões, mas também, e especialmente, nas matas, em cemitérios e nas encruzilhadas”, acrescenta.
Tomando como base estudos do antropólogo inglês Sir James Frazer, a pesquisadora Verônica afirma que as magias são divididas em três vertentes e operam como “leis de correspondência”. “Em seus rituais, as leis da magia, quando aplicadas, o seu sucesso depende do domínio da tecnologia a ser empregada, da escolha dos objetos a serem manipulados, das fórmulas e da linguagem apropriada”, esclarece. Cabe ao responsável pelo ritual utilizar todas essas ferramentas para reverenciar entidades, realizar tratamentos espirituais e atrair o bem ou o mal.
Linha manipula energias
contra evolução do ser humano
As práticas que seguem a
linha dita “negra”, segundo
Inácio*, possuem energias
manipuladas contra a evolução
do ser humano e, quando
é utilizada contra outra pessoa,
esta prática também traz
o mal para o seu praticante. A
fonte, que quer ter sua identidade
preservada, afirma
que é um buscador e, ao longo
da vida, aprendeu o que é
o bem, vivenciando o que é o
mal. Ele conta que, há alguns
anos, estudou e praticou magia
negra e que, na interpretação
dele na época, não era
algo ruim.
Inácio afirma que as pessoas
que praticam esse tipo
de ritual devem ser condenadas,
mas mesmo assim,
na cabeça dessa pessoa, não
existe um conceito definido
do que é o bem e, por isso, ela
acredita não estar praticando
o mal. “Isso passa também
pelo processo de cultura,
de aprendizado e de conhecimento.
O que é mal para
você, pode ser considerado
bom para mim”, destaca. Inácio
acrescenta que a existência
de um ‘lado negro’ exige
também um ‘lado branco’ e
ambos existem para equilibrar
o Universo.
Para ele, o conceito de
magia negra está associado
à busca de algo diferente do
que é normal, com a finalidade
de atingir o outro de
modo ruim. E para isso, podem
ser realizados rituais de
banhos, de ingestão de líquidos,
pontos riscados no chão
e até o próprio pensamento.
“Você pode sim fazer um ritual
onde você invoca uma
entidade pesada, e essa entidade
é como se estivesse fazendo
um jogo de troca. Ela
recebe algo em troca e daí vai
fazer aquilo que você deseja,
que pode ser o mal. Então,
ela fica buscando naquela
pessoa que você enviou [e
deseja o mal], um momento
em que ele possa fazer aquilo
que você pediu”, esclarece
Inácio.
Mas é preciso ter cuidado.
Entrar no mundo das vibrações
negativas para tentar
adquirir algum benefício
próprio, ou o mal de outra
pessoa, pode acabar fazendo
com que esse mal volte para
quem desejou que ele seguisse
para outro destino.
A reportagem completa você encontra no Jornal O Dia de hoje (15).