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A família real que não vive na realeza: as histórias e lembranças dos primos de Pelé

(Foto: Divulgação)

Com uma distância, em média, de 300km para cada uma das três capitais, a charmosa cidade, cheia de morros, era pequena demais para a história que Pelé iria escrever para a eternidade, e o Rei, segundo sua mãe, dona Celeste, viveu apenas três anos e meio no sul do interior mineiro. No entanto, foi lá que tudo começou e membros da realeza ainda vivem.

A família real

Era uma tarde de quinta-feira diferente em Três Corações. O frio e a chuva trocavam de lugar com o sol e o calor constantemente, e subir os morros da cidade nestas condições era um esporte pouco divertido, mas que valeria a pena.

Depois de conversas com vários habitantes pelas ruas tricordianas, uma jovem me deu uma pista interessante: "Acho que uma prima do Pelé trabalha numa escola, é logo ali em cima, só terminar de subir o morro e virar a direita. É logo ali mesmo, bem pertinho".

Podemos dizer que fui bem bobo nessa. Mesmo mineiro, caí na velha conversa do "ali de mineiro", que realmente temos a mania de dizer que é perto, perto como Porto Alegre e Piauí.

A estátua de Pelé no centro de Três Corações (Foto: Gabriel Pazini/Goal Brasil)

Subi um morro desgraçado, pegando sol e chuva, mas cheguei ao meu destino. A Escola Luiza Gomes era bem simpática, simples, e na porta conversei um pouco com uma professora de história, Silvia Novaes, que me atendeu com toda a gentileza do mundo e confirmou: uma prima de Pelé, parte da família real de Três Corações, lá trabalhava.

Minha entrada logo foi liberada e fui ao encontro da famosa prima do Rei do Futebol.

Provavelmente, a última coisa que você imaginaria é que uma parente de Pelé é cozinheira em uma escola no interior de Minas Gerais.

Mas sim, é verdade.

Ana Maria, super simpática, trabalhadora honesta, gente simples, da melhor qualidade, que encanta pelo jeito de ser e forma doce com que conversa com qualquer pessoa. E prima de Pelé.

Na conversa com a Goal Brasil, ela falou sobre sua relação com o Rei do Futebol e sua mãe, dona Celeste.

"A tia Celeste é uma pessoa incrível, muito boa, carismática, que sempre tratou a gente bem. Quando ela ia pra minha casa, ela sempre me pedia pra arrumar o cabelo dela e tirar as sobrancelhas (risos). Ela é muito simples, humilde e sempre conversava com a gente. Só tenho boas lembranças dela. Sempre que ela vem em Três Corações, ela vai lá em casa", contou, antes de revelar uma preocupação da mãe do eterno camisa 10 do Santos.

(Foto: Gabriel Pazini/Goal Brasil)

"A tia contava pra gente que ficava muito preocupada quando o Pelé ia viajar, porque tinha medo de acontecer alguma coisa com ele, coisa de mãe, né. Mas ela sempre teve muito orgulho e muita confiança, porque ele sempre soube o que fazer".

Ana Maria ainda comentou sobre uma das principais discussões na cidade. Filho ilustre de Três Corações, Pelé é amado por vários moradores, mas criticado por muitos outros por ter visitado sua cidade natal em raras ocasiões. Sua prima, porém, o defende.

"É uma honra fazer parte de uma família tão reconhecida na cidade. As pessoas falam de traição do Pelé de vez em quando, mas não tem nada disso. O Pelé sempre se dedicou, mas é que ele não tem muito tempo e é difícil vir aqui. Toda vez que ele vem, a cidade para, precisa de muitas pessoas, um tanto de guarda, essas coisas. A última vez que ele veio, na inauguração da estátua (na verdade, foi da Casa Pelé, em 2012), ele passou um tempo com a gente, com a família toda, veio até gente da família que mora em outros estados".

As lembranças do Rei

Ana Maria é esposa de Jorge Jeremias, outro primo de Pelé. "Ele lembra várias coisas do Pelé, vai lá em casa, lá pelas 18h, que a gente conversa com você e ele te mostra umas fotos", convidou, gentilmente, a cozinheira. Aceitei o convite e umas quatro horas depois conheci outro membro da família real.

Pelé em uma de suas visitas a Três Corações (Foto: Gabriel Pazini/Goal Brasil)

A charmosa e bonita casa onde mora o casal é o oposto da grandiosidade de Pelé. Simples e localizada em mais uma das tantas ruas pacatas de Três Corações. Toquei o interfone e um senhor veio me atender gentilmente.

E Jeremias é uma figura. "Honrado" por fazer parte da família de Pelé, me chamou para se sentar com ele no sofá. Apesar do visitante interromper seu jornal, ele adorou conversar sobre o primo ilustre e futebol, um de seus assuntos favoritos, ainda que ele garanta não ter herdado o talento futebolístico de parte da família. 

Curiosamente, ele não torce para o Santos nem mesmo para algum clube mineiro. Seu time do coração é o Botafogo, que nas décadas de 50 e 60, fazia o grande clássico nacional com o Peixe de Pelé.

(Foto: Divulgação)

"Eu sou diferente da família toda (risos), torço para o Botafogo! Eu gosto do Santos, já fui até na Vila Belmiro ver jogos com meu tio e o irmão dele, mas meu time do coração é o Botafogo", contou.

"Por causa do Garrincha?", perguntei.

"Eu não sei por que torço pro Botafogo. Até acho que o Garrincha, ao lado do Maradona, é o jogador que mais chegou perto do nível do primo, que é o melhor de todos, mas não foi por causa do Garrincha. Eu fui crescendo e o time que eu mais ouvia no rádio e gostava era o Botafogo", explicou Jeremias, que depois fez uma garantia.

Jorge Jeremias conta lembranças e mostra fotos do primo ilustre (Foto: Gabriel Pazini/Goal Brasil)

"Nunca mais vai existir um jogador como o Pelé. Ele é o melhor jogador de todos os tempos e único".

No entanto, para o primo do Rei, existe alguém que superou o eterno camisa 10 do Santos e da Seleção Brasileira em um fundamento.

"O tio Dondinho era bom jogador. Ele jogou aqui no Atlético (de Três Corações, atual Tricordiano). Era um excelente centroavante e, para cabecear, era melhor que o Pelé, o primo mesmo já admitiu isso (risos)".

Já sobre as visitas do primo e dos tios, Jeremias só guarda boas lembranças. "Toda vez que o Pelé vinha aqui, e quando o tio Dondinho era vivo também, eles vinham aqui em casa. O tio tinha muitos amigos aqui e quando vinha passar as férias, ficava aqui em casa. A tia Celeste, a Lúcia, que é irmã do Pelé e o Zoca (irmão do Rei) também vinham pra cá. A gente conversava bastante, saía também", contou.

Jorge Jeremias e a esposa Ana Maria. Entre eles, o Rei Pelé (Foto: Gabriel Pazini/Goal Brasil)

"O Pelé veio poucas vezes aqui, porque tem muitas obrigações, mas todas as vezes que veio, ele veio aqui em casa, a gente ficou conversando e almoçou. O problema é que toda vez que ele vem é um tumulto violento, sabe? Então não tem nem como. A gente marca para encontrar. Nós almoçamos juntos no hotel lá embaixo. Mas é muita gente que fica rodeando ele, lá mesmo na porta do hotel. Um montão de gente. Todo mundo queria entrar. Não tem jeito, sabe? É complicado", explicou, antes de relembrar uma das visitas antigas do Rei, quando ele ainda vestia a camisa 10 santista.

"Eu já vi o primo jogar ao vivo. Uma vez ele veio aqui, em 1970, com o Santos, para um amistoso por causa da inauguração da estátua dele. Ele estava no auge naquela época e vieram também o Carlos Alberto, o Clodoaldo, todo mundo. Depois do jogo, a gente ficou conversando com ele".

Na época, Pelé tinha acabado de ser tricampeão com a fantástica Seleção de 70, no México, mas o Peixe acabou perdendo aquele amistoso para o então Atlético de Três Corações, por 2 a 1. Para Jeremias, porém, ver o primo jogando na sua frente não é a melhor lembrança futebolística do Rei.

(Foto: Divulgação)

"A lembrança mais marcante que tenho nem foi de um gol bonito, mas sim o milésimo gol. Era o gol mil, e a nossa família, você não tem ideia, estava louca com isso. A minha tia sempre falava que ele estava perseguindo esse gol mil e a gente torcia muito pra isso, existia uma expectativa e uma ansiedade muito grandes. Lembro até hoje da gente vendo na televisão, na expectativa... Ficou marcado", contou, para depois falar de outra lembrança saborosa.

"Ver o primo ser campeão também foi inexplicável e uma emoção muito grande (pausa). Seu primo era campeão do mundo, tricampeão, e o melhor do mundo. A família toda estava junta, todos os primos, inclusive os que moram fora, foi ótimo, uma emoção que não tem como explicar. O Brasil e o mundo inteiro estavam vendo e exaltando uma pessoa próxima da gente, que fazia parte daquilo".


O milésimo gol de Pelé e o título no México (Fotos: Getty Images e STF/AFP/Getty Images)

A conversa era tão boa que não tinha percebido os ponteiros do relógio se movendo sem cessar. Tanto eu quanto Jeremias queríamos continuar o bate-papo sobre as lembranças do Rei e também sobre o futebol antigamente e nos dias de hoje, mas já estava ficando tarde e enquanto eu tinha uma viagem cedo no dia seguinte, ele precisava trabalhar.

Me despedi feliz e realizado. Não apenas pelo bom material em mãos ou pelas conversas sobre Pelé e futebol, mas também pelas pessoas maravilhosas que conheci naquele dia. Membros da família real de Três Corações, parentes do maior jogador de todos os tempos, mas que são humildes ao extremo, simpáticos e simples, tanto no trato com as pessoas como no modo de viver. Grandeza e riqueza que vão muito além do dinheiro e da fama. Grandeza e riqueza que fazem falta nos dias de hoje.