• bf the shop
  • elshallon
  • Unimed
  • assinatura jornal

Notícias Sebastião Nery

20 de novembro de 2017

A hora da previdência

Os poetas sabem das coisas

A HORA DA PREVIDÊNCIA

RIO - Os poetas sabem das coisas. Fernando Pessoa, como poucos:

- “O homem e a hora são um só /quando Deus faz e a historia é feita /

O mais é carne, cujo pó / a terra espreita”.

Os três acabam sendo uma coisa só: o homem, a hora e a história. A história é a hora acontecendo. Na hora, o homem faz a história acontecer. Com as lutas do homem, a história vai surgindo do ventre do tempo.

Cada passo dado no Brasil, ao longo de dois séculos, para construir a Previdência Social, foi fruto de todo um longo e penoso processo, permanente e irreversível. Cada fato precedido de muitos e muitas lutas.

É uma bela história, que ninguém contou melhor do que uma brilhante equipe do ministério da Previdência, comandada por Jorceli Pereira de Sousa, que pesquisou, organizou, escreveu, em 2002, com seus companheiros Mônica Cabañas Guimarães, Vinicius Carvalho Pinheiro, Delubio Gomes Pereira da Silva, Tereza Augusta dos Santos Ouro e Francisco Orru de Azevedo, o livro “Os 80 Anos da Previdência Social”.    

Os três grandes marcos da Previdência  no Brasil são a lei do paulista Eloi Chaves, de 1923, governo de Artur Bernardes, a criação do ministério do Trabalho, Industria e Comercio (e Previdencia), por Lindolpho Collor (avô de Fernando Collor), na “revolução”de 30, governo de Vargas, e a Lei Orgânica da Previdência Social (nº 3.807) de 1960, governo de Juscelino, projeto do inesquecível deputado Aluizio Alves, do Rio Grande do Norte.  

Mas as Nações não caem do céu, como estrelas. Para cada vitória, sempre muitas lutas. A primeira medida governamental com efeito pratico foi o decreto  9.912, de 26 de março de 1888, regulamentando o direito à aposentadoria dos empregados dos Correios. Também em 1888, foi criada uma Caixa de Socorros em cada uma das Estradas de Ferro do Império.

Ainda nos fins do século XIX, foram instituídos o Fundo de Pensões do Pessoal das Oficinas de Imprensa, a aposentadoria para os empregados da Estrada de Ferro Central do Brasil, posteriormente estendida a todos os ferroviários, o Montepio Obrigatório dos empregados do ministério da Fazenda e a aposentadoria por invalidez e pensão por morte para os operários do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e seus dependentes.

Era a Previdencia Social engatinhando.

 Em 1894, José Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Albuquerque, senador por Pernambuco, apresentou projeto criando um seguro contra acidentes do trabalho.

Em 1908, o sergipano Mauricio Graco Cardoso, e o paulista Altino Arantes, depois presidente de São Paulo, de 1916 a 20, apresentaram projetos criando o seguro de acidentes do trabalho.

   Em 1917, o deputado Mauricio de Lacerda, do Rio  (1912 a 20), jornalista, vereador e prefeito de Vassouras,  pai de Carlos Lacerda, defensor das lutas e greves dos operários, um dos fundadores da Liga Socialista, havia apresentado um projeto criando o Código do Trabalho, estabelecendo, entre outras medidas, carga horária de 8 horas diárias de trabalho e proibição de trabalho aos menores de 14 anos.

  Todo o empresariado (como sempre, no Brasil) ficou logo contra o projeto de Mauricio de Lacerda, que não foi adiante. Mas Fernando Pessoa sabe  mais do que a CNI, a Fiesp, a Firjan e todos os dinossauros patronais:

  - “O homem e a hora são um só, quando Deus faz e a historia é feita”

  Como o poeta, o povo também sabe : o Bolsa Família é a Aposentadoria dos pobres e a Previdência dos miseráveis.

  www.sebastiaonery.com  nerysebastiao@gmail.com

13 de novembro de 2017

O trono de Willian

Velhinho miúdo de cabeça grande e longos cabelos e bigodes brancos, ele não nasceu em Estrasburgo.

RIO – Velhinho miúdo de cabeça grande e longos cabelos e bigodes brancos, ele não nasceu em Estrasburgo. Nasceu perto, do outro lado do Reno, na Alemanha, onde o Meno se encontra com o Reno, em Mainz, que portugueses, espanhóis, italianos chamam de Moguncia. Nasceu em 1400 e também não morreu em Estrasburgo, mas na sua Mainz, em 1468.

Mas é em Estrasburgo, à beira do Reno, na maravilhosa cidade, que já foi romana, germânica, alsaciana, francesa, alemã, de novo francesa e ocupada quando Hitler ocupou a França, que está seu trono, todo em bronze, no meio da praça, sobre um pedestal, segurando uma página de sua primeira Bíblia:

- “Et la lumière fut”. “E a luz se fez”.

        E Gutenberg iluminou para sempre a humanidade, criando a imprensa.

E, como geralmente a imprensa, sempre perseguido. Viveu correndo entre Mainz (Moguncia) e Estrasburgo. Operário modesto, empregado nos fundos do palácio do arcebispo, começou a fazer pesquisas, tomou dinheiro emprestado, que não pagou, e por isso foi perseguido.Um dia inventou uma maquina tosca que acabou derrubando todo o império da Igreja Medieval. 

É arrepiante entrar na pequena oficina, lá da sua Mainz (Moguncia), em que ele pesquisou 25 anos seguidos, para afinal, em 1432, 500 anos antes de eu nascer, editar pela primeira vez uma pagina impressa. Nos mais mínimos detalhes, foi criando um a um os tipos gráficos, fazendo a composição à mão, inventando a prensa de imprimir. Ameaçado por motivos políticos, fugiu de Estrasburgo e trabalhou como ourives. 

De volta a Mainz em 1448, em 1455 terminava a primeira edição de um livro : a Bíblia, que por isso se chama a “Biblia de Moguncia”. Apesar disso, de escolher a Bíblia para primeira obra impressa, acabou novamente perseguido. Tomaram-lhe os exemplares impressos, expulsaram-no do palácio, prenderam-no, alegando que não havia pago as dividas. 

Na verdade, a nobreza e o clero medieval sabiam que ali estava o fim de seu Império de mil anos. Gutenberg, o velhinho miúdo de cabeça grande, tinha dado à humanidade seu melhor pedaço de pão : a palavra impressa, onde ela poderia alimentar a liberdade de pensar e de existir.

Seu monumento é de 1840, quatro séculos depois de sua invenção. Numa cidade bem própria : alem de belo e poderoso centro cultural, Estrasburgo é a capital política da Europa, sede do Conselho da Europa e do Parlamento Europeu. Em Bruxelas funciona o Poder Executivo da União Européia. Mas as decisões políticas, coletivas, são tomadas em Estrasburgo.

A França teve razão de lutar séculos por ela, disputando-a com a Alemanha. Estrasburgo é contemporânea da humanidade. Desde a Idade de Bronze já lá morava uma comunidade de pescadores. Conquistada pelos romanos, que a chamaram de “Argentoratum” (“cidade da prata”), no ano 12 antes de Cristo, logo virou posto militar para vigiar as tribos germânicas.

Conta a historiadora Annamaria Giusti : 

- “Na Idade Media, a maior autoridade eram os bispos.  Em 1262,  foi liberada da tutela deles. Em 1300, construíram uma ponte sobre o Reno, para negociar madeira, vinho,  algodão. No século 15, transformou-se numa Republica Livre, governada por um Conselho de Representantes. E logo aderiu à Reforma Protestante, virou polo cultural com a presença de pensadores, pregadores e perseguidos políticos da França, Itália, Suíça,etc”. 

 Toda minha solidariedade ao exemplar William Waack, também ele vítima do atraso como Gutenberg foi. 

06 de novembro de 2017

A mãe da Previdência

A mãe da Previdência

A mãe da Previdência

RIO - Em 1921, o deputado paulista Eloi Chaves, ia para Monte Serrat, no interior, “inspecionar uma usina de força que ali instalara há algum tempo”.

Viajava de trem, na antiga Estrada de Ferro Sorocabana, e “ouviu de dois ferroviários informações de que os trabalhadores da ferrovia, principalmente aqueles que exerciam atividades mais desgastantes, como foguistas e maquinistas, mesmo quando atingiam uma idade avançada precisavam continuar trabalhando em razão da necessidade premente de sustentar a família. As locomotivas movidas a lenha exigiam a presença constante de um foguista, que alimentava continuamente a caldeira, sujeitando-se a temperaturas extremamente altas”.

Eloi Chaves procurou os ferroviários Francisco de Monlevade, Alfredo William e Edmundo Navarro de Andrade, Inspetor Geral, Chefe de Locomoção e Chefe do Serviço Florestal da Companhia Paulista, discutiu com eles o assunto, “socorreu-se dos conselhos de Francisco Monlevade e Adolpho Pinto”, foi para sua fazenda Ermida, em Jundiaí, onde também tinha uma fabrica de porcelana, e lá concebeu e escreveu o projeto de lei que apresentou à Câmara dos Deputados naquele mesmo ano de 1921, criando “em cada uma das empresas de Estradas de Ferro existentes no pais uma Caixa de Aposentadoria e Pensões (a primeira CAP do Brasil) para os respectivos empregados”,foi aprovado e virou lei em 24 de janeiro de 1923.

Lei de um paulista, sancionada pelo presidente da Republica mineiro, Artur Bernardes, com assinaturas do ministro da Viação também mineiro, Francisco Sá, e do ministro da Agricultura, baiano, Miguel Calmon du Pin e Almeida, que aos 27 anos já tinha sido ministro da Viação do governo Nilo Peçanha (1906-1909) e depois foi deputado e senador pela Bahia.

(Esse Calmon era tio de Miguel Calmon du Pin e Almeida, reitor da Universidade da Bahia e ministro da Fazenda de João Goulart, 1962-63) 

A Lei Eloi Chaves é a mãe da Previdência Social no Brasil. Todas as lutas e vitórias anteriores, mesmo pequenas, foram avós, algumas bisavós, como o Decreto do Príncipe Pedro de Alcântara em 1º de outubro de 1821.

O discurso de Eloi Chaves na Câmara, apresentando seu projeto, tem a marca de quem sabia e tinha consciência da sua importância histórica:

 - “Na vida moderna não se compreende progresso sem os trabalhadores, que constituem o sistema circulatório das nações, na paz como na guerra. O homem não vive só para si e para a hora fugaz, que é o momento de sua passagem pelo mundo. Ele projeta sua personalidade para o futuro, sobrevive a si próprio, em seus filhos. Seus esforços, trabalho e aspirações devem também visar, no fim da caminhada, o repouso e a tranquilidade”.

  O artº 2° dizia : - “São considerados empregados, para os fins desta lei, não só os que prestarem seus serviços mediante ordenado mensal, como os operários diaristas que executem serviços de caráter permanente”.

  A lei, minuciosa, detalhada (48 artigos), generosa, surpreendentemente avançada para a época, até porque concebida e apresentada por um empresário e fazendeiro, ex-secretário de Justiça e Segurança do Estado, portanto ex-chefe de policia, só nascia assim porque vinha do parto sempre doloroso, quase sempre ensangüentado mas inexorável, das lutas sociais de 1917. 

30 de outubro de 2017

Reeleição: Mãe da corrupção

Reeleição: Mãe da corrupção

Reeleição: Mãe da corrupção 

RIO - Há 2.500 anos, na Grécia, Péricles chamou o povo para a praça pública e mandou decidir tudo pelo voto. Começava ali a civilização. Cada um valendo um. O voto é o homem como um animal igual. É a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.

  Com a roda, a pólvora, a eletricidade, o rádio, a televisão, a Internet, o homem mudou o mundo. Mas quem mudou o homem foi o voto. O voto fez o homem ser e se saber igual. Não enche barriga, mas derruba as tiranias. 

  A emenda da reeleição de Fernando Henrique foi comprada. A imprensa provou. Todo mundo sabe. Deputados renunciaram ao mandato com a boca na “botija” de Sergio Motta.

A reeleição é uma rima de cão. É a vitória irrefreável da corrupção em todos os níveis: presidência, governadores e prefeitos.

  Quando Fernando Henrique comprou a reeleição, Paulo Brossard, deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal, escreveu :

  - “A reeleição é um insulto à Nação, aos 150 anos do Brasil independente, a todos os homens públicos que passaram por este país. Se os generais tivessem querido, também teriam sido reeleitos. Não faltariam apoios. 

  Pois bem. Foi preciso que chegasse à presidência da Republica não um militar, não um general, mas um civil, não um homem de caserna, mas um professor universitário, para que o Brasil regredisse ao nível mais baixo da América Latina em matéria de provimento da chefia do Estado.

  A Constituição brasileira, na sua sabedoria, proibiu a reeleição dos presidentes. Sempre se vedou a eleição de Presidente para o período imediato.

Bastou um presidente ambicioso e sem senso de respeito à visão histórica nacional, para que a Constituição mudasse a favor de seu intento”. 

 Josafá Marinho, senador, foi para a tribuna mostrar o crime da reeleição:

  1. - “A Constituição de 88 instituiu a inelegibilidade absoluta, para os mesmos cargos, inclusive o presidente da Republica. Estipula a inelegibilidade relativa para os titulares que pretendam “outros cargos”, obrigando-os a renunciarem até seis meses antes do pleito.

  2. – “Se o titular dos postos executivos está obrigado a renunciar para habilitar-se à eleição de “outro cargo”, por maior razão lógica há de ser compelido ao afastamento definitivo para a reconquista do “mesmo lugar”.

    3. – “O fundamento moral e político de resguardo da liberdade do voto e de igualdade entre os candidatos, que o força a deixar o cargo pretendendo “outro”, cresce se seu propósito é ser reconduzido ao “mesmo” posto, de onde pode exercer influência preponderante no processo eleitoral”.

  Não adiantou a reação dos dois ilustres juristas e da maioria da Nação. Fernando Henrique “ronivonou” o Congresso e a reeleição foi comprada.

 (O ex-deputado RONIVON Santiago (ex-PFL, PMDB e PP) foi mascate da reeleição. O ex-deputado e delator da Lava Jato Pedro Corrêa (PP-PE) revelou que Ronivon admitiu ter recebido R$ 200 mil para apoiar a reeleição).

A reeleição é o princípio e o fim de todo tipo de corrupção por um motivo claro: no exercício do poder governadores, presidente e prefeitos têm muito mais força para negociar obras, superfaturar projetos e multiplicar apoios com dinheiro público. O mensalão mostrou isso e o Petrolão tirou a prova dos nove, comprovando que reeleição rima com corrupção no mais alto grau de depravação.

Voto e alternância de poder é a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.

23 de outubro de 2017

Primeiro milagre de brasília

Primeiro milagre de brasília

Primeiro milagre de brasília

  RIO - “Três dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziânia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas injustiças e perseguições, e fez a esse seu primo e meu xará a seguinte confissão que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:

  - “Meu tempo, aqui na terra, está acabado. Tenho o quê, de vida? Mais dois, três ou cinco anos? O que eu mais quero agora é morrer. Não tenho mais idade para esperar. Meu único desejo era ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora”.

  Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimarães e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para São Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo”.

“No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

  - “Ele deu-me um abraço tão forte e tão prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Brasília”.

  E morreu dormindo. Mas, desde a véspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a São Paulo busca-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje : por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real intenção de não ir para Brasília e sim de retornar ao Rio? Não queria que dona Sarah soubesse?  Seria algum encontro amoroso?

E era”.

   

Esta é uma das muitas, numerosas histórias contadas pelo veterano jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revolução de 30), com mais de meio século de redações, em seu livro, “Tempo Diferente” (primorosa edição da Topbooks, sobre 20 personalidades da política, da literatura e do jornalismo brasileiro:      

  - “Naquela nossa primeira noite em Brasília, após um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de uísque, que era bebido ao natural, isto é, quente, porque em Brasília não havia ainda energia elétrica e, portanto, não havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou :

  - Vocês sabem que eu não gosto de uísque. Mas que uma pedrinha de gelo, aí nos copos, seria muito bom, seria.

  Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele Planalto, levando os boêmios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar uísque com gelo”.

  Era o primeiro milagre de Brasília.

   

  E este bilhete de Adolfo Bloch a Carlos Murilo, já na “Manchete” em Brasília:

  - “Carlos Murilo, ai vai esta lancha para você fazer relações públicas no lago de Brasília. Não faça economia em relações publicas. Nós, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relações públicas. E fizemos um mau negócio, porque um homem como aquele não se perde”.

  www.sebastiaonery.com  nerysebastiao@gmail.com

16 de outubro de 2017

Olimpíadas de sangue

Olimpíadas de sangue

Olimpíadas de sangue 

Fernando Martins, jornalista, diretor da ANJ (Associação Nacional de Jornais) no Rio, conhecia o Salgueiro de “Chão de Estrelas” de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. Ia passando na boca do morro, um velho e um rapaz carregavam uma moça.

  - O que é que ela tem?

  - Está passando mal. Vamos levar para o hospital do INSS em Andaraí.

  - Entrem aqui no meu carro.

  E Fernando Martins saiu em disparada para o Hospital de Andaraí.

  Branca como uma nuvem, os olhos enormes saltando das pálpebras roxas, a moça tossia desesperadamente. O rapaz apertava a cabeça dela contra o peito e pedia baixinho:

  - Calma, Gracinha, calma.

  Trânsito ruim, Fernando furava o sinal, dava contramão, guardas apitando, anotando.

Ligou o rádio para distrair a moça. Elisete Cardoso cantava “Chão de Estrelas”:

  - “Minha vida era um palco iluminado / Eu vivia vestido de dourado 

Palhaço das perdidas ilusões.”

  E a moça tossindo, sufocada.

  E Elisete cantando:

  - “Cheio dos guizos falsos da alegria / Andei cantando minha fantasia / Entre as palmas febris dos corações.”.

  A moça deu um gemido fundo, grunhiu forte.

  O rapaz, desesperado, o rosto lavado de sangue que saia do peito dela, golfadas esguichando, ensopando o tapete do carro.

E Elisete cantando:

- “A porta do barraco era sem trinco / e a lua furando nosso zinco / salpicando de estrelas nosso chão. / Tu, tu pisavas nos astros distraída / sem saber que a ventura desta vida / é a cabrocha, o luar e o violão.”

O velho apenas bateu com a cabeça. E passou os dez dedos calosos na testa da filha. O rapaz ficou soluçando baixinho, contido, beijando as pálpebras roxas. Tinha nos olhos o espanto dos loucos. E Elisete cantando:

- “Meu barraco no Morro do Salgueiro / Tinha o cantar alegre de um viveiro. /Foste a sonoridade que acabou./ E hoje, quando do sol a claridade / Forra meu barracão sinto saudade / Da mulher, pomba-rola que voou.”

Depois da correria, Fernando Martins chega ao hospital do INSS, em Andaraí. A moça tinha recebido alta algum tempo antes naquele mesmo hospital. Voltava morta. Apenas 21 anos, uma filha de dois meses. Comida pela tuberculose, a doença da fome.

Elisete já não cantava “Chão de Estrelas”.

 

O jogo tem que mudar. O relativo sucesso esportivo e cultural das Olimpíadas e das Paralimpíadas no Rio de Janeiro, de 2016, não pode apagar os desmandos e as roubalheiras de autoridades e dos dirigentes das federações esportivas brasileiras. A governança das entidades e de muitos clubes no Brasil é um desastre. Uma vergonha! Pelo menos duas ações devem ser imediatamente apoiadas diante de tão grande número de escândalos no COI, na CBF e outras entidades: primeiro a apuração total e irrestrita da malversação dos recursos financeiros. E, segundo, buscar uma lei que limite ao máximo em dois mandados cada cargo de dirigente de federação e de time de futebol. Nada melhor para a gestão do que alternância de poder.

É hora de fechar o ralo do desperdício e da roubalheira para realizar as Olimpíadas da Saúde, da Educação, da Segurança, do Saneamento e da Pobreza. A vida do povo está em jogo.

  www.sebastiaonery.com  nerysebastiao@gmail.com

09 de outubro de 2017

Não há república sem homens honestos

Não há república sem homens honestos

Não há república sem homens honestos

Agamenon Magalhães, governador, ministro, patriarca de Pernambuco, era um político sábio:

  -  "O homem público no poder não compra, não vende, não  troca”.

Outro sábio, Ortega y Gasset, filósofo espanhol, em 1921,

perplexo diante do desfibramento da política e da sociedade espanhola, escreveu “Espanha Invertebrada”, sobre os rumos e o futuro da Nação:

  - “Uma sociedade míope agrava a enfermidade pública, prestigiando políticos sem virtudes que impõem as suas vontades e interesses em detrimento dos verdadeiros valores nacionais”. 

  Roberto D’Ávila com seu talento e competência profissional, entrevistando Lula, na Globo News, tentou tirar leite das pedras, extrair alguma luz de uma cabeça de bagre. A entrevista foi um descalabro. Uma aula torta de como mentir. Podia ter encerrado a conversa relendo relatório da Polícia Federal, publicado na “Folha de S. Paulo” que lista as 15 empresas da família Lula.

O Brasil teve durante 300 anos uma família imperial. Agora sabe-se que tem uma “família empresarial”, que fez o milagre de chegar a São Paulo carregando uma trouxa e meio século depois ser proprietária destas 15 empresas:

1 – BR4 Participações Ltda /Capital R$4milhões.

2 – FFK Participações Ltda / Capital R$ 150.000,00.

3 – G4 Entretenimento e Tecnologia Digital / Capital R$  150.000,00.

4 – LFT Marketing Esp. Ltda / Capital R$ 100.000,00.

5 – LKT Marketing Eireli / Capital R$ 100.000,00.

6 – Flex BRT Tecnologia S.A. / Capital R$ 20.000,00.

7 – Flex BRT Ltda / Capital R$ 20.000,00.

8 – LLCS Participações Ltda / Capital R$ 1.000,00.

9 – LLF Participação Eireli / Capital R$ 80.000,00.

10 – Gamecop S.A. / Capital R$ 10.000,00.

11 – LLCS Participações Eireli / Capital R$ 1.000,00.

12 – Touchdowm Prom. de Eventos Esportivos Ltda / Capital R$ 1.000,00.

13 – Gasbom Cursino Ltda / Capital R$ 2.000,00.

14 – Gisam Comércio de Roupas Ltda / Capital R$ 5.000,00.

15 – L.I.L.S. Palestras Eventos e Publicidade / Capital R$ 100.000,00”.

É com essa L.I.L.S. que Lula assina os recibos das fajutas conferências.

O mestre Florestan Fernandes ensinou que o problema do Brasil é que somos um povo atrasado.

1 - O ex-ministro e professor João Sayad da USP confirma:

- “A Democracia ameaça a República se for dominada pela demagogia, por eleitores mal informados. Não há república sem homens virtuosos: honestos defensores do interesse público e corajosos. A República pode se tornar tirania. República e democracia procuram um equilíbrio delicado. A República vai mal. Falta virtude. Como tornar os homens públicos virtuosos? Deveriam ler os clássicos – Cícero, Catão, Platão, Aristóteles. Só assim homens virtuosos poderiam se candidatar sem ter que jantar escondido com financiadores de currículo duvidosos”. (Valor Econômico)

2 - Professor e diretor do Instituto de Políticas Públicas da UNESP, Marco Aurélio Nogueira:

- “A política ficou submetida ao mercado e a representação perdeu substância. A fragmentação e a falta de operacionalidade do sistema político fazem com que a democracia, em alguns países, fique bloqueada e, em outros, passe a ser alimentada por doses expressivas de corrupção e ilicitude. Neste ambiente, os governos e a classe política pioram dramaticamente seu desempenho e deixam suas comunidades sem muitas saídas.” (O Estado de São Paulo)

O PT nasceu para ajudar a iluminar a vida política da Nação. Mas só fez apagar a luz. O Brasil jamais havia descido a um nível político tão invertebrado. Ortega y Gasset não viu nada.

 www.sebastiaonery.com   nerysebastiao@gmail.com

02 de outubro de 2017

Barcelona: a cidade de Augusto

Barcelona: a cidade de Augusto

Barcelona: a cidade de Augusto

  Ela é uma mas sempre foi muitas, tantas, numerosíssimas. Nasceu Laye, cidade ibérica conquistada no ano 133 antes de Cristo pelo romano Lúcio Cornélio Scipião, colônia romana nos tempos do imperador Augusto (de 27 antes de Cristo a 14 depois de Cristo), com o múltiplo, imperial e soberbo nome de Faventia Julia Augusta Paterna Barcino, a cidade de Augusto, dos Augustos como eu.

  De Barcino para Barcelona foram séculos. Plantada sobre um pequeno monte, o Taber, em meio à planície entre os rios Bésos e Llobregat, às beiras do Mediterrâneo, protegida dos ventos norte pela serra da Collserola, a cidade cresceu na área que é hoje o Bairro Gótico onde se podem ver ainda as imponentes colunas do templo de Augusto, cercada de muralhas até o século IV quando foi ocupada pelos francos.

  Ludovico Pio chega ao sul dos Pirineus e nasce o Condado de Barcelona quando se destaca Vifredo o Velloso (Guifré el Pilós) e a cidade se desenvolve permanentemente até a invasão de Almamzor (ano 985) que a arrasa e cuja independência só vai ser restabelecida com o Condado do Conde Borell II no ano 988:

  - “O esplendoroso desenvolvimento de Barcelona acontece a partir do século XI com a união de Catalunha e Aragão. No século XII, Afonso I torna-se o primeiro conde rei. Jaime I, o conquistador, estende seu reinado até o sul, no reino de Valencia e através do Mediterrâneo com a conquista de Maiorca, criando a grande confederação Catalã-Aragoneza no século XIII, com as máximas obras arquitetônicas do gótico e as grandes instituições como o Código dels Usatges, que define a personalidade histórica da Catalunha e de Barcelona.”(“Escudo de Oro”)

  Lá do alto de sua estátua, na praça ampla, olhando a avenida larga e o mar infinito, Cristovão Colombo é o herói universal que descobriu as Américas. Mas antes de voltar era “apenas uma anedota”. A partir dele é que veem a Exposição Universal de 1888 e a Exposição Internacional de 1929, até 1992 com os Jogos Olímpicos que definiram o novo urbanismo e a nova arquitetura da nova cidade.

  Barcelona é símbolo de todos os mundos, do romano até hoje.

  Neste primeiro de outubro de 2017, uma crise geopolítica abala a Espanha: o referendo pela independência da Catalunha venceu com 90% dos votos, segundo o governo catalão. Enquanto o presidente catalão diz que Catalunha 'ganhou direito de ser um Estado', o  primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, não reconhece o resultado e diz que 'não houve referendo'.

Apesar da proibição pela Justiça, mais de 2,26 milhões votaram no plebiscito e o “Sim” venceu com 90,09% (2.020.144 votos). O “Não” teve 7,87% (176.565 votos), votos em branco foram 2,03% (45.586) e nulos foram 0,89% (20.129).

Para o presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, a independência “agora não é um assunto interno da Espanha. É um assunto da União Europeia”.

Já o primeiro-ministro Mariano Rajoy foi contundente: "Não houve um referendo de autodeterminação da Catalunha. Nosso Estado de Direito mantém sua vigência. Não vimos qualquer tipo de consulta, senão uma mera encenação a mais contra a legalidade”.

O mundo está ansioso para saber o futuro da Catalunha, uma das 17 regiões autônomas da Espanha com quase 8 milhões de habitantes, e responsável por quase um quinto do PIB espanhol.