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"Deixa o ônibus me levar": muitas ideias importantes surgem dentro dele

Ônibus cheio, mas cada um mergulhado dentro de si, dando asas à imaginação; o pensamento fluindo, ideias que tomam corpo e transformam situações.

23/03/2010 09:47h

Chegar a um ponto de ônibus, dar sinal de parada para o motorista que o conduzirá ao destino proposto; entrar no veículo, passar pela catraca; aguardar o momento certo para descer e começar mais um dia de trabalho, ou fazer o percurso inverso. Apenas uma rotina? Ledo engano: esse hábito, que para muitos não passa de uma atitude mecânica, já resultou na tomada de decisões importantes, na criação de grandes projetos. Ônibus cheio, mas cada um mergulhado dentro de si, dando asas à imaginação; o pensamento fluindo, ideias que tomam corpo e transformam situações.

O Primeiro Homem Americano, uma suíte para orquestra com duração de uma hora, foi composta pelo pianista Luizão Paiva em suas idas e vindas da zona Leste para o centro da cidade, no interior de um ônibus. “Interessante é que a ideia e a conclusão dessa suíte aconteceram em percursos que fiz de ônibus, da universidade federal ao o centro da cidade”, assinala. Ele argumenta ainda que “mesmo em pé, num coletivo, meu pensamento voa, minha criatividade fica aguçada”. Essa suíte – composição livre com vários andamentos – foi contemplada pela Lei Roaunet, que incentiva a produção cultural.

Entusiasmado com a obra, ainda não gravada em razão da falta de patrocínio, Luizão Paiva ressalta que a suíte não foi sua única composição nascida no interior de um ônibus: “Muitas outras ideias sobre músicas e trabalhos que aplico na Escola Adalgisa Paiva nasceram em minhas idas e vindas a bordo de coletivos; o que não aconteceria se estivesse dirigindo um carro particular, com o estresse que o trânsito nos causa”, observa. Amigo pessoal do guitarrista Manassés, com quem tocou em apresentações de Moraes Moreira e muitos outros, no Rio de Janeiro, Luizão lembra que Manassés compôs “Passeio de ônibus” – música instrumental -, dentro de um coletivo, “com muita propriedade”.

Skatista e estudante de mecânica, Caio Torres diz que sua mente faz mil viagens, trabalhando filmagens de seqüências de skate, observando lugares novos para a prática desse esporte, ao circular de ônibus pelos bairros de Teresina. “Eu já coloquei em prática muitas ideias que tive nesse meio de transporte, aqui em Teresina. Quando estou à janela, então, as coisas acontecem com mais freqüência; é um universo de possibilidades; algo que surpreende, porque em outra situação isso não ocorreria”, acentua Caio Torres. Ele deixa claro que muitas resoluções tomadas em sua vida nasceram de divagações: “Dentro do ônibus me sinto leve, com o pensamento solto, imaginando mil coisas. Além de projetar situações para meu trabalho, filmagens do esporte que pratico, assuntos relacionados a estudos também já foram desenvolvidos nesses percursos”, conclui.

Escolher uma entre duas namoradas e casar-se com a pessoa amada para concretizar um casamento estável: uma decisão tomada dentro do ônibus, no percurso Promorar/Centro da cidade. Não, não se trata de ficção: o cabeleireiro Luiz Carlos dos Santos foi o protagonista dessa história: “Eu estava envolvido com duas mulheres, em 1992, e tinha de tomar uma decisão; foi justamente ao vir para o trabalho que resolvi dar um novo rumo à minha vida e escolher aquela que poderia me fazer mais feliz”, conta. Anos depois apareceu uma terceira mulher que o fez separar-se da esposa. A volta para junto da esposa e filhos também foi resolvida nas idas e vindas para o trabalho. “Dentro de um transporte coletivo a gente resolve muitas coisas. Hoje vivo feliz com minha esposa e filhos”, sorri.

Circo, leveza e solidariedade

“A paisagem que vejo através da janela de um ônibus sempre foi para mim fonte de inspiração. Circulando nesse meio de transporte a gente descobre e/ou redescobre a beleza de Teresina; seus encantos, sua gente”, diz o cartunista Albert Piauí. Ele não dirige carro particular nem faz questão, e argumenta que se muitos pensassem bem - não tiravam seus veículos da garagem, com tanta frequência.

“Eu adoro andar de ônibus. Muitas de minhas realizações à frente da Fundação do Humor surgiram no transporte coletivo”, aponta, exemplificando: “Os túneis com a exposição de charges, no Salão de Humor, foram imaginados dentro do ônibus. Observei que as pessoas não gostam muito de entrar em galerias para ver exposições, então me veio a ideia que foi colocada em prática com sucesso”, diz.

Albert Piauí assinala ainda que o trajeto que faz como passageiro, geralmente do bairro Mocambinho ao centro da cidade, o torna descobridor da alma das pessoas: “Embora o ônibus esteja lotado, os usuários, na verdade, estão sozinhos; cada um envolvido com seus problemas, até mesmo procurando soluções: outros vislumbrando novos caminhos, então gosto de fotografá-los, observar esse mundo de personalidades, de pessoas tão diferentes. Às vezes a gente se inspira até para criar personagens”, explica.

Um olhar pela janela; a visão de um mundo que poderia ser transformado com uma simples oportunidade e assim mudar um destino, fatalmente, reservado a muitas meninas e adolescentes. Foi esse sentimento que resultou na criação do Balé Santa Terezinha, que hoje reúne 120 meninas carentes do bairro Satélite, zona Leste da cidade. Residindo no bairro Cristo Rei, zona Norte da cidade, a bailarina e coreógrafa Luzinete Martins Amorim ficava penalizada com a situação de muitas meninas pobres - emolduradas por ela como bailarinas em potencial.

“Eu fui uma menina pobre que ganhou bolsa para estudar balé na escola de Leny Argento, me proporcionando novos horizontes; por isso eu queria que outras meninas pobres tivessem a mesma oportunidade. E foi dentro do ônibus que me veio a ideia da criação de um balé com meninas carentes”, ressalta.

Aplaudido em todas as apresentações, em razão do talento das jovens e da criatividade da coreógrafa, o Balé Santa Terezinha é mantido por ações de voluntários: “Hoje temos ajuda de um grupo de funcionários da Caixa Econômica Federal”, diz, acrescentando que uma das coreografias que mais desperta a sensibilidade do público, intitulada “Esperança” foi toda trabalhada dentro das duas conduções que pegava para ir até o bairro Satélite:

“Eu saía do bairro Cristo Rei, descia na Avenida Frei Serafim e aí pegava outro ônibus para o bairro Satélite. Foi nessas viagens que criei a coreografia, inspirada na música “Love by Grace” - tema da personagem Camila, da Carolina Dickmann na novela Laços de Família, da Rede Globo. A personagem é portadora de câncer e essa coreografia foi apresentada para as crianças do Hospital São Marcos”, explica.

Criado há nove anos, as meninas do balé Santa Terezinha se tornaram multiplicadoras dessa arte, ajudando o projeto com aulas que lhes rendem algum dinheiro. “Hoje me sinto tão feliz, porque começamos o grupo com apenas 14 meninas”, diz. Luzinete observa ainda que o balé fez com que as meninas criassem mais responsabilidade, dedicando-se mais aos estudos, além de melhorar a autoestima.

“Hoje temos garotas aprovadas no Enem, no vestibular, cursando faculdades: caminho aberto pelo balé. Agora estou residindo mais perto do bairro Satélite – ficando mais próxima de minhas alunas. Não estou mais pegando dois ônibus para meu deslocamento, mas continuo sonhando em minhas viagens, pois foi dentro do transporte coletivo que iniciei meus sonhos; hoje realidade”, assinala.

Moda, passeios e intelectualidade

“Durante, praticamente, toda a minha vida andei de ônibus. Acho que minha primeira lembrança de passeio, ida ao médico, por exemplo, foi dentro de um ônibus com minha mãe. Depois, sozinha, ruminando ideias, poemas, trabalhos e paixões”, lembra a professora e doutora em Comunicação, Jacqueline Dourado. Anos depois, numa dessas “viagens”, ela resolveu fazer o Mestrado, arquitetando tudo que fosse necessário para sua estadia no Rio Grande do Sul. Seu sonho se tornou realidade: foi aprovada e comemorou, sozinha, também dentro de um ônibus.

“O ônibus sempre esteve presente em minha vida (rsrs); às vezes pegava o circular na Casa Mater e, ao invés de ir no sentido centro - entrava e fazia o percurso contrário só para passear. Em outras vezes, vinha da universidade com a Samária Andrade, hoje professora e jornalista, e com a também jornalista Angela Ferry, onde nos divertíamos muito”, recorda, com alegria, Jacqueline Dourado, citando que muitos de seus poemas e crônicas foram inspirados, também, em circuladas de ônibus.

Um laboratório de moda, uma vitrine que desperta atenção e muita criatividade, segundo o consagrado estilista Otávio Meneses, referindo-se ao transporte coletivo. Conhecido no eixo Rio/São Paulo, ele admite ter mudado o direcionamento de toda uma coleção, ao observar o comportamento das pessoas no transporte coletivo, ou olhando o movimento nas ruas – através da janela.

“Já concretizei muitos trabalhos idealizados em minhas idas de ônibus ao centro da cidade. Quando andamos de ônibus, nossa imaginação viaja, cria formas, desperta para detalhes imperceptíveis, quando estamos ao volante de um carro”, explica.

Produzindo para indústrias, Otávio Meneses ressalta que a moda que interessa ao mercado deve ter a identidade do povo, “porque é esse povo que vai consumir essa mercadoria”. O estilista frisa também que o fato de andar de ônibus o deixa mais solto para criar - revelando traços que ajudam no feitio de suas coleções. Fonte: Marco Vilarinho / Jornal O Dia
Edição: Portal O Dia
Por: Portal O Dia

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