Economia

Indústria cerâmica piauiense: reconhecimento internacional e emprego na zona rural

Premiado no exterior, o setor movimenta a economia do Piauí empregando 5 mil pessoas na área rural

atualizado em 22/01/2012 12:41

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Em tempos de crise simultânea na Europa e nos Estados Unidos, conseguir gerar emprego já é, por si só, um feito. Gerar cinco mil oportunidades de trabalho, ainda por cima na zona rural, onde tradicionalmente a empregabilidade é relacionada à agricultura (e, por isso, sazonal), é uma grande vitória. E quando o setor responsável pelo emprego dessas cinco mil pessoas possui uma indústria de padrão internacional, então, não é preciso dizer mais nada.

A indústria cerâmica do Piauí, localizada em Teresina, é a grande responsável por essa fórmula. São 80 empresas instaladas no estado, que produzem 20 milhões de telhas e 25 milhões de tijolos por mês, com qualidade internacional.  Os ingredientes para o sucesso, nesse caso, não são um segredo: unem a característica natural da argila piauiense com a tecnologia empregada na sua transformação em produto industrial.

As particularidades marcantes da cerâmica vermelha local - baixo impacto ambiental, conforto térmico e acústico, resistência ao fogo e a grandes variações térmicas e leve - explicam não somente sua aceitação no Estado mas também para outras regiões: a indústria do setor no Piauí exporta 50% do que produz para os demais oito estados do Nordeste, além do Pará, Tocantins (região Norte) e Distrito Federal (região Centro-Oeste).

A indústria cerâmica do Piauí emprega 5 mil pessoas na zona rural de Teresina (Fotos: Raoni Barbosa/ O DIA)

50% do que é produzido no Piauí é vendido para demais estados do Brasil

Um estudo divulgado no II Congresso de Pesquisa e Inovação da Rede Norte Nordeste de Educação Tecnológica, em 2007, em João Pessoa (PB), reconhece a referência regional do pólo cerâmico do Piauí. "A utilização de argilas de qualidade na massa cerâmica depende do controle rigoroso de produção, desde a estocagem da matéria-prima até a estocagem do produto acabado e o tipo de equipamento utilizado nesse processo", diz um dos autores do estudo, o doutor em Engenharia Roberto Arruda Lima Soares, professor do Instituto Federal do Piauí (IFPI).

Além disso, ressalta a pesquisa, a cerâmica produzida na região possui propriedades tecnológicas bem além do limite exigido pelas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).  "A produção da cerâmica estrutural com alto padrão tecnológico promove um baixo índice de perdas causado pelo surgimento de defeitos após a queima, com isso melhora a produtividade e, consequentemente, o faturamento. Também ocorre uma diminuição do descarte de rejeitos, que traz benefícios ao meio ambiente", explica Rubens Maribondo do Nascimento, doutor em Engenharia de Materiais e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

A qualidade da argila encontrada no estado contribui para a aceitação da cerâmica

Acabamento e preferência em outros estados

Outro ponto importante é o acabamento das telhas, ressalta o engenheiro civil José Borges Araújo, ex-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Piauí (Crea-PI). "A superfície é bem acabada e as telhas são mais resistentes. Percebemos que há um rigor na fabricação", diz o engenheiro. "Ao compararmos com telhas de outros estados, observamos que elas possuem fissuras com o tempo, o que não acontece nas daqui", comenta.

Tal qualidade explica porque, mesmo custando cerca de 30% a mais que outras telhas, devido ao custo do frete, as cerâmicas piauienses são mais procuradas nos outros estados do que os produtos locais.

Mesmo custando 30% mais caro, por conta do frete, a telha piauiense tem preferência sobre os produtos locais de outros estados (Fotos: Divulgação)

Parede feita com cerâmica piauiense: característica única

Engenheiro civil José Borges ressalta a superioridade da cerâmica do Piauí (Foto: Arquivo/O DIA)

Para o presidente do Sindicato da Indústria de Cerâmica do Estado do Piauí, José Joaquim da Costa, mais importante do que a qualidade internacional das telhas e tijolos piauienses é a inclusão social que o setor promove. "A mão-de-obra é formada basicamente por pessoas da zona rural de Teresina e municípios próximos, onde sabemos que não há uma disponibilidade de oferta do mercado de trabalho como na área urbana", explica Joaquim.

O resultado é mais que positivo, pois além de melhorar a qualidade de vida do homem rural, evita o inchaço nas periferias de Teresina, o que aconteceu bastante nas décadas de 80 e 90.

Inovação tecnológica vinda da Alemanha melhorou mais ainda a produção

Apesar de toda sua potencialidade e qualidade natural, devido à especificidade da matéria-prima (argila) encontrada ao longo das margens do rio Parnaíba, a indústria cerâmica do Piauí ainda tinha uma significativa perda de material e uma produção com baixa tecnologia. No início da década passada, isso mudou, graças a intervenção de um projeto chamado "Competir", realizado através de uma parceria do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Piauí (SENAI-PI) e a Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ).

Após o projeto, da qual participaram várias empresas de cerâmica do Estado, a qualidade do produto melhorou, com a adoção de novas tecnologias. As perdas foram diminuindo, até chegar ao índice de 2,5%, abaixo da média do setor, que é de 5%. "Pode parecer pouco, mas no final do mês ou do ano, a gente tem a dimensão do quanto era desperdiçado. O dinheiro que deixamos de perder nós investimos na nossa mão-de-obra", ressalta o ceramista José Joaquim da Costa.

Investimento em tecnologia reduziu as perdas na produção (Fotos: Raoni Barbosa/ O DIA)

José Joaquim observa a linha de produção de uma das cinco fábricas do grupo

O empresário inspeciona a qualidade dos tijolos

25 milihões de tijolos são produzidos por mês no Estado

Graças ao Competir, o setor cerâmico do Piauí mudou todo o seu perfil. Das cinco empresas que participaram do projeto, todas aumentaram sua produção, algumas até abrindo novas filiais. Além disso, o estado passou a ter um Centro de Tecnologia em Cerâmica (CTC), que dispõe de laboratório completo e oferece constantemente cursos de treinamento para empresários e empregadores do setor, transformando a cerâmica piauiense num referencial de qualidade e normatização de produtos.

O sucesso do projeto levou prêmio duplo ao Piauí: um conquistado por Celina Margarida Oliveira Monteiro, técnica do Centro de Tecnologia da Cerâmica e integrante do Competir e outro a uma empresa piauiense do setor. O nome do Prêmio é João-de-Barro, concedido pela Associação Nacional da Indústria Cerâmica (Anicer).

O resultado ultrapassou as fronteiras do Brasil e a empresa piauiense premiada também foi agraciada pelo Troféu da Melhor Qualidade concedido na Ceramice Tech, uma feira Internacional em Rimini, na Itália.

Em 2010, a mesma cerâmica piauiense recebeu o troféu de ouro de excelência empresarial (Golden Award for Business Excellence) em Madri (Espanha), entregue por representantes da Trade Leaders Club, uma associação internacional com mais de 7 mil empresários.

 

Características do tijolo piauiense que fazem sucesso

  • Regularidade de formas e dimensões.
  • Arestas vivas e cantos resistentes;
  • Inexistência de fendas, trincas, cavidades etc (massa homogênea);
  • Cozimento uniforme (produzir som metálico quando percutido);
  • Facilidade de corte (grãos finos e cor uniforme).