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Com crise no Brasil e no exterior, cresce a procura por ouro no mundo

Enquanto brasileiros apertados pela crise econômica limparam as caixinhas de joias e penhoraram R$ 2 bilhões nos dois primeiros meses do ano para saírem do sufoco, quem tem dinheiro aproveita para investir na commodity mais refinada: o ouro. A busca pelo velho metal tem razão de ser. Ele está cada vez mais valioso, reflexo das incertezas na economia global e a desaceleração do crescimento econômico na China. No entanto, especialistas garantem que esse tipo de aplicação é recomendado para investidores arrojados, porque o preço é volátil.

Em janeiro do ano passado, a grama do ouro era cotada a R$ 109. Na sexta-feira, fechou a R$ 148,58. No ano passado, os ganhos acumulados foram de 23,59%, perdendo apenas para o dólar. O ano virou e houve ainda mais altas.

O ouro ficou 4,8% mais valioso em janeiro e teve uma variação positiva de 11,48% no mês passado. Tornou-se ainda mais atraente, já que o dólar, ativo campeão de valorização no ano passado, perdeu força.

PROCURA CRESCE EM 66%

No Banco do Brasil (BB), a principal instituição que lida com o precioso metal e detém um terço do mercado, por exemplo, os investimentos em ouro aumentaram 66% no ano passado. Foram R$ 93 milhões em 2.306 contratos.

A pedido do GLOBO, o BB traçou um perfil desse comprador de metal ou de participação em fundos referenciados em ouro. A maioria é de homens das regiões Sul e Sudeste do país, com cerca de 45 anos e curso superior completo. Eles aplicam entre R$ 50 mil e R$ 100 mil em ouro e têm um perfil de investimento arrojado.

No país, o total de negócios realizados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) no ano passado chegou a 3.095 contratos, que somam R$ 300 milhões. Os números deste ano estão ainda mais altos. Em janeiro, o volume total negociado pela BM&F chegou a R$ 18,4 milhões. No mês passado, as negociações chegaram a R$ 30 milhões.

— É o receio sobre a crise internacional. Desde o início do ano, o preço tem subido como reflexo disso. A tendência é, com a incerteza continuando, o preço do ouro se manter pressionado — explica o economista da MB Associados Sérgio Vale, para quem a alta do metal pouco tem a ver com a crise interna brasileira.

SEM GARANTIA DE RENTABILIDADE

No entanto, o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito, avalia que a busca por ouro também é aguçada no país pela incerteza interna.

— Em tese, o investimento em ouro bomba quando há muita aversão a risco. O ouro ganhar importância é sinônimo de baixa credibilidade dos bancos centrais e de que a atividade não vai bem.

O ouro serve de refúgio em momentos de crise porque trata-se de um ativo real: o investimento é a compra de um bem que existe realmente.

Como é um ativo de renda variável, entretanto, o metal está sujeito à turbulência do mercado e aos impactos na taxa de câmbio. Por isso, o diretor de Mercado de Capitais e Infraestrutura do BB, Sandro Marcondes, alerta que investir em ouro tem risco e quem entra despreparado nesse tipo de negócio pode perder dinheiro com a variação da cotação.

— Apesar de ser um porto seguro, investir em ouro de forma especulativa não é sinônimo de segurança nem de rentabilidade — frisou o executivo, que recomenda planejamento e apoio de consultoria.

Na hora de investir, os aplicadores têm de escolher entre comprar lingote (barras de 250 gramas) ou ouro escritural — neste caso, sem a necessidade de retirar a barra de ouro no banco. As transações são registradas na BM&FBovespa. Com a procura alta, o BB deve lançar um mecanismo para a compra e venda de ouro escritural pela internet e dispositivos móveis, por meio da sua nova plataforma Home Broker.

PENHOR OFERECE JURO BAIXO

Para quem não tem dinheiro para investir e ainda está endividado, a alta do ouro também pode ser um bom negócio. Com o metal nobre mais valorizado, as joias que servem de garantia para o penhor costumam ser mais bem avaliadas. O penhor é uma opção rápida de crédito para quem está endividado e até com o nome negativado na praça, porque não há análise cadastral ou necessidade de avalista. É uma linha de crédito com uma das menores taxas de juros do mercado, segundo a Caixa Econômica Federal. O empréstimo pode ser renovado diversas vezes e, quando o crédito for pago, o cidadão pode pegar de volta o objeto penhorado.

A Caixa oferece ainda uma modalidade de penhor parcelado, que permite o pagamento de parcelas fixas e amortização ao longo do tempo. O penhor parcelado pode ser contratado com prazos que variam de dois a 60 meses e com parcelas de valor mínimo de R$ 50,00.

ONÇA PODERIA ATINGIR US$ 1,4 MIL

A cotação internacional do ouro vem se recuperando, e já há quem estime que a onça troy (31,10 gramas) possa chegar a US$ 1.400. Na sexta-feira, chegou ao maior patamar em mais de um ano no mercado spot: US$ 1.282,81, a cotação mais elevada desde 23 de janeiro de 2015, segundo dados da agência Bloomberg. No fim do dia, no entanto, encerrou em queda de 1,1% em Nova York, a US$ 1.259,40.

— Se essa tendência se mantiver, podemos caminhar para o ouro a US$ 1.400 — disse à agência de notícias Reuters Ric Spooner, analista-chefe de mercado da CMC Markets, em Sydney.

A relativa fraqueza do dólar americano, apesar das expectativas de uma nova alta de juros pelo Federal Reserve (o banco central americano) ainda este ano, e os temores de desaceleração da economia global devem manter a tendência de aumento nos preços do ouro, disse Spooner.

Este ano, o estoque de ouro nas mãos de investidores aumentou em 7,8 toneladas métricas, para 1.735,9 toneladas métricas, o maior patamar desde julho de 2014, segundo a Bloomberg.