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‘Bombas brasileiras estão matando civis no Iêmen’, diz pesquisadora

Kristine Beckerle, da ONG Human Rights Watch, refuta argumentos usados pelo Brasil para fabricar e exportar munições cluster, proibidas por 119 países

11/01/2017 09:45h

As munições cluster fabricadas no Brasil pela Avibrás Indústria Aeroespacial SA são proibidas por 119 dos 193 países do mundo. Apesar da proibição, bombas como essas mataram 21 civis em 17 ataques conduzidos por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen nos últimos cinco anos, segundo Kristine Beckerle, advogada e pesquisadora da ONG internacional de direitos humanos Human Rights Watch para Iêmen e Kuait, países do Oriente Médio.

“Nossos especialistas em armas identificaram resíduos dos foguetes terra-terra Astros 2. O Bahrein e a Arábia Saudita haviam comprado foguetes de munições cluster do sistema Astros produzidas pelo Brasil, que foram manufaturadas pela Avibrás Indústria Aeroespacial SA”, diz a pesquisadora.

As munições cluster são lançadas por foguetes que se abrem no ar, lançando centenas de submunições. Elas são feitas para saturar com explosivos uma grande extensão de terra. Por sua baixa acuidade, podem atingir indiscriminadamente tantos alvos militares quanto civis. Além disso, um grande número dessas submunições não detonam ao impactar com o solo, e por isso permanecem por anos infestando os locais atingidos, até que um toque desprevenido as detone.

O Brasil não aderiu ao tratado internacional que proíbe a produção, a venda e o uso dessas munições. Um dos compradores das cluster brasileiras é a Arábia Saudita, que, de acordo com a pesquisadora, vem lançando esses explosivos contra rebeldes houtis que, desde 2011, lutam para derrubar o atual presidenteAbdrabbuh Mansour Hadi. Os sauditas lideram uma coalizão internacional que tenta conter os houtis no Iêmen.

Em dezembro de 2015, outra ONG de direitos humanos, a Anistia Internacional, já havia denunciado o uso de cluster brasileira contra civis no Iêmen. Na ocasião, o Nexo enviou 19 perguntas ao Ministério da Defesa, que se limitou a dizer que o país prioriza outros tratados que regulam o comércio internacional de armas, que não o tratado específico sobre as cluster. As duas perguntas enviadas ao Ministério das Relações Exteriores não foram respondidas.

Nesta terça-feira (10), Beckerle detalhou por e-mail, do Marrocos, onde participava de uma conferência internacional a respeito dessas armas, quais as acusações da Human Rights Watch contra o Estado brasileiro. Os Estados são signatários dos tratados internacionais, não as empresas. Por essa razão, o governo é questionado, e não a empresa em si.

Fonte: Nexo Jornal

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