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Notícias Lasciva

08 de agosto de 2017

Dia dos Pais pra quem?

A ausência paterna é uma realidade até mesmo entre famílias que convivem na mesma casa

O Dia dos Pais é uma das datas mais hipócritas que existem. Quantos são os homens que exercem, de verdade, esse papel? Minha vó sempre dizia que filho só tem pai enquanto tem mãe, ou seja, o homem só se preocupa com as crianças quando está com a mulher.

Mas nesse texto não vou me referir aos homens que abandonam os filhos. A ausência paterna é uma realidade até mesmo entre famílias que convivem na mesma casa.

É comum que a tarefa de educar fique apenas com a mulher. Se a criança é mal-criada, convencionou-se questionar somente a mãe. Se algo está indo mal nos estudos, a responsável é ela. Por falar nisso, quantos são os pais que vão às reuniões escolares?

Ideologicamente, é como se os homens não pudessem se ocupar com os filhos porque estão cuidando da carreira ou porque precisam descansar ou se divertir. O caderno especial sobre o Dia dos Pais este ano, publicado na Folha de São Paulo (foto ao lado), reproduz bem essa ideia. O subtítulo na capa diz: “Eles conciliam o escritório com escaladas no Himalaia, shows de heavy metal e jardinagem”. Parece-me que esqueceram alguma coisa aí, não?

Enquanto isso, a mulher que concilia trabalho, atividade doméstica e cuidado com os filhos, não tem final de semana, férias ou feriado. Assume sozinha a responsabilidade que ficaria mais leve se compartilhada a dois.

Existe, ainda, outra vertente nessa análise. O julgamento que as mulheres sofrem quando, por motivos diversos, precisam deixar os filhos com o pai. Não importa se o homem, por exceção, tem mais condições de cuidar, educar e manter financeiramente. Nem importa se a mãe continua presente, mesmo não morando com o filho. Ela sempre será questionada por ter “abandonado” a criança.

Isso significa que a mulher não pode ter o discernimento de perceber que, em algumas situações, o melhor para o filho é ficar com o pai. A nossa sociedade só vai considerá-la como mãe de verdade, se ela permanecer com a criança, mesmo que isso represente sofrimento para ambos.

A cada dia fico mais certa de que poucas pessoas se importam de fato com o bem estar das outras, inclusive das crianças. Estão mais preocupadas em manter as aparências, as hipocrisias, os status quo.  

01 de agosto de 2017

A importância de um P.A na vida da mulher solteira

Toda mulher sexualmente satisfeita é feliz. E uma mulher feliz sabe exatamente o que quer.

Toda mulher solteira precisa de um P.A. Para quem não sabe o que significa a sigla, vai a dica: P@$ Amigo para mulheres hetero ou bissexuais / P@$&*$!# Amigo para as mulheres lésbicas ou bissexuais. Didaticamente, é aquela pessoa que você faz sexo quando tá com vontade, mas não mantém relacionamento afetivo.

Um P.A cumpre muito bem a função de evitar que a mulher fique carente a ponto de cair nas garras de uma pessoa qualquer, que não tem nada a oferecer em um relacionamento, mas finge - às vezes impecavelmente - que é alguém perfeito.

Quando uma mulher está carente, seja de sexo ou de afeto, corre grandes riscos de se envolver com a pessoa errada  ou de criar expectativas que nunca são alcançadas. A consequência imediata dessas experiências ruins é se julgar alguém com “dedo podre” e perder as esperanças de encontrar uma pessoa que realmente valha a pena.

Mas, atentai bem (sim, há sempre um porém), se a carência da mulher é afetiva, um P.A não vai resolver. Pelo contrário, poderá agravar ainda mais a situação. Nesses casos, o melhor a fazer é esperar o milagroso remédio chamado tempo. Voltar para si mesma, enxergar-se como uma mulher maravilhosa e que, por isso, não merece nada menos que uma pessoa igualmente maravilhosa.

Agora, se a carência for apenas sexual, é nesse momento que um P.A se faz necessário, desde que (novamente o porém), não haja envolvimento afetivo. Se apaixonar, nesse caso, só vale a pena se a pessoa comprovar que merece subir na carreira e se tornar namorado (a).

Importante lembrar que um P.A precisa atender a pelo menos cinco pré-requisitos. Primeiro, tem que ser solteiro porque você não precisa de um problema com outra mulher. Segundo, tem que ser disponível porque um P.A difícil não cumpre bem o seu papel. Terceiro, tem que ser bom de cama por motivos óbvios. Quarto, tem que saber se colocar no lugar de P.A e não fazer exigências desnecessárias. Quinto, tem que ser uma pessoa legal, que não vá sair por aí te julgando.

Toda mulher sexualmente satisfeita é feliz. E uma mulher feliz sabe exatamente o que quer. E, consciente do que quer, não vai deixar vida de solteira, com um P.A interessante, por um namoro medíocre. 

26 de julho de 2017

Na aula de hoje, vamos ensinar aos homens como dar prazer

Venham aqui, amiguinhos. Falaremos sobre penetração e sexo oral.

A minha conversa hoje é com os homens e é sobre o prazer das mulheres. Dizem as más línguas que uma mulher que se relaciona com outra sabe melhor sobre esse assunto, mas não é bem assim... A questão é outra e eu até falei mais ou menos sobre isso em um post. Só que agora vamos aprofundar.

Venham aqui, amiguinhos. Na aula de hoje falaremos sobre penetração e sexo oral.

Não fiquem abismados, mas pouquíssimas são as mulheres que têm orgasmo com penetração. Vocês deveriam saber disso, se não fossem tão desligados em conhecer melhor o corpo e o prazer femininos.

Quase todas as mulheres só gozam com o estímulo correto do clitóris, que é externo. E as raras mulheres que têm orgasmo com a penetração é porque, antes, foram bem estimuladas com preliminares, o que deixa o Ponto G mais sensível.

Quando falo de preliminares, caros homens, não me refiro a um sexo oral rápido e feito com nojinho. Primeiro que sexo oral nem deve ser considerado preliminar, é sexo mesmo e precisa ser considerado por vocês como tal. É ele que faz a quase totalidade das mulheres chegarem ao orgasmo.

Vocês têm mãos, dedos, língua, têm o seu corpo todo para usar, mas não usam. E quando fazem isso, não é com a dedicação ideal. Sequer acariciar uma mulher vocês sabem, amiguinhos. Às vezes passam a mão no corpo dela só para dar prazer a vocês mesmos.

Eu fico possessa quando sei que alguns de vocês não gostam de fazer sexo oral e que se irritam com as preliminares. Como dizem gostar tanto de mulher e ficam com essa frescura? É algum transtorno mental, é?

Por causa disso é que o máximo que vocês conseguem é fazer uma mulher fingir orgasmo. E também é por essa incompetência em dar prazer, que muitas perdem o gosto por sexo. Aí vocês dizem que o problema é com a mulher, saem por aí falando que ela é frígida, que você tem que buscar fora o que não tem em casa.

Além de ser ridícula, essa atitude ainda é desonesta e machista, ao não reconhecer que o problema é você achar que seu pênis é o super-poderoso causador de orgasmos múltiplos. Volte ao terceiro parágrafo desse texto e reflita sobre ele novamente.

Quando vocês entenderem que esse órgão no meio das suas pernas não é o mais importante, aí vão começar a dar prazer de verdade a uma mulher.

19 de julho de 2017

Os homens traem porque as mulheres perdoam

O estímulo à poligamia masculina começa muito cedo. É como uma prova de virilidade. Enquanto isso, as mulheres são ensinadas a respeitar e a perdoar

Existe uma questão cultural que responde o questionamento de muitas mulheres sobre a infidelidade dos homens. Quando ainda nem sabem o falar, os bebês já “têm” várias namoradinhas. Na escola são o “terror com as coleguinhas”. Na adolescência são os pegadores.

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O estímulo à poligamia masculina começa muito cedo. É como uma prova de virilidade. Enquanto isso, as mulheres são ensinadas a respeitar e a perdoar. Se o mundo fosse normal, essa lógica seria absurda. Mas as coisas seguem assim, de cabeça pra baixo, por causa da nossa cultura machista.

O homem trai e nem mesmo se preocupa em ter cuidado para não ser descoberto. Ele sabe que, ao beijar outra mulher na frente de todo mundo, as duas envolvidas no triângulo vão saber da existência uma da outra. Mas isso não importa, porque ele tem segurança de duas coisas: a namorada/esposa vai perdoar e a outra mulher vai continuar com ele, mesmo sabendo que é comprometido.

É como uma bola de neve. O homem trai porque sabe que não vai perder nada por isso, e a mulher aceita a traição porque foi ensinada a perdoar. Existe ainda aquela ideia, muito favorável para eles, de que todos os homens são iguais. Ou seja, terminar com um, não resolveria o problema porque o outro vai fazer a mesma coisa.

E assim eles seguem se divertindo com a infidelidade e as elas perdoando a traição. Casais vivem uma vida inteira dessa forma, comemorando bodas às custas sofrimento da mulher.

Alguém pode dizer que as coisas estão mudando, que as mulheres aceitam menos as traições, mas isso é uma grande ilusão. Basta fazer uma pesquisa rápida entre os casais que conhecemos. A mudança ocorrida ao longo de séculos não representa coisa alguma diante do que realmente deveria acontecer.

Não estou defendendo que a monogamia seja a única forma de garantir felicidade. O amor livre está aí para mostrar que existem inúmeras maneiras de se relacionar, mas a liberdade tem que valer para ambos os sexos.

A bola de neve só vai parar de crescer quando as mulheres tomarem atitude. Elas podem não perdoar, podem não aceitar relacionamento com homem comprometido, ou ainda podem exercer o direito à infidelidade também. Afinal, se eles traem, porque elas não poderiam? 

13 de julho de 2017

Reforma trabalhista: uma agressão física às grávidas

Chega a ser desumano submeter uma mulher grávida a um local de trabalho insalubre. É como um chute na barriga dessas trabalhadoras

A reforma trabalhista é como um chute na barriga das mulheres grávidas. É, literalmente uma agressão física. Chega a ser desumano submeter uma mulher aos oito, nove meses de gravidez, a ruído, sol e poeira, entre outros agentes presentes em um local de trabalho insalubre.

Os defensores do indefensável dizem que, agora, as grávidas terão “permissão” para trabalhar nessas condições. Não parece piada, porque nos dá vontade de chorar, em vez de rir.  Na prática, as mulheres agora serão vítimas de trabalhos degradantes. A permissão, na verdade, foi dada aos patrões para explorarem ainda mais a força de trabalho feminina.

Lembro da declaração do deputado federal Mainha (PP), defendendo eufórico a reforma trabalhista e a possibilidade de a mãe voltar à empresa antes de terminar a licença maternidade. “Depois de três meses, a mulher já está cansada de ficar em casa”, disse. Pergunto-me se ele fala isso por ignorância ou é mesmo de má fé.

Ele, e nenhum dos machistas, misóginos e insensíveis deputados e senadores que ajudaram a aprovar a reforma trabalhista pensaram nas grávidas com os pés inchados, com as dores nas costas e com uma barriga que muda o eixo de gravidade, provocando maior risco de quedas.

Mas, o que poderíamos esperar de um Congresso formado por 90% de homens, a maioria interessada em manter a criminalização do aborto e em criminalizar mulheres que denunciarem estupro e não conseguirem provar que foram vítimas? A resposta é que podemos esperar coisa muito pior.

A mulher já era a carne mais fraca do mercado, agora virou a carne podre. 

03 de julho de 2017

O dia em que me senti um pouco Virgínia Woolf

Inventei de arrumar um amor a mais de 2 mil quilômetros e inventaram de me convidar para participar de um clube de leitura feminista em Campinas

Eu poderia participar de um clube de leitura em Teresina, na cidade onde moro. Poderia ser um grupo que se reunisse para ler romances, clássicos da literatura brasileira ou até mesmo contos eróticos. Mas, inventei de arrumar um amor a mais de 2 mil quilômetros e inventaram de me convidar para participar de um clube de leitura feminista em Campinas.

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Foi assim que me deparei com Virgínia Woolf e o livro “Profissões para mulheres e outros artigos feministas”. Em uma tarde do dia 20 de maio – muito fria para quem está acostumada com os 40 graus da capital piauiense – estava eu no Museu da Imagem e do Som, no centro de Campinas, com um grupo de aproximadamente 15 mulheres, todas desconhecidas, mas igualmente empolgadas.


*Esse texto foi originalmente escrito para o blog Mulheres que Leem Mulheres


A leitura de Virgínia Woolf, que morreu em 1941, aos 60 anos, foi para nós um alerta violento, digamos que um tapa na cara a nos dizer que muito pouco foi conquistado desde que a autora escreveu sobre a necessidade de a mulher matar o anjo do lar, sobre opressão no mercado de trabalho, sobre a ideia de que somos inferiores intelectualmente, sobre privilégios…

Reconhecer que esses temas são ainda tão frequentes na nossa sociedade só não foi tão desolador porque eu não estava só. Éramos um grupo de mulheres dispostas a dar a nossa contribuição para avançar um pouco mais na luta feminista.

É ousado dizer, mas éramos – cada uma com as suas experiências – um pouco de “Virginias Woolf” no século XXI. Pelo menos foi assim que me senti naquela tarde, que entrou pela noite sem ninguém sequer perceber.

Éramos mulheres, lendo uma mulher e debatendo somente com mulheres. Vocês têm ideia do quanto isso é acolhedor e ao mesmo tempo subversivo? Se não, sugiro que entrem para um clube de leitura feminista e sintam com seus próprios corações.

29 de junho de 2017

Quem cuida da mulher?

Mesmo velho, mesmo não sendo mais sexualmente útil, o homem consegue uma mulher para transformar em cuidadora de idosos não remunerada

Manifestar o desinteresse pelo casamento ou pela maternidade pode representar um ato de resistência para as mulheres. É que a informação jamais será dada sem receber em troca manifestações contrárias e o questionamento tão comum: “Mas quem vai cuidar de você na velhice?”.

A pergunta, que já é uma crítica disfarçada, revela muito sobre o papel que a sociedade conservadora delega à mulher. Retirando a máscara de preocupação com o futuro, o questionamento que se faz é: “Como assim você não quer ser mãe? Que absurdo uma mulher não querer casar! Esse é seu papel e você está fugindo da sua obrigação”. Ou seja, é casamento compulsório e maternidade idem.

É nessa circunstância que eu falo sobre ato de resistência. Explicar para essas pessoas o motivo de não querer seguir o caminho usual da maioria das mulheres é um tanto cansativo. Não por falta de argumentos, mas porque eles não convencem. E nem precisariam convencer, se as pessoas entendessem que as decisões que cada uma toma para sua própria vida não é de domínio público, ou seja, não é passível de receber pitacos.


Idosas do Abrigo São Lucas, em Teresina (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

A questão fica óbvia quando notamos a diferença de tratamento com o homem, quando ele diz que não quer casar e nem ter filhos. A informação é recebida com piadas e até elogios. É porque o cara é garanhão, pegador, porque ainda está vivendo a vida. “Tá certo, você é muito novo pra pensar nisso”, dizem alguns.

Ou então ninguém diz nada. Passa despercebido, não gera polêmica, muito menos questionamentos do tipo “quem vai cuidar de você na velhice?”. E aí se revela mais um aspecto que confirma o machismo da nossa sociedade. Sim, novamente ele, presente em todos as esferas da vida.

O homem geralmente encontra alguma mulher para cuidar dele. Mesmo velho, mesmo não sendo mais sexualmente útil, consegue alguém – na maioria das vezes mais jovem – para transformar em cuidadora de idosos não remunerada. Mas da mulher ninguém cuida.

Neilson Meneses, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Sergipe, chegou à mesma conclusão. Ele publicou no site da instituição o texto “Mulheres envelhecem sós, os homens em companhia”, com base em informações sobre formas de convivências, divulgadas pela PNAD 2011. “Parece ser, que a situação de inserção na família e estado conjugal, tendo em conta as diferenças de gênero, apresenta aparentemente mais ‘vantagens’ para os idosos que para as idosas, que seriam, portanto, mais propensas à vulnerabilidade”, diz o professor.

O fato é que filhos não garantem à mulher qualquer segurança na velhice. As idosas que estão em abrigos geralmente são mães não apenas de um, mas de muitos. Casamento, então, nem precisa falar sobre isso. Quantos homens você conhece cuidando de suas esposas?

Portanto, vamos parar de questionar as mulheres que não querem casar ou ter filhos. Nada garante que alguém vá cuidar delas. Que possam pelo menos ser felizes na juventude, sem ninguém metendo o bedelho na escolha que fizeram para suas vidas.

26 de junho de 2017

Sapiossexuais, eles existem?

Aquele que sente atração e excitação erótica pela inteligência

Dia desses me deparei com um termo um tanto curioso: sapiossexual. A definição é ainda mais interessante: aquele que sente atração e excitação erótica pela inteligência. Fiquei me perguntando como isso é possível.

O ímpeto de quem, como eu, prefere as coisas mais diretas, mais palpáveis (com maldade, mesmo) foi imaginar que isso não existe. “O desejo é algo físico. Não se pode desenvolver esse sentimento por uma coisa abstrata”, pensei. Para mim, a inteligência torna a pessoa interessante, mas não atrativa sexualmente. É bom pra conversar, dá orgulho apresentar aos amigos e à família, mas só. E isso não dá tesão.

Mais alguns momentos de reflexão e repenso. “Se eu fosse considerar como desejável apenas o que é para mim, todas as pessoas sentiriam atração pelo corpo feminino. É tipo a lógica dos heteronormativos, que querem obrigar todo mundo a se atraírem apenas pelo sexo oposto.

Tudo que está relacionado ao desejo é abstrato. Se não fosse assim, o sex appeal, ou seja, o poder de atração que algumas pessoas têm mais que outras, não existiria. Como seria possível explicar, por exemplo, o desejo que determinadas mulheres despertam apenas com o olhar? E o charme que certos homens têm, mesmo não sendo exemplos de beleza física?

O corretor do meu word teima em colocar a linha vermelha embaixo da palavra sapiossexual, indicando que ela está errada. Mas errado está o corretor, assim como eu estava ao pensar que atração sexual é algo puramente físico. Se existe gente que tem desejo por ambos os sexos e gente que não tem desejo por nenhum deles, por que não poderia existir alguém que se atrai sexualmente pela inteligência?

19 de junho de 2017

Péssimo dia para ser mulher

Dói na alma ouvir que outra mulher foi morta pela arma do machismo

Hoje sangra o coração de todas as mulheres que ficaram sabendo sobre mais um caso de feminicídio em Teresina. Dói na alma ouvir que outra mulher foi morta pela arma do machismo.

Revolta e ao mesmo tempo amedronta imaginar quantas pessoas estão tentando achar a justificativa para o crime. “O que será que ela fez pra ele agir dessa forma?”, “Um rapaz tão novo, bonito, com um futuro pela frente...”, “Será que não tava mesma fazendo alguma coisa?”, “Será que ela é vítima?”.

Não há motivo, a não ser o machismo que faz os homens e boa parte da sociedade acharem que o comportamento da mulher pode ser reprovado. Que a nossa roupa é da conta de alguém, que a nossa vida pode ser retirada se não agirmos de acordo com os padrões ditados pela sociedade feita de “cidadão de bem”.

O machismo matou mais uma mulher na madrugada da área nobre da capital, assim como mata diariamente na periferia. Amanhã poderá ser qualquer uma de nós. Hoje é um péssimo dia para ser mulher, é um péssimo dia para viver nessa sociedade formada por valores distorcidos, por hipocrisias e por violência. Só que hoje também é um ótimo dia para refletirmos, para nos unir.

Luto não é apenas um sentimento, pode também ser verbo. Por outras, por nós mesmas, lutemos, mulheres!

12 de junho de 2017

Compatibilidade sexual

Hoje, 12 de junho, flores, chocolates e corações podem ser legal, mas o romantismo não é mais importante que uma noite de sexo

No Dia dos Namorados todo mundo fala de amor, do quanto a outra pessoa é especial e carinhosa. As fotos nas redes sociais exaltam os longos anos juntos, a felicidade a dois e o companheirismo. É lindo, emocionante e tal, mas eu sempre fico pensando se aquele casal tem algo que é tão importante quando o amor e o respeito: compatibilidade sexual.

Claro que ninguém vai sair expondo a vida íntima, mas se a gente vivesse em um mundo menos conservador, o sexo seria mais valorizado. Não aquele valor distorcido, dado pela indústria pornográfica. Falo dos casais terem consciência de que a qualidade e a frequência sexual completam a felicidade no relacionamento.

Poucas pessoas admitem, mas os namoros e até os casamentos terminam quando acaba a sintonia na cama (ou na mesa, no sofá, no banheiro...). A prova disso é o início dos relacionamentos. A vida sexual de um casal que está se conhecendo é sempre muito intensa, cheia de descobertas e aventuras. É nesse período que as duas pessoas estão mais apaixonadas.

Mas passa o tempo, as coisas vão ficando diferentes e aí o negócio começa a desandar. O casal vira amigos dividindo a mesma rotina, a mesma casa, as mesmas contas. O sexo acontece vez ou outra - quando acontece - de forma quase automática, por obrigação.  O casal de desapaixona, às vezes se trai e o fim é o único caminho possível.

Sim, esse texto está bem dissonante da data festiva, mas era necessário dizer isso tudo como uma forma de alerta. Hoje, 12 de junho, flores, chocolates e corações podem ser legal, mas o romantismo não é mais importante que uma noite de sexo. O verdadeiro Dia dos Namorados pode ser a data apropriada para reviver aquela chama que está se apagando, ou para jogar mais lenha na fogueira que já está bem acesa.

Obviamente, ninguém deve se sentir obrigado a faze sexo de forma compulsiva. O essencial é que o casal valorize a sexualidade na mesma medida. Se uma pessoa gosta muito de sexo e a outra não faz tanta questão assim, essa conta não fecha.

A questão é que as pessoas não deveriam se acomodar em um namoro ou casamento com sexo ruim ou sem sexo, assim como ninguém é obrigado a aguentar cobrança por sexo o tempo todo. Por isso é tão importante a compatibilidade sexual para manter um relacionamento feliz de verdade.

Se você não está sexualmente feliz, a data de hoje serve também para reavaliar essa relação.  

31 de maio de 2017

Manda nudes

Sugiro que experimentem. E se não acontecer nada disso do que estou falando, é provável que a falha esteja no relacionamento, e não na técnica

Tem apenas uma coisa melhor do que falar sobre sexo, é praticá-lo. Só que às vezes existem algumas impossibilidades, como a distância, os pais em casa, os filhos no quarto, alguém que adoece e que a gente precisa ir lá socorrer, enfim, não podemos fazer sexo na hora que queremos (porque o mundo é assim mesmo, cruel).

Mas nós podemos driblar esses problemas e tornar nossas relações amorosas menos serenas (chatas, mesmo) e mais lascivas. E é aí que eu defendo uma prática arriscada em tempos de revenge porn, mas também bastante prazerosa: os nudes! 

Claro que não é pra sair mandando fotos à la Mulher Melão pra qualquer pessoa. Não, pera... se quiser mandar, pode sim. Se tem uma coisa que a mulher pode, é fazer o que ela quer. Mas eu me refiro aos riscos de ter suas fotos vazadas por aí. Os transtornos são grandes e tem muito homem que não merece nem mesmo seu "oi", imagine a linda imagem dos seus seios.

Pois bem, tomados os devidos cuidados com esse tipo de babaca, enviar e receber nudes é quase uma terapia. Serve à auto estima, torna a relação mais quente, surpreende quem recebe e estimula uma conversa interessante.

O que eu já tinha comprovado na prática, foi confirmado por uma pesquisa realizada no Laboratório de Psicologia da Saúde das Mulheres da Universidade Drexel, nos Estados Unidos. O estudo sugere que casais que trocam nudes são mais felizes. 

Para as pessoas que descreveram seus relacionamentos como sendo "muito sérios", não houve relação entre a prática de trocar nudes e o nível de satisfação. Já para todas as outras, os cientistas constataram que, quanto mais o participante trocava mensagens de conteúdo sexual com o parceiro, mais feliz ele era no relacionamento.

E você aí pensando que a base de um casamento ou namoro duradouro era paciência, respeito e amor. Sim, isso também é importante, mas deixem que as coisas caiam na rotina e vocês vão se transformar em amigos dividindo um mesmo lar.

Algumas pessoas dizem que não gostam da ideia de mandar nudes. Talvez imaginem que as fotos precisam ser explícitas, como a imagem de um exame ginecológico. Pode ser isso também, mas um detalhe do decote ou da parte do corpo que a pessoa goste mais, vai estimular bastante a imaginação, tanto de quem recebe, quanto de quem envia. Ganhar o feedback será animador!

Sugiro que experimentem. E se não acontecer nada disso do que estou falando, é provável que a falha esteja no relacionamento, e não na técnica.

24 de maio de 2017

Sexo anal: o tabu

A anatomia masculina é que foi criada para dar prazer através do ânus, porque são eles quem têm a próstata

Estamos em 2017 e tudo que se relaciona à sexualidade ainda é um tabu. Certamente eu usarei essa afirmação em outros textos, porque é uma coisa que me deixa abismada. Os tabus que envolvem o sexo tornam-se maiores de acordo com algumas variáveis, como o sexo anal, por exemplo.

Após conversar e ler muito sobre esse assunto, concluí que a prática deveria ser adotada principalmente pelos homens. Sim, a anatomia masculina é que foi criada para dar prazer através do ânus. São eles quem têm a próstata, uma glândula que quando estimulada causa intensa sensação de prazer. E o estímulo a ela é feito por onde?

Certamente a maioria dos homens nunca pensaram em testar, então desconhecem essa possibilidade. É que o machismo prega que sentir prazer anal é ser gay. Mas, anatomicamente, a mulher é que não tem possibilidade de alcançar um orgasmo com penetração anal, pelo simples fato de que não possuem próstata e nenhum outro mecanismo que a substitua.

Veja bem, me refiro à anatomia. Não posso, obviamente, dizer que todo homem sentirá prazer com sexo anal e que a mulher jamais sentirá, porque tudo depende do tesão que a relação sexual provoca em cada um, do quanto a pessoa está aberta a novas experiências e, claro, das preferências sexuais do indivíduo.

Entretanto, posso afirmar que o sexo anal exclusivamente para as mulheres atende a um pensamento machista de dominação, fortalecido pela ideia de submissão ao homem. A própria posição em que a mulher fica, já é um indício.

Isso pode ser prazeroso pra ela também? Com certeza. Inclusive, muito, desde que essa seja uma vontade não apenas do homem. Mas o que vemos, na maioria das vezes, é eles insistindo na prática do sexo anal compulsivo, como se o prazer da mulher não tivesse importância. É novamente o machismo limitando o prazer, retirando possibilidades de descobertas e impondo práticas que não são necessariamente agradáveis.

Moral da história: sem o machismo, homens e mulheres teriam mais orgasmos. #ficaadica  

22 de maio de 2017

Pornografia feminista existe?

Entrevistamos a mestranda Samira Ramalho, que estuda sobre gênero e pornografia, com epistemologia feminista

O blog Lasciva entrevistou a mestranda Samira Ramalho, que estuda sobre gênero e pornografia, com epistemologia feminista. Confira o que ela fala a respeito das vertentes favoráveis e contrárias às produções ponográficas, bem como as indicações de sites que trazem outra abordagem para os filmes do setor.


As diversas vertentes do feminismo pensam diferente sobre a pornografia. Quais são as teorias mais comuns e divergentes?

Sim, há debates de feministas sobre a pornografia. De maneira resumida, posso dizer que a vertente anti-pornografia é mais conhecida e até antiga. Na década de 80, Katherine Mackinnon e Andrea Dworkin ocupavam os espaços nos Estados Unidos com discursos anti-pornografia. Elas são as representantes mais famosas que eu posso lembrar no momento.

Nesta mesma época, Mackinnon esboçou um projeto de lei que foi analisado em alguns estados americanos, mas considerada inconstitucional por parecer censura à liberdade de expressão. No entanto foi apreciada no Canadá devido à relação de causalidade que as feministas apontavam à pornografia e a percepção sobre as mulheres no espaço público, como se a pornografia estimulasse o assédio e demais violências contra mulher.

O argumento principal é de que a sexualidade era para a mulher, assim como o trabalho era para o proletariado na teoria Marxista, um meio pelo qual se possibilita a exploração de um grupo. E ainda temos representantes com discursos bem contundentes contra pornografia.

Há também uma vertente pró-pornografia que não apoia essa censura do grupo contrário e discorda de que a sexualidade seja um campo de exploração da mulher. Rejeita teorias deterministas e essencialistas sobre a sexualidade, sobretudo da mulher. Acredita que a sexualidade, e até mesmo a prostituição, possa ser espaço de disputas, veem que essas relações podem acontecer de maneira fluida e acreditam na criticidade das pessoas que participam dela. Não acreditam em relação de causa e efeito entre pornografia, prostituição e sujeição de mulheres. 

Algumas cenas me parecem bem incômodas para as atrizes, como sexo anal, por exemplo. Qual é o limite para que não haja, de fato, a exploração da mulher?

Não tenho como responder sobre esses limites, mas a pornografia contemporânea mainstream, aquela mais comum de se encontrar na internet gratuitamente, tem roteiros que se repetem com muita frequência, como uma quantidade enorme de cenas com sexo anal, dupla penetração, sexo grupal com uma única mulher, etc. Também não posso dizer que essas práticas não são prazerosas para as mulheres em geral, pois isso seria um reducionismo ou uma doutrinação.

Existe uma diversidade muito grande em relação às práticas sexuais e são válidas desde que prazerosas para as pessoas envolvidas. Sobre consentimento, nem preciso falar, né?  Mas esses vídeos são feitos para homens. É para o público masculino heterossexual, sobretudo. Então se entende que o protagonismo é dos homens, por mais que a imagem da mulher seja a mais destacada naquele vídeo. É sobre o prazer de um homem, pode ser do ator, do produtor, do diretor, etc, mas é de um homem. Então isso por si só já merece uma problematização da parte de quem consome, principalmente se for uma mulher. 

Por que o público feminino não vê tanto pornografia quanto o masculino? É mais pelo conservadorismo, pela cultura machista que impede, pelo formato dos filmes ou tudo junto?

A resposta para isso também é difícil. Na minha pesquisa de campo, que ainda está sendo pensada, talvez apareçam posicionamentos sobre isso, mas de antemão, assim como disse anteriormente, esses vídeos são tradicionalmente feitos para homens. Os homens são aqueles que mais aparecem como usuários. Então esse fato já deve ter afastado muito o público feminino.

E sim, uma cultura machista onde as mulheres são socializadas de maneira diferente e têm uma percepção diferente da própria sexualidade também as afastou. Mas a internet está aproximando as mulheres da pornografia. A facilidade de acesso e a privacidade está mudando isso. Uma vez vi uma pesquisa de dois desses sites famosos de pornografia mainstream (XVídeos era um deles) afirmando que 35% dos acessos eram de pessoas que respondiam como mulheres. 

Antigamente, era com as prostitutas que os homens "aprendiam" a fazer sexo. Hoje o "ensinamento" vem dos filmes pornôs? De que forma isso deturpa as relações sexuais e a valorização do prazer da mulher?

Em todas as mídias eu vejo referências às práticas e performances da pornografia sendo utilizadas como exemplos para o que se considera um bom desempenho sexual. Vejo em filme, novela, desenho, séries,  programas diversos.

Há também pesquisas das correntes anti-pornografia (tanto feministas, como religiosas), assim como documentários, com discursos de que a pornografia molda garotos, homens e isso deturpa a maneira como eles constroem a sua sexualidade e a relação com as mulheres, atribuindo até a pornografia como influenciadora importante em episódios de crimes sexuais.

No momento, ainda com o pouco tempo de estudo que tenho sobre o tema, não acredito que as pessoas moldem sua sexualidade só com isso. Tem pessoas que sequer consomem pornografia, ou tiveram pouquíssimo contato, mas já possuem roteiros sexuais bem definidos e falocêntricos, incluindo o sexo anal. E isso é anterior ao pornô como conhecemos.

Há até mesmo uma teoria Freudiana do início do século XX que diz que os homens separam sexualidade de afetividade, como se uma mulher A fosse um objeto do desejo e a B fosse do afeto. O que se faz com A, não se faz com B. Pu seja, essa questão do prazer da mulher em relações heterossexuais é histórica e, dentro da mesma história, ela foi diferente. Não há linearidade.

Acreditar em efeitosdo pornô sobre meninos, é o mesmo também que acreditar piamente na antiga teoria da Agulha Hipodérmica. As pessoas não recebem da mesma forma um conteúdo, nem mesmo precisam ser atravessadas por ele. A pornografia pode não influenciar em nada, assim como pode impactar a vida de alguém. Cada indivíduo tem autonomia para definir seus próprios comportamentos e filtrar suas influências. E se há algo moldado aqui, acredito que é mais provável que seja a pornografia, que é um produto feito a partir de concepções, visões, interesses e fantasias da pessoa ou do grupo que a produz.

Não estou querendo isentar a pornografia, só acredito que não há uma única maneira de pensar sobre ela ou sobre as pessoas que a consomem.

Cenas de sexo lésbico são sempre irreais, com práticas que claramente não são prazerosas. Por que os produtores de filmes repetem tanto essa fórmula?

Então, assim como outras fórmulas que eu mencionei, essa é uma bem recorrente. No senso comum é bem divulgado que homens sentem tesão em ver duas mulheres transando. Em conversas do cotidiano já ouvi bastante isso também. Assim como eu disse anteriormente, quem faz o pornô coloca aquilo que ele acredita, que ele gosta ou que ele acha que vai atrair consumidores.

O pornô tradicional é masculino mesmo, então não há nenhum compromisso em agradar as mulheres lésbicas nem hétero, nem trans. Ninguém que não seja do gênero e do sexo masculino. E parece que por todo esse tipo de pornografia passam práticas e discursos que penalizam o corpo feminino. Como muitas mulheres relatam, as práticas parecem causar dor, então denotam punição.

É possível falar em um pornografia feminista? Os filmes da Erika Lust poderiam sem chamados assim?

Esse é um campo de intensos debates, mas acho que é possível. Talvez até as feministas anti-pornografia acreditem que ele possa existir, só não há nada no momento. Talvez seja coisa do futuro.

A pornografia que se intitula feminista já tem um diferencial em relação ao mainstream: não tem violência. Nisso todo mundo concorda. Além disso, ela geralmente tem preocupação estética, com a narrativa, com os corpos e pode ser considerado de fato um cinema pornô. É um produto com uma qualidade cinematográfica.

A Erika Lust é uma das mais famosas e é a pornógrafa cujas produções eu tenho mais contato. Ela produz seus roteiros baseados em fantasias enviadas por mulheres e, por isso, ela considera que atende às expectativas femininas. Mas também é muito possível que muitas dessas fantasias femininas também sejam heteronormativas, permeadas por algum machismo. Há feministas que não concordam que ela denomine a pornografia dela como feminista, mas ela reivindica o título para si. Há também outras diretoras de sucesso como a Tristan Taormino, Candida Royale e Petra Joy.

Existe uma série de documentários curtos chamada Hot Girls Wanted: turned on que está na Netflix. A Erika Lust aparece no primeiro episódio e ela diz que outro diferencial dela é todo o clima de sororidade que há no set, uma equipe quase toda de mulheres, os atores que em geral não são profissionais e por isso não fazem "pornografia" e sim "sexo", que a mulher é realmente a protagonista do desejo, entre outros argumentos que ela utiliza para defender a própria pornografia. Lógico que após esse episódio apareceram muitas críticas à posição de "exploradora de outras mulheres", pois ainda há problemas em relação ao uso da imagem das mulheres para as feministas críticas. Mas é melhor que possamos produzir diferentes reflexões sobre o tema e ampliar o debate. 

Poderia citar filmes ou sites que reproduzem pornografia diferente dos modelos mais conhecidos?

Não vou indicar a pornografia diretamente, mas é bom dar uma olhada no site do Feminist Porn Awards, que é uma premiação criada por uma marca de brinquedos sexuais e que tem dado visibilidade ao cinema pornô feminista. Lá tem diversas informações sobre diretoras, atrizes e atores, além dos nomes das produções. Mas aviso que os filmes delas são pagos, em sua maioria.