� Está claro que, ao iniciar esse movimento cultural, Ariano
Suassuna teve por objetivo valorizar a cultura popular do Nordeste. Mas
há de acreditar-se que ele já pensava em termos mais amplos, visto que
falara da
� Segundo Suassuna, “a palavra armorial é tomada no sentido do
conjunto de insÃgnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, e a
heráldica (parassematografia), é uma arte muito mais popular do que
qualquer outraâ€. Dessa forma, o nome que escolheu não tem nada de
moderno nem “modernosoâ€.� Ao contrário, leva-nos a pensar as raÃzes e
costumes históricos, ancestrais, de um povo, de uma nação. E foi este o
seu desejo: começar das raÃzes e chegar ao atual, numa ligação que se
estendesse (e se estendeu, pelo menos em termos de Nordeste), Ã pintura,
à música, à literatura e demais outras: cerâmica, dança, escultura,
tapeçaria, arquitetura, teatro, gravura, chegando até o cinema.
Resumindo: universalizar, pela arte, a expressão dos sentimentos que
permanecem na tradição da sociedade, do povo, tudo aquilo que é bom e
belo. Quem quiser diga que isto é estilizar, modernizar, criar novo
estilo, recrear. É tudo ao mesmo tempo, sem esquecer a tradição, porque o
que fica da tradição, nas manifestações artÃsticas, quem melhor sabe
traduzir o melhor para a sociedade.
� No seu pensar, sentir e saber altamente criativos, Suassuna
deu grande importância aos folhetos do romanceiro popular nordestino, a
chamada Literatura de Cordel, por achar que neles se encontra a fonte de
uma arte e uma literatura que expressam as aspirações e o espÃrito do
povo brasileiro, além de reunir três formas de arte: as narrativas de
sua poesia, a xilogravura que ilustra suas capas e a música, através do
canto dos seus versos, acompanhada por viola ou rabeca.
� Suassuna apontou também como importantes para o
MOVIMENTO ARMORIAL,
“os espetáculos populares do Nordeste, encenados ao ar livre, com
personagens mÃticas, cantos, roupagens principescas feitas a partir de
farrapos, animais misteriososâ€. E cita “o boi†e o “cavalo marinhoâ€.�
Por fim, não foi esquecido o mamulengo - teatro de bonecos nordestino -
também como fonte de inspiração, visto que essa espécie de dramaturgia é
um modo singular de encenação e representação bem brasileiro, espalhado
por pequenos grupos e até por artistas individuais e seus familiares,
dedicados inclusive à diversão infantil.
� Pego, agora, a importante deixa do Suassuna e lembro que, quando
eu era menino, acompanhava o “reisado†- na parte do Piauà já perto do
limites com o Ceará, como é Picos – representação não tão semelhante ao
“bumba-meu-boiâ€, mas com ele confundido. O “reisado†é diferente. É
feito à noite e o grupo teatral sai de casa em casa com seus apetrechos,
músicas, cantos e artistas para alegrar o povo do lugar. As figuras do
tal teatro popular das partes do Nordeste mais seco são: o boi, a
burrinha, o avestruz, a ema, o lobisomem, as damas, todas comandadas
pelos caretas, normalmente três. Começa no Dia de Reis, ou seja, em 6 de
janeiro. Essa brincadeira acontece à noite e vai até alta madrugada,
quando não até o dia seguinte.�
� Para finalizar, com uma pequena comparação dos movimentos
literários brasileiros passados e presentes, Wilson Martins, grande
historiador e crÃtico, em seus “Pontos de vistaâ€, disse: “O Modernismo
acabou algum tempo depois da Semana de 1922. Daà por diante tudo é
Modernidade e se traduz por movimentos: - movimento da poesia concreta,
da poesia práxisâ€, do romance de 30, etc. Para mim, os movimentos
representam grupos que se estendem mais ou menos por algum espaço e
tempo limitados. Não sei se com o Movimento Armorial vai acontecer o
mesmo. Ou se é uma escola literária para muito tempo. Acredito na última
hipótese e o interpreto como uma espécie de volta ao Romantismo, pela
ingenuidade visceral, pela sentimentalidade de tentar unir as artes
através dos usos e costumes do povo. Porém é diferente no sentido em que
os artistas já aprenderam a lição de que o clássico nunca morre, a
literatura e as artes devem ser sempre estilizadas, provenha o seu sumo
do Romantismo ou do Realismo, as duas escolas literárias que se
rivalizam e as únicas existentes, conforme concordam a maioria dos
crÃticos. E eu me confesso um deles. Assim, nem toda literatura de
cordel é boa arte, nem toda arte popular terá longa vida se não
entranhar-se por um terceiro caminho. É preciso que o poeta ou o
prosador tenha um mÃnimo de consciência da técnica da escrita, do verso,
da palavra, do ritmo, do som, do tom, da luz e do movimento. E isto
deve ocorrer em todas as artes.
O MOVIMENTO ARMORIAL, que começou com uma obra tão profunda e bem elaborada como a de Ariano Suassuna,
“O romance da Pedra do Reinoâ€,
tende a refinar-se, tornar-se clássico, depois da incorporação do povo e
seu saber. Segue, assim, o mesmo rumo dos demais movimentos que se
prezam, na história das artes e da sociedade.�
� ______________________
�*Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia
Piauiense de Letras - PiauÃ,� da União Brasileira de Escritores - São
Paulo e Associação Internacional de Escritores e Artistas -Estados
Unidos.��