A notícia dando conta de que a fantasia de palhaço está sendo usada como disfarce, por pessoas que tentam assustar crianças e adultos, e até mesmo assaltar e atentar contra a vida de pessoas, caiu como uma bomba entre aqueles que, profissionalmente, se utilizam da indumentária para alegrar públicos diversificados. Os acontecimentos vêm alcançando tamanha proporção que um sem número de artistas protestaram contra esses abusos, em São Paulo, em nome da alegria e do forte simbolismo que a figura colorida do palhaço representa há séculos.
Antonio Carlos, que desde 1989 encarna o Palhaço Pancinha, diz que a atitude dos que tentam desvirtuar o verdadeiro sentido da brincadeira do palhaço é repugnante, “por tentar quebrar uma imagem que representa a alegria, o lirismo que encanta crianças e adultos”. Entretanto, ele assinala que é preciso que as pessoas não vinculem a imagem do palhaço à violência, ao susto e ao medo. “Antes de falar da lindeza de ser palhaço, gostaria de fazer referência a fatos lamentáveis que têm ocorrido na contramão dessa beleza circense. Tudo isso é um crime contra essa alegria externada por esse personagem fantástico”, observa.
Fotos: Divulgação
“É profundamente lamentável, usar desse artifício, matando a fantasia, a alegria, o imaginário do mundo do palhaço, que tanto fez e faz para tirar enormes sorrisos de crianças e adultos através de pantomimas, chulas, canções e brincadeiras. Esconder o rosto com uma máscara para delinquir é desistir de ser gente e optar por ser ninguém, e assim, através da miséria de não ser alguém, encontrar de modo irracional razão para ferir, roubar, machucar e mentir, se esta máscara é a de um palhaço, pois o palhaço, na sua singeleza e lindeza de agir torna-se um ser sagrado e abençoado”, acentua Antonio Carlos.
O Palhaço Pancinha, segundo Antonio Carlos, educa, diverte, canta e faz inúmeras brincadeiras educativas e educação ambiental, além de fomentar o gosto pela leitura. “A lindeza de ser Palhaço nunca será ofuscada pela brutalidade de falsos palhaços que sobrevivem às escondidas na escuridão do crime”, afirma. Para o ator Adalmir Miranda, que estuda a arte do palhaço e ministra oficinas sobre o tema, o palhaço tem um grande significado no imaginário popular: "O palhaço é a alma da nossa fantasia, o subconsciente de nossas aspirações. Não representa somente o nosso lado infantil, mas a ludicidade de nossas tristezas e anseios", assinala, ressaltando que o adulto atual está carente de ludicidade.
Adalmir Miranda começou a estudar a arte do palhaço em 2007, quando conheceu Slava Polunin, em Belo Horizonte: “Dei início aos estudos da arte do clown e, há dois anos, montei um laboratório de investigação da comédia circense e elementos do circo no bairro São João. Antes já havia me engajado em trabalhos com circo em Teresina. Ministrei aulas na escola de circo pé de moleque e vivendo e aprendendo", explica, acrescentando que do laboratório do bairro São João surgiu a montagem do espetáculo
"Palha assada" e outros esquetes de clown. “Palha Assada” é um espetáculo teatral onde são retrabalhados elementos do mundo do circo. Nele procura-se intensificar a proposição de gagues simples e objetivas, trabalhadas nos esquetes, buscando a sua expressividade, tanto no tom farsesco da comédia circense como no clown clássico moderno. A “Palha Assada” tem o gosto do redescobrimento, do inusitado e de diferentes perspectivas do jogo provocativo.
"Revisitamos, o trabalho do clown russo Slava Polunin e tantos outros mestres da comicidade. E mergulhamos na busca da essência do mundo desses palhaços: são gagues, objetos, símbolos, e “estórias” circenses. As nossas criações e recriações ressurgem das imutáveis ideias desse mágico mundo e seus desdobramentos. Não cabe aqui a palavra imitação, mas a redescoberta do lúdico. Importante que entendamos o termo imitação aqui, não somente como pura reprodução mecânica, mas no sentido de mostrar, acentuar, apontar determinado comportamento, de modo a ter uma significação sociológica, na medida em que, convida a um novo olhar sobre o objeto imitado", lembra Adalmir Miranda.