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Hábitos corriqueiros podem se transformar em compulsão

Quando uma atividade aparentemente simples pode ser considerada um transtorno? Especilistas explicam que o comportamento compulsivo serve para tentar compensar descontroles emocionais.

13/10/2017 07:12h

Dedicar muito tempo a uma certa atividade ao ponto de ela interferir em suas relações sociais; ter comportamento repetitivo ou adotar uma ação para aliviar a ansiedade ou estresse do dia-a-dia. Esses podem ser alguns sintomas de uma pessoa compulsiva. Mas, quando um hábito, aparentemente simples, pode ser considerado um transtorno?

A compulsão é quando uma atividade corriqueira é desenvolvida com o intuito de obter alguma gratificação emocional, normalmente dando ao indivíduo uma sensação de alívio ao estresse, à angústia ou à ansiedade. Em geral, são ações realizadas constantemente e em períodos curtos, quase que automaticamente, como comprar sem necessidade, comer exageradamente e ter mania de organização.

Segundo o psiquiatra Vicente Gomes, esse comportamento repetitivo pode estar relacionado a diversas situações ou quadros psiquiátricos, como o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), ansiedade, depressão e quadro demencial. Fatores como estresse, doença, traumas ou frustrações podem desencadear o problema. “A compulsão está associada a um grau exagerado de ansiedade. O comportamento serve para tentar compensar alguma situação”, explica.


O psiquiatra Vicente Gomes explica que é necessária autocrítica do compulsivo para reconhecer quando um ato passa a se tornar exagerado (Foto: Elias Fontinele/O Dia)

A psicóloga Denisdeia Sotero destaca que algumas pessoas conseguem reconhecer que determinada ação está se tornando algo compulsivo e buscam tratamento, contudo, a maioria dos pacientes não reconhecem tal atitude. “As pessoas dizem que é algo que podem controlar, mas na verdade elas não conseguem”, disse.

Ex-compulsivos

A advogada Lívia Cavalcante, de 33 anos, lembra da época em que tinha compulsão por compras. Ela conta que o transtorno começou quando estudava para concurso e o ritmo era bastante intenso. Além de trabalhar, ela dedicava muitas horas ao preparatório, o que a deixava estressada.

Para compensar o desgaste, ela percorria diversas lojas e fazia compras de maneira descontrolada, apenas com a finalidade de aliviar a tensão. “Eu estudava muito e isso foi me desgastando, me deixando ansiosa. Eu descarregava isso comprando e comendo, até que cheguei ao sobrepeso. Na hora me fazia bem, me deixava feliz”, conta.

A compulsão de Lívia por compras chegou ao ponto de ela possuir dez cartões de crédito e de as faturas virarem uma bola de neve. A advogada conta que comprava até quatro bolsas de uma única vez e roupas com numeração menor, apenas porque achava o modelo bonito. Algumas peças ela nunca usou e chegou a doar ainda com etiquetas. 

Já o profissional de educação física Francinaldo Segundo, de 26 anos, conta que descontava a raiva e o estresse comendo, o que lhe trazia uma sensação de alívio e relaxamento momentâneo.

Porém, essa compulsão por comida lhe trouxe problemas futuros, obrigando-o a procurar ajuda médica e a realizar uma cirurgia bariátrica. "Quando a gente come libera endorfina, que é o hormônio do prazer, e isso me fazia relaxar. A comida era minha válvula de escape. Então, o que eu sentia não era fome, mas vontade de comer”, lembra.

Hoje, quando Francinaldo sente isso, canaliza para outra coisa, como esporte. “Porque não tem nada melhor que você liberar o estresse treinando, batendo em um saco de areia", relata.


Infográfico: Márcio Sena/O Dia

Tratamento

A psicóloga Denisdeia Sotero destaca que os vícios e compulsões são muito comuns nos jovens, como é o caso do uso excessivo do celular. "Se uma família disponibiliza três horas do dia para uma criança mexer em um celular, mas não fica monitorando, ela acaba perdendo o controle. Quanto mais passa o tempo, mais essa criança quer mexer. Na adolescência, a pessoa não vai querer mais largar o telefone", pontua.

O psiquiatra Vicente Gomes acrescenta que é necessária autocrítica do compulsivo para reconhecer quando um ato passa a se tornar exagerado e repetitivo, prejudicando no seu dia-a-dia. "Infelizmente essa autocrítica é demorada e acaba vindo de outras pessoas que estão próximas e percebem o que está havendo", afirma o psiquiatra.

Ainda de acordo com o especialista, existem diversos tipos de compulsões e causadas por diferentes motivações. Ele exemplifica citando uma pessoa que é compulsiva por compras. Nesse caso, esse indivíduo tende a começar sutilmente, até chegar a um ponto onde está completamente endividado, gerando prejuízo tanto para a sua vida como a de pessoas próximas.


Infográfico: Márcio Sena/O Dia

Vicente Gomes lembra que o processo de tratamento precisa ser direcionado para a doença de base, ou seja, é preciso avaliar de onde a compulsão surgiu, se foi de um TOC, uma depressão, ansiedade exagerada, transtorno bipolar, ou se é um paciente com esquizofrenia ou transtorno alimentar. "Nesses casos, cabe uso de medicação, acompanhamento com especialista e também tem a psicoterapia, que ajuda bastante e vem como uma abordagem complementar ao tratamento medicamentoso. A duração dependerá do tipo de transtorno, como está o grau desse paciente, o histórico familiar, se já houve tratamento anterior, se existe outra doença associada, entre outros fatores", cita.

Vale destacar que a compulsão pode atingir pessoas de todas as idades, sexo ou classe social, além de também estar relacionado com o estilo de vida e predisposição genética, ou seja, se uma pessoa da família tem depressão, é possível que os genes possam ser passados aos familiares.

Superação

Atrelada com a compulsão por compras, Lívia Cavalcante também exagerava na comida, o que lhe resultou em um aumento de peso considerável. Ao buscar a ajuda de um endocrinologista para tratar a obesidade, ela percebeu a necessidade das mudanças de seus hábitos. “Como minha autoestima foi melhorando, eu percebi que não precisava daquilo e no final de semana eu fiz uma faxina e tirei 70% do que tinha e dei. Quebrei meus cartões e evito comprar de forma exagerada. Eu ainda compro hoje em dia, mas não deixo acumular", cita.

Durante um ano, ela precisou de acompanhamento profissional e já acumulava sérios problemas de saúde, como pressão alta. Aliado ao tratamento, Lívia iniciou a prática de atividade física, o que também ajudou a aumentar sua autoestima.

O processo foi demorado, porém, necessário para que ela tivesse plena consciência da necessidade de mudar seus hábitos. "Eu cheguei a ter uma recaída. Enquanto eu estava mudando esse comportamento, acabava descontando em outra coisa, que era na comida, mas eu conversei com a minha médica e consegui controlar isso em apenas um mês. Hoje eu sou uma pessoa controlada, compro e como sabendo o meu limite", pontua.

O mesmo aconteceu com o profissional de educação física, Francinaldo Segundo, que também teve muitos problemas de saúde devido ao excesso de peso. Sentindo fortes dores no corpo, pressão alta e fazendo uso de remédios, além de ter o desempenho esportivo prejudicado, o jovem também passou a ficar com a autoestima baixa, até que optou pela cirurgia.


Francinaldo Segundo teve problemas de saúde por conta do excesso de peso (Foto: Elias Fontinele/O Dia)

Durante as sessões com a psicóloga, ele percebeu que precisava fazer mudanças na própria mente. “Eu me perguntava como iria conseguir comer tudo aquilo que eu gostava. Isso me perturbava a cabeça antes da cirurgia. Me batia um desespero, porque eu comia muito à noite, tinha uma fome fora do normal", destaca.


Foto: Elias Fontinele/O Dia

Francinaldo lembra que precisou fazer cerca de 20 sessões com psicólogo até conseguir encontrar o ponto de apoio na luta contra a compulsão, não somente pela comida, mas outros vícios que foram surgindo de maneira secundária. "Eu ativava um mecanismo, me conscientizando que não era mais possível fazer o que eu estava com vontade. Até que chegou um tempo que eu consegui controlar. Me sinto melhor que antes. Não tomo mais remédio, encontro roupas para meu tamanho, as dores praticamente cessaram e tudo mudou", disse.

Por: Isabela Lopes - Jornal O Dia

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