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Uma história de amor à leitura

Por Ceiça Souza

18/06/2015 08:30

Há algo entre a realidade e a fantasia que mantém em mim a vontade da descoberta: a imaginação que surge nas entreletras, entrelinhas, entrepáginas, entre... Gosto de ler “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector, porque me lembro de mim, ávida por leitura, na minha infância e na minha adolescência. Como a personagem do conto, eu adorava livros grossos, pois eram sinônimos de muita emoção, de respiração acelerada. E como eram emocionantes aquelas horas em que os livros preenchiam a solidão, acalentavam os sonhos, instigavam a curiosidade e me enchiam de sensações inusitadas. O meu corpo se embalava a cada página virada.

Quando o assunto é leitura, o mais distante que a minha memória consegue alcançar é de minha mãe lendo para mim um livrinho colorido com a história de uma estrelinha de Natal. O livro era lindo, a história envolvente, e eu não cansava de ouvi-la. Passados os anos, lembro-me com nitidez das horas em que vivenciava histórias fantásticas, de tal forma, que algumas imagens sou capaz de reproduzir até hoje.

Morei com uma tia dos oito aos 16 anos. Em minha casa, não havia aparelho de televisão porque ela acreditava que a programação dos canais em nada contribuía para a minha formação, e que, ao contrário, poderia interferir negativamente. Para minha sorte, como ela era professora, em casa havia muitos livros. Eu precisava deles. E eles necessitavam de mim, porque livros sem leitores não são nada. É preciso haver leitores. Fico imaginando um livro parado, esquecido em um canto. Ou um livro jamais lido, em meio a tantos outros, como no cemitério dos livros esquecidos, criado por Carlos Ruiz Záfon, em “A Sombra do Vento”. Sem o leitor, o livro não é nada além do que tinta ordenada em papel.

Lembro-me de que meu gosto pela leitura encantou uma freira de um convento próximo à minha casa, onde funcionava, também, uma grande escola – o Colégio Santa Cecília, em Fortaleza –, com uma vasta biblioteca. A freira abria a biblioteca só para mim, aos domingos, depois da missa. Há pouco, quando li “A Biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges, compreendi como me sentia àquela época: em uma biblioteca infinita, com infinitas possibilidades de ser e de viver. Oscilo entre o desejo de ser como “Funes, o Memorioso”, personagem do mesmo Borges, em conto homônimo, para não esquecer sequer uma linha do que li; ou... talvez, melhor mesmo seja reler para me encontrar em velhas e novas emoções e sensações, assim com o Yambo, de Umberto Eco, em “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, que, desmemoriado, percorre um acervo de lembranças infantis, evocando livros, histórias em quadrinhos, dentre outros recursos audiovisuais em busca de recordações.

Aquela biblioteca... Para mim, um livro não passaria de um amontoado de papel com palavras e letras, sem sinal da vida, da vibração e da riqueza de cores que eu vivenciava. Eu era responsável por dar-lhe vida: imagens explodiam em minha mente, formas e cores abstratas misturavam-se com as personagens, as paisagens, os cenários. Eu sentia que as letras e as palavras diante de meus olhos quase que se ofereciam, convidando-me a acompanhá-las. Quanto mais eu lia, mais nítidas se tornavam as imagens, proporcionando-me a sensação de que eu quase seria capaz de entrar no texto.

Por que falo do passado? Penso, pela minha experiência, que as primeiras leituras, principalmente se realizadas por uma criança ou um jovem, são mais ricas em vibrações do que as feitas por um adulto, tão invadido pelas interferências de seu mundo fora da leitura, que o impedem de sentir e de viver outros modos de existência.

As imagens, hoje, surgem a partir de minhas próprias impressões e de minha interpretação de texto e são um produto de minhas experiências, em função do mundo ao meu redor, da gama de conhecimento que adquiri, e do local e da posição em que me encontro durante a leitura.

...

O gosto pela leitura e o prazer que ela me proporciona foram fundamentais para o meu crescimento pessoal e profissional e para o desenvolvimento das minhas habilidades sociais, proporcionando-me melhor entendimento sobre meu meio e meus pares, na construção da minha subjetividade e no meu convívio com o outro.

Penso que, assim como fez comigo, a leitura é um dos meios pelo qual qualquer indivíduo pode se comunicar com o mundo, ter contato com novas ideias, pontos de vista e experiências, pois, ao ler, o leitor ganha autonomia para modificar situações, interage com outras possibilidades, vislumbra novos horizontes.

Quando alguém me diz que não gosta de ler, eu sempre penso que há um equívoco, pois sou partidária de que todas as pessoas possuem potencial para desenvolver o gosto pela leitura. Elas só precisam encontrar a forma e o conteúdo que se moldem aos seus desejos, sem preocupação com “hierarquia” – leitura menos ou mais culta –, mas com potencial para, ao encontrar “o” texto, entregar-se a ele, deixar-se inquietar por ele, encontrar-se e/ou perder-se nele. 


A autora

Assino Conceição Souza, mas atendo Ceiça, Ceicinha, mamãe, vovó, professora... Sou multivíduo (indivíduo múltiplo): revisora textual ([email protected]); educadora; jornalista.Apaixonada pela temática leitura, fiz uma pesquisa de mestrado cujo título é "Páginas Sociopoéticas: deslizando nas idéias e nos conceitos de jovens sobre leitura". Quem tiver interesse, encontra o texto completo em <http://www.ufpi.br/ppged/index/pagina/id/6549>"

Por: Ceiça Souza
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