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Notícias Coletivo Leituras

14 de abril de 2016

Resenha: "No coração da noite estrelada", de Rogério Newton

O primeiro romance de Rogério Newton traz uma bela história sobre juventude, sobre questionamento, sobre amor, sobre identidade e sobre amadurecimento

Um romance com um conto pelo meio de uma história que se passa em meados da década de 70, mas que pode, tranquilamente, representar, em muitos momentos, situações vivenciadas por jovens de cidades pequenas, sustentadas por sociedades tradicionais, ainda nos tempos de hoje.  É assim que o primeiro romance do escritor Rogério Newton pode ser resumidamente definido. O enredo se passa na cidade de Oeiras, primeira capital do estado do Piauí, envolvendo duas gerações, jovens que estudam fora da cidade e personagens de gerações anteriores que se contrapõem exatamente por passarem por situações diferentes e realidades ainda mais complexas. O período em que a história se passa é em plena ditadura, após o golpe militar de 64, em que os jovens estudantes, três moças e três rapazes, que fazem cursos de graduação longe de suas famílias e do conforto dos lares, se mostram inquietos com os limites a que estão sendo impostos e com a apatia na qual todos vivem pelo temor de questionarem o contexto politico de então.

“Os três moços conheciam aqueles lugares. Eram de uma geração que vivera parte da infância e adolescência passeando pelos morros, banhando nos riachos, comendo frutas das margens, caçando passarinhos, caminhando pelas matas úmidas. Mas agora estavam crescidos. Os pais os mandaram estudar em bons colégios, longe de Oeiras.” 

Os jovens vivem uma pausa nos estudos em decorrência de uma greve e se reencontram e alimentam o desejo da feitura de um jornal profundo que mergulhe as pessoas numa reflexão sobre a cidade, sobre a sociedade e sobre as próprias vidas. Distantes da vida na cidade natal, os jovens se veem mudados, apesar de extremamente ligados ao local. A narrativa de Rogério Newton nos leva a momentos em que os jovens, abastecendo-se de outras fontes, outras culturas, outras histórias, se deparam com a Oeiras de então, mas que agora os causa estranheza.

“Ao ouvir o sino da matriz, João parou de mastigar. Sensação estranha. Desde que saíra de Oeiras, afastara-se dos costumes religiosos incutidos pela família, passando a alimentar atitudes críticas. No cursinho, percebeu que a visão religiosa não era tão exacerbada quanto em sua terra.”

Os passeios pelas ruas e pelas histórias de uma Oeiras mágica e encantadora, muito bem descrita e interpretada por Rogério Newton, mostram as características de uma cidade no meio do sertão, mas que se diferencia das demais, fugindo ao padrão do que se encontra pela região. Os fatos inusitados quebram, inclusive, a nossa expectativa durante a leitura do texto.

“De repente, parou, afastou-se e, num gesto rápido, tirou a blusa. A lua, que dominava tudo, iluminou os seios pequenos, firmes e belos. Por um instante, tudo ficou suspenso. Ouviram um ronco surdo, vindo não se sabe de onde, e uma porca enorme quase os atropela, seguida por um bando de bacurins.”

No livros não há prefácio, nem orelha, mas ilustrações e projeto gráfico do artista Antonio Amaral fazem com que cada leitor seja guiado por si mesmo dentro dessa história muito bem escrita, de fácil compreensão, mas rica em estilo e em texto.

O primeiro romance de Rogério Newton traz uma bela história sobre juventude, sobre questionamento, sobre amor, sobre identidade, sobre amadurecimento, sobre pessoas. 

Resenha por: Eulália Teixeira

01 de abril de 2016

Resenha: A cidade sitiada, de Paulo Tabatinga

O livro "faz um apelo desesperado para que Teresina seja estacionamento de poetas"

Poesia é um estado da alma, e por isso mesmo do corpo. A pessoa onde a poesia surge é, de certa forma, não mais dona de si. Se não fosse assim, por que então aquele momento de Poesia inundaria a vida inteira da pessoa de Drummond? Além disso, um certo Pessoa diz que “todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem”. Calculando os termos desta operação podemos concluir que poesia é uma paisagem. Mas, fundamentações teóricas a parte, uma olhada no livro a cidade sitiada, de Paulo Tabatinga, nos faz ver, literalmente, como a poesia é uma paisagem.

  Uma cidade é composta, entre outras coisas, pelos seus habitantes. Mas, ao mesmo tempo em que um indivíduo habita uma cidade, ele é por ela habitado. Quando vivemos num lugar, o lugar também vive em nós. Esta relação dialética, de habitar e ser habitado pela cidade, é a matéria-prima sobre a qual Paulo Tabatinga trabalha para expressar a si e a cidade, através da fotografia e da poesia. O livro vai muito além de uma mera tentativa de ilustrar com imagens o texto poético, ou de “explicar” a foto por meio do texto. Há, em algumas páginas, fotos que se ligam diretamente ao texto. Mas, se nesses momentos o autor diminui o quadro de nossa imaginação, por ouro lado nos convida a focar em coisas simples, e este é o ponto forte do livro: a beleza, às vezes melancólica, da simplicidade.

  Em a cidade sitiada a palavra não empobrece a imagem, nem o contrário. As fotografias mostram as grandezas de uma pequena Teresina, e pequenez de uma cidade que quer ser “grande”. Por provocarem um impacto imediato, as fotografias casam com os poemas. Estes são simples, curtos, alguns tendem ao aforismo, e dizem muito com poucas palavras. Levam-nos à reflexão crítica, como em “TV Aberta: a TV aberta é a coisa mais fechada que eu conheço”. Até porque, como o autor define páginas à frente, mídia é um “laboratório onde se criam realidades”. A nostalgia irônica tem seu lugar em poemas como “Cine Rex”: “Era muita putaria/ mas ficava sério/ para passar filme de semana santa”.

  De forma geral, o que vemos e o que lemos em a cidade sitiada faz dele um bom livro. Como a voz da foto é muda e o silêncio da poesia é som, o casamento tem um final bonito. Infelizmente, não feliz. Isto porque o livro é também a denúncia do crime político que se comete em nome do dinheiro, que transforma a capital numa cidade sem alma. Tabatinga usa a fotografia como janela da poesia, e faz um apelo desesperado para que Teresina seja estacionamento de poetas. 

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Sobre o resenhista:

André Henrique M. V. de Oliveira é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. Autor de "Sem pé nem cabeça: esparsos escritos sobre coisas algumas", publicado em 2015. Professor de Filosofia do IFPI.

17 de março de 2016

Os pescadores, de Chigozie Obioma

Livro de estreia alcança excelente crítica da imprensa especializada

Os pescadores de Chigoze Obioma se passa na Nigéria dos anos 1990 – especialmente entre 1993 e 1996, na cidade de Akure. Quatro irmãos descobrem a pescaria e decidem passar o tempo livre às margens do rio Omi-Ala. Embora sejam de classe média e não necessitem disso para viver, as idas ao rio são mais por diversão e fascínio. Peixes, girinos e outros habitantes daquele pequeno universo terminam fascinando os irmãos.

A problemática inicial é: parte dos nigerianos, católicos, acreditam que o rio é amaldiçoado e que não é o lugar mais seguro, no qual crianças possam brincar. Quando os colonizadores chegaram da Europa e trouxeram consigo o cristianismo o rio deixou de ser um local sagrado, habitado por divindades e se tornou, como o próprio autor diz, um berço emporcalhado. No qual se faziam rituais de magia às margens. E teve a reputação piorada quando a seita conhecida como Igreja Celestial estabeleceu ali sua sede.

Um dos irmãos é Benjamin, está dentre os mais novos, ele é nosso companheiro e narrador. Conosco ele divide a história de sua infância. Já no início ele confidencia que aquelas idas ao rio mudariam para sempre o curso da vida de sua família. Outro fator que também é citado como fundamental é o afastamento do pai. Dim é funcionário do Banco Central da Nigéria e é transferido para a cidade de Yola. A partir do momento que ele é obrigado a se distanciar da família, as coisas começam a sair dos trilhos ou do que até então, estava planejado. Como bem nos diz Benjamin, o pai era uma águia e sabia de tudo. Conduzia a casa com mãos de ferro, contudo jamais deixara de ser um pai amoroso e comprometido com os filhos.

Na última ida ao rio, Ikenna, o primogênito é amaldiçoado pelo louco da cidade, tido também como profeta e funesto. Segundo o insano, Ikenna será assassinado por um pescador. A partir desse acontecimento todos passam a ser atormentados pela profecia. Como diz Benjamin, Ikenna é envenenado pelas palavras cruéis de Abulu.

Basicamente, esse é o enredo mor. No entanto, a obra jamais poderia ser fechada aqui. Por inúmeros fatores, a prosa se derrama e flui intensamente como um rio. E esse rio, assim como o próprio Omi-Ala, contém aspectos sagrados e profanos. Ao mesmo tempo em que contemplei a beleza da relação fraternal, dei de cara com o lado visceral e muitas vezes incontrolável da ira. Aquilo que mais acreditamos é justamente o que tem mais chance nos dar cabo.

Até mesmo as línguas estão misturadas e entremeadas – nossos personagens oscilam entre o inglês (idioma imposto) e o iorubá para poder montar sua realidade, para estabelecer uma comunicação necessária, mas sempre insuficiente. Já que ambas são equívocadas e incapazes de dizer tudo que há naquele lugar que ainda é deles, mas que já não é o mesmo de seus antepassados. Ao ler nos sentimos atados a todos eles, oscilamos entre os ensinamentos cristãos (igrejas, pastores e bíblias) e as forças anímicas inerentes a cultura mãe. Constatamos o etnocentrismo no pai que deseja oferecer aos filhos a verdadeira educação ocidental.

Posso dizer que para mim, essa leitura trouxe percursos inimagináveis. Nunca passeei pela Nigéria e pouco ou quase nada sabia sobre o país. Após ler referências sobre as eleições presidenciais de 1993 e sobre o grande líder conhecido por M.K.O Abiola, numerosamente citado no livro, não me contive e fui estudar um pouco sobre o país. Procurei documentários, fotografias e notícias. Relembrei de um cara chamado Fela Kuti, que certa vez alguém citou para mim. Redescobri a potência artística e política que ele exerceu pela África enquanto vivo. Descobri que a Nigéria é um dos países mais populosos do mundo, relembrei a Guerra de Biafra ou Guerra Civil da Nigéria. E mais uma vez me apaixonei pela falta de literalidade dos africanos, que usam metáforas, parábolas – tornando o mundo mais mágico e fora das linhas que já estão traçadas no nosso inconsciente coletivo, mas que podem ser rabiscadas, apagadas ou desviadas.

Algumas vezes a leitura pesou toneladas sobre minhas costas. Assim como só as tragédias são capazes de fazer. Falta o chão, o ar e estamos soltos num universo onde o mais pavoroso pode acontecer. O drama biblíco de Caim e Abel é revivido num cenário e narrativa tão diferentes que a história me parece totalmente nova, como se nunca tivesse sido contada e recontada anteriormente. Portanto amigos esse é um livro para os leitores que não têm medo de desbravar suas emoções mais profundas. Para aqueles que sabem o que é ter no âmago uma comichão que nos devora lentamente. A conclusão óbvia que cheguei é que somente as tragédias podem trazer consigo tanta poesia, tanta dilatação do real, do tangível.

Benjamin, o querido Ben, apaixonado por animais trata de sempre fazer comparações entre as pessoas e os bichos. Trazendo para perto de nós um pouco da África, um pouco do olhar da criança e um tanto de beleza. A minha outra certeza ainda mais pífia é que a Literatura dói até os ossos.



Redação: Ananda Sampaio - @coletivoleituras

Revisão: Ceiça Souza

04 de março de 2016

A Gangue Escarlate de Asakusa (浅草紅團)

Yasunari Kawabata (川端康成) - Editora Estação Liberdade

“Mas é claro que alguém como você nunca vai entender a profundidade da miséria e da feiura de Asakusa. É com essa frase tão profunda e emblemática, logo nas primeiras páginas do livro, que Yasunari Kawabata te convida para conhecer um dos bairros mais misteriosos, encantadores e interessantes de Tokyo e do Japão. A obra, escrita pelo primeiro Nobel de Literatura japonês, no ano de 1968, é uma narrativa urbana, publicada em episódios no jornal Tokyo Asahi, de dezembro de 1929 a fevereiro de 1930. Em todas as passagens, Kawabata nos leva para Asakusa quando da sua decadência, recheado de malandros, prostitutas, muito jazz e shows bizarros (freak shows). E ele nos leva, como autor-narrador, acompanhado de sua amiga Yumiko, e completamente envolvido no espírito ocidental do flâneur, isto é, aquele espírito solto, vagabundo, vadio, em que ele mesmo descobre o que há em Asakusa como um observador-participativo do que acontece no local. Com muito tempo para investir nesta empreitada de descoberta da “Lapa de Tokyo”, Kawabata faz uso de momentos em que o narrador passa a ser alguém da própria realidade e a ordem cronológica não é seguida, causando-nos certa confusão em alguns momentos. Mas até mesmo essa forma “embaralhada” como a história é desenvolvida colabora com o clima de Asakusa. 

Os emaranhados existentes entre as personagens, com momentos em que se cruzam em meio a pontos da região, complementados pela descrição primorosa da arquitetura e da atmosfera do período em que a narrativa se passa, transportam-nos para Tokyo e até nos faz entender o Japão das décadas de 1920 a 1930. A ocidentalização japonesa em processo, presente inclusive na maneira com a qual Kawabata nos conta a história, é identificada inclusive no comportamento de muitas das personagens de Asakusa. O fato de Kawabata passear por ruelas, ter trânsito livre nos mistérios que não são revelados, com um olhar livre, que se espanta com as cenas japonesas, que ainda eram mais curiosas ao mundo ocidental naquela época, reforça a característica de flâneur na história.

 A curiosidade que ele tem em encontrar, em conhecer e em se aproximar de membros da Gangue Escarlate, também chamada de Companhia Escarlate, demonstra e reforça o ar de mistério que pairava por Asakusa e que até hoje se mantém em quem conhece e frequenta o local. Mesmo não sendo mais o ponto de boêmios como quando se passa a história, Asakusa ainda guarda o charme do Japão tradicional que faz com que, ao percorrer os locais descritos por Kawabata, como o templo Senso, o parque Sumida, o portal Kaminari, por exemplo, além do Restaurante da Torre do Metrô, seja possível se embeber do cenário de Asakusa tradicional. Uma leitura rica, com personagens instigantes, como a menina do cabelo raspado, o homem que se alimenta pela barriga, a velha da solitária casa de Asakusa e do gato prateado, que mostra um pouco da complexa sociedade japonesa, suas pressões e seus altos índices de suicídios. Inclusive, o próprio Kawabata cometeu o seu apenas quatro anos após ganhar o Nobel, no ano de 1972. Apesar de ser um estilo completamente diferente do que consagrou Yasunari Kawabata como um dos maiores escritores do mundo, “A Gangue Escarlate de Asakusa” é daqueles livros que te marcam exatamente por fugirem do lugar-comum, tanto pelo estilo literário quanto por revelarem um Japão diferente das expectativas ocidentais.


“Asakusa: é o coração de Tokyo…

Asakusa: é um mercado humano.”

24 de fevereiro de 2016

A Valise do Professor - Hiromi Kawakami

Um romance silencioso

“A Valise do Professor”, de Hiromi Kawakami, conta a história do professor Matsumoto Harutsuna, um senhor idoso que reencontra uma ex-aluna, Tsukiko Omachi, num bar. Casualmente, os encontros passam a ser frequentes e as conversas cada vez mais necessárias. Talvez eu possa descrever a obra como um romance silencioso, no qual a presença do outro é perceptível não só pelas palavras que profere, mas também pelos silêncios que exprime.

Passei boa parte da leitura tentando descobrir que tipo de relação estaria sendo construída entre os dois, e mais tempo me perguntando como Kawakami iria desenvolver aquela trama que parecia sempre caminhar rumo ao nada – de uma maneira inquietantemente indefinida. Por isso, me dei conta da pressa que nós, ocidentais, temos em delinear nossas relações, em estabelecer a natureza de nossos contatos humanos. No decorrer, percebemos a aflição de Tsukiko na tentativa de discernir aquilo que estava se suplantando dentro dela. A torrente de sentimentos sobrepostos, não mais de amizade e que, contudo, encontrava alguma dificuldade de ser percebido como amoroso. Embora ela não seja nenhuma adolescente, já está com 38 anos, Tsukiko se enxerga como uma pessoa que quase nunca corresponde às expectativas do tempo, sempre atrasada. A personagem vive numa transição temporal interna difícil de ser explicada por ela mesma.

O distanciamento das relações familiares – de Tsukiko em relação à mãe e do professor em relação ao filho –, são indícios da solidão que ambos carregam. Tsukiko já possui conduta e alinhamento de vida muito próprios para alguém que se acostumou a viver só, a ponto de quase não se importar com essa situação. E isso é quebrado para os dois, quando se encontram. A existência de um passa a impregnar a do outro, indiscutivelmente. A sapiência e a gentileza do professor fazem com que a relação deles seja conduzida na vagarosidade. Ele teme que só vá assumir o envolvimento tardiamente. Para quem se interessa por culinária, esse é um livro interessante. Sempre que vão ao bar ou a outros lugares, os pratos e as bebidas são descritos. Nessas passagens, entre uma bebedeira e outra, as resistências emocionais vão se afrouxando.

Na minha interpretação, a valise que o professor sempre carrega pode ser significar o peso de tudo o que ele já viveu. Na idade dele, as lembranças, as escolhas, passam a ser continuamente mais definitivas. É como se todos carregassem a valise que guarda os aspectos mais importantes de suas vidas. E, ao final, ele a deixa para ela, que diz:

“Em noites semelhantes abro a valise do professor e espio seu interior. Dentro dela estende-se um vazio, um espaço sem absolutamente nada. É apenas um espaço melancólico se alastrando”.

Seria isso o que resta de uma vida que chega ao fim? Um espaço vazio melancólico ou seria isso a vida de Tsukiko após a partida do professor?


Na foto: Hiromi Kawakami


Redação: Ananda Sampaio

Revisão: Ceiça Souza

16 de fevereiro de 2016

Após o Anoitecer

Japonês desafia o leitor mais uma vez

“Após o anoitecer”, de Haruki Murakami, é mais uma obra emblemática e cheia de pegadas que o leitor pode seguir ou não. Tudo isso, na tentativa de desvendar a narrativa, e, mesmo que o leitor chegue a algum tipo de conclusão, ela provavelmente não será a única. Murakami é, a meu ver, um escritor de hipóteses. Adora brincar com as diversas possibilidades e constrói histórias que não limitam o real e o imaginário. Está tudo misturado, não há absurdo nisso. As duas irmãs, Mari e Eri, são completamente diferentes. E a beleza da mais velha, Eri, cada vez mais ofusca e distancia a irmã – que se vê obrigada a fazer seu próprio caminho e a seguir a vida da maneira que lhe é possível. Todo o enredo se passa numa madrugada, após a meia-noite. Mari sai pelas ruas de Tóquio, senta num café e, enquanto lê seu livro, é observada por um narrador, no mínimo, misterioso. 

Não há como saber se essa voz que nos assobia é homem, mulher, espírito ou máquina. Seria, por meio de uma câmera, que esse ser observa a cidade? Cheguei a cogitar essa perspectiva. Durante o tempo em que fica nesse café, um saxofonista chamado Takahashi pede para sentar à mesa com Mari e diz se lembrar dela. E os dois relembram o dia em que se conheceram, há alguns anos. E, por meio dele, ela vai conhecer Kaoru, uma mulher que administra o motel Alphaville e que recorre à Mari por saber que ela fala chinês. Uma prostituta chinesa foi espancada num dos quartos e as funcionárias do estabelecimento querem entender o que aconteceu para poder ajudá-la. Por conta disso, Mari vai travar diálogos importantes com Kaoru e Koorogui, outra funcionária do motel. Todas elas compartilham um pouco de suas vidas. Vidas que se adaptaram à escuridão, à falta de visibilidade. Pessoas que trazem sobre as costas o peso do passado e da escolha que fizeram. Essas personagens são essenciais para Mari se reencontrar e compreender a importância de se reaproximar da irmã. 

Em capítulos alternados, habitamos a mente de Eri. Por vezes, presa numa sala empoeirada de um escritório. Com portas e janelas vedadas, ao tentar sair, e após algumas tentativas frustradas, ela volta a dormir. Não recomendo este livro, bem como boa parte da obra do Murakami, ao leitor impaciente ou que não contenta com finais abertos. O autor japonês tem como uma de suas características não construir histórias redondas, acabadas. Acredito que ele não se foca nos finais, e, sim, nos entremeios e no próprio percurso das personagens. O fundamental nem sempre é saber aonde ele chegou, mas por onde andou e onde teria chegado. 

Murakami nos propõe um desafio de imaginação, dedução e introspecção. Ele não se importa com o final, nem em construir um desenrolar narrativo redondo e satisfatório. Ele mostra para o leitor que o mais interessante em toda essa coisa de se contar algo é o relevo que os personagens vão conhecendo. O desconhecido amanhecer de si mesmo que nunca tem fim.


Revisão: Ceiça Souza

Redação: Ananda Sampaio

01 de fevereiro de 2016

Resenha: Falsos segredos, de Alice Munro

Mais recente obra da autora publicada pela Biblioteca Azul

"Falsos segredos" é o mais recente livro de Alice Munro, publicado pela Biblioteca Azul. O volume reúne oito contos da escritora canadense, vencedora do Nobel de Literatura em 2013.

Neste livro, Munro traz, mais uma vez, a miscelânea que compõe o painel narrativo de sua obra e que se mistura com a própria vida: envolvimentos amorosos, fuga, o cotidiano e o acaso – embora seja uma narrativa simples, é profunda e sutil, numa linguagem meticulosamente construída e que a tornou uma das melhores contistas da atualidade. 

Assim como nas demais obras, há variedade de mulheres múltiplas e distintas, em situações delicadas e cujas circunstâncias que as atravessam beiram a revolução em suas próprias vidas: um casamento marcado; o sumiço de uma mulher virgem na Albânia; outra que abandona o marido; a vida de uma viúva; uma morte repentina; e um segredo que quase deixa de ser revelado. Todo esse emaranhado de situações enlaça o leitor por meio de cartas que passeiam por todo o livro, e o tom íntimo que só as missivas são capazes de introjetar nos aproxima dos segredos das personagens – pessoas assustadas, apaixonadas, em fuga ou desiludidas, mas sempre a caminho de algum aprendizado. Este é o milagre da narrativa de Munro: revelar os prodígios e as desilusões daqueles que permanecem suscetíveis aos acontecimentos da vida.


Por: Luciana Lis

Resenha: Ceiça Souza

Resenha: As estranhas e belas mágoas de Ava Lavender, de Leslye Walton

O realismo mágico conduz a narrativa de maneira lírica e encantadora.

Após um prólogo, somos apresentados à família Roux. A história inicia-se na França, com os pais da avó de Ava desejando emigrar para a ilha que chamam “Manhatinne” junto aos filhos: Emilienne, René, Margaux e Pierette. Todos os irmãos de Emilienne têm mortes prematuras.

Emilienne então amarga e segue a vida com medo de amar, casando-se com o sr. Lavender, um padeiro a quem nunca amou mas que se dedicou até o dia de sua morte. Os dois mudam-se para Seattle e têm uma filha, Vivienne. A padaria assumida, por Emilienne após a morte de Connor Lavender, não é bem recebida pelas pessoas da Pinacle Lane, que se incomodam com sua fama de “bruxa”. Mas assim que Wilhelmina chega ao local, este é expurgado de influências malignas e vira um sucesso no bairro.

Vivienne cresce na casa da Pinacle Lane, que corpora uma lenda: construída para D. Inês, portuguesa que tinha um relacionamento incestuoso com o irmão, o lugar é morada de fantasmas e mau agouro. Vivienne é vizinha Jack Griffith, e na adolescência a amizade vira um namoro. Jack vai para a faculdade e volta com uma noiva, a quem apresenta a uma Vivienne cheia de amor. Desiludida, mesmo assim Vivienne deixa-se possuir por Jack. Assim Ava e Henry, seu irmão gêmeo, são concebidos.

Ava nasce com asas e Henry com um tipo de autismo. Os irmãos crescem escondidos do convívio além da família, mas Ava tem dois grandes amigos, filhos de Penelope, vizinha da Pinacle Lane funcionária da padaria.

A chegada de Nathaniel Sorrows, um ex-noviço, para cuidar da tia (beata vizinha dos Lavender viciada em açúcar) arrebata Ava. Sorrows encanta-se com as asas da menina e lhe atribui divindade, ficando obcecado por ela, e se mostrando perigoso.


Esta é uma leitura sensível e reflexiva; o realismo mágico conduz a narrativa de maneira lírica e encantadora.


Por: Lara Matos

Resenha: A casa dos amores impossíveis, de Cristina López Barrio

Romance relata a saga da família Laguna


A saga da família Laguna tem sobretudo imagens maravilhosas. Clara Laguna é uma moça com olhos tigrinos que encanta os homens do povoado, que, no entanto, não se aproximam por conta da maldição de morte e desamores que ronda a família. Os rancores e a austeridade de Clara após sua grande desilusão lembram muito Bernarda Alba, o que é mais um motivo para amar este livro. Sua mãe, a “bruxa” Laguna, também maldita, é conhecida por fazer divinação em vísceras e costurar hímens mediante pagamento.

Com a chegada de um rico fazendeiro ao povoado, Clara se apaixona e pensa que a maldição será quebrada, para depois descobrir que esta transcendeu os limites do povoado. Magoada, muda-se para o Casarão Vermelho, presente do amante fazendeiro, e lá monta um bordel como vingança. Consumida pela amargura, dá à luz Manuela, uma criança feia, que cresce em meio à cozinha do bordel e tem o sonho de conhecer o mar.

Da viagem para o mar Manuela retorna grávida. Nasce Olvido, uma moça de beleza sem-par. Olvido Laguna também tem um amor de juventude contrariado, e dele advém outra criança de destino ainda mais trágico, que não por coincidência chama-se Margarita: crescem margaridas em profusão pelos caminhos do Casarão Vermelho quando há alguma Laguna enamoradas, a superstição diz margaridas que são flores nascidas de onde nada mais há de ser fecundo, um péssimo agouro para amores. A esperança da quebra da conjura contra o nome das Laguna vem com o nascimento de Santiago, filho de Margarita e o primeiro homem Laguna em sete gerações malditas, que é educado por Olvido e tem como grande confidente o Padre Rafael. Só que não parece tão simples a desdita de algo que permeia a família por séculos... 


Por: Lara Matos

Resenha: Cachorro Velho, de Teresa Cárdenas

Obra retrata memória da escravidão em Cuba

“Um escravo era apenas um pedaço de carne malcheirosa e mais nada. Um negro era uma besta de carga, um bicho, um bruto, um ladrão, uma alimária, um saco de carvão... Apenas uma peça” (p. 23)

Cachorro Velho sempre foi escravo e, agora, em sua velhice, era porteiro da velha fazenda em que sempre trabalhou, onde passou toda a sua vida em meio aos canaviais.

“Havia sido ágil, forte, montava os cavalos de um salto, mergulhava até o fundo do rio. Agora era só um ancião pensando em coisas do passado” (p. 44)

Com a velhice avançando, passa os dias em meio a lembranças de seu passado, tentando descobrir qual o seu verdadeiro nome; lembrando histórias que os amigos contavam sobre a África, o continente tão distante de onde sabe ter raízes profundas, que de tão belo nem parecia ser real; tentando lembrar como era o rosto de sua mãe, de quem nunca esqueceu o cheiro do peito.

“O ancião apertava os olhos até sentir dor, mas não conseguia se lembrar de absolutamente nada. Tentava resgatar o rosto e o odor amado do meio de tantas lembranças que torturavam sua mente. Em vão. Depois de tanto tempo e sofrimento, sua velha cabeça parecia esquecer tudo” (p. 68)

Dividido em pequenos capítulos que acompanham o exercício da memória de Cachorro Velho, a continuidade e a ruptura de suas lembranças, o idoso passa a limpo, entre lembrar e esquecer, os rituais entre os negros; a magia da natureza; a perda dos companheiros para o suicídio e para a violência; e o quanto suas vidas sempre dependeram do patrão, o qual considerava mais poderoso que Deus.

Certo dia, Cachorro Velho se depara com uma pequena negra em fuga, Aísa, uma criança de 10 anos, cuja vulnerabilidade e coragem o remetem à sua própria juventude, em que sentia desejo de fugir, mas na mesma medida o solapava o medo da morte e dos castigos. E sentia o mesmo temor por Aísa, que, em fuga, estaria vulnerável aos cães e à morte, mas, ainda assim, a fuga da menina é capaz de revolucionar a vida do velho já à beira da morte, que acompanhara a luta de tantos outros escravos para chegar ao Quilombo El Colíbrio, cuja distância e aura libertadoras fazem-no parecer inatingível, mas mesmo assim os escravos não desanimavam de tentar alcançá-lo.

Mais que uma estória descritiva e repleta de pequenos acontecimentos que permearam a vida de um escravo, esse romance é uma tentativa de reconstrução da história de uma nação de negros, cuja própria identidade hoje pode ser reconstruída por meio das narrativas autorrepresentativas, dado que a autora, a cubana Teresa Cárdenas, é descendente de escravos cubanos.

Para o historiador Jacque Le Goff, a memória é muito mais que uma conquista, é um instrumento de poder, donde se pode remontar à construção da identidade de um povo cujo passado fora usurpado, e que, neste caso, por meio da literatura, pode-se, enfim, criar seu próprio patrimônio, resistência e identidade.

Teresa Cárdenas é um dos maiores nomes da literatura cubana. Este livro venceu o Prêmio Casa de las Américas.

Por: Luciana Lís
Revisão: Ceiça Souza

Resenha: [poemas], de Wislawa Szymborska

A autora foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura em 1996

"A vida é minha ocasião única". Este verso de Wislawa Szymborska me sequestrou os sentidos. Uma autora polonesa, tão distante, mestra em um idioma desconhecido no meu limitado universo linguístico, e que, de repente, passa a fazer parte da minha noção de existência. Wislawa é uma senhora reservada, sua vida pessoal é definitivamente particular. Não há espaço para especulações. Talvez ela mesma dissesse de forma sofisticada e bem humorada que as pessoas não se interessam pela vida de um poeta. Acontece que, mesmo assim, quieta em seu canto (Cracóvia), beirando os 90 anos, ela foi agraciada com o Nobel de Literatura, em 1996. Mas só em 2011 o brasileiro se depara com parte da sua obra traduzida para o português e publicada em edição bilíngue.

Tenho como um saber enraizado pelo tempo e pelas leituras teóricas que a experiência da poesia é inesgotável. Um soco dentro d'água poderia definir o caminho da leitura de Szymborska. Não posso fazer a resenha deste livro falando de uma totalidade nele. Deixe-me explicar: trata-se de um livro de poesias, cada poema é um universo em sua complexa composição, em sua intenção linguística, nos sons e nas cores designados para desempenhar papeis diversos em harmonia irrefreada. No entanto, necessito falar desta reunião competente de poemas, um trabalho que permite ao leitor brasileiro vivenciar o filosófico estilo da poeta. A profundidade dos questionamentos elencados por Wislawa é suavizada pela linguagem simples e direta.
A pensar nas palavras e suas possibilidades de organização no mundo, ler os poemas de Szymborska traz um choque quando se percebe que por meio de um simples modo de falar é possível se sentir arrebatado por questões febris do ser e de estar no mundo. A vida, a arte, a ciência: tudo se torna um mote desenhado habilmente.

"Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d'água.
Pouco tempo tenho para isso tudo.
Minha mortalidade devia te comover."

(Conversa com a pedra/ Rozmowa z kamieniem, p. 33)

Perceber-se como autora, poeta, num humor sombrio e sofisticado: este é o perceptível perfil da escritora. Szymborska desenha a imagem do artista como um ser solitário, expõe-se neste contexto, abriga toda uma geração de autores abandonados:

"Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir.
Nos recusaste a multidão ululante.
Uma dúzia de pessoas na sala,
Já é hora de começar a fala.
Metade veio porque está chovendo,
o resto é parente. Ó Musa."

(Recital da autora/Wieczórautorski, p. 32)

A desesperança do entre guerras, de um modo geral, é temática presente na vivência artística europeia e asiática deste e do último século. Para Szymborska, talvez, uma linguagem hermética fosse desrespeitar a vivência de dor e de reconstrução de sua nação. Daí, a sintética lógica desenhada pelo seu estilo, que pode ser seguida por quem quer que a leia. Seria importante lembrar, no entanto, que não se pode confundir uma linguagem direta com uma poesia fácil. Há uma economia própria da poesia, uma lapidação segura e que remete a um labor árduo, meditado por muito tempo.

"As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser."

(Trzyslowanajdziwniejsze, p. 107)

A obra foi organizada cronologicamente por poemas escritos entre 1957 e 2002. Vale ressaltar o sensível e consciente trabalho de tradução feito por Regina Przybycien, doutora em Literatura Comparada pela UFMG, tradutora de literaturas inglesa e polonesa e pesquisadora na área de gênero e poesia. A apresentação da obra, feita pela tradutora, é um bônus de boa leitura: leve, consciente, bem trabalhada e, por vezes, poética. A tradução é vista, enfim, como uma coautoria: "Toda tradução é uma tentativa de recriação em outra língua, com outros sons e outros recursos poéticos, do sentido original." Não entendo a língua polonesa, mas suspeito que, diante da magnitude dos poemas encontrados nesta obra, a tradutora tenha trazido ao público a atmosfera de Wislawa Szymborska. Recomendo a quem queira aprender a ler poesia, pois acredito que a leitura de poesia é uma construção constante. Szymborska segura as mãos de seu leitor, ou aperta levemente a sua garganta em comoção precisa.

[poemas], de Wislawa Szymborska. Companhia das Letras, 165 páginas.


Por: Lais Romero

Revisão: Ceiça Souza

07 de dezembro de 2015

Tsugumi, de Banana Yoshimoto, e a exaltação das boas memórias

Esta é a primeira vez que a autora é traduzida direto do japonês para o português

Ler pela primeira vez um autor é pisar em terreno desconhecido com todas as vantagens e as desvantagens que isso possa ter. Para mim, abrir-se ao novo já é um benefício.  Ultimamente, tenho procurado informações sobre literatura japonesa, sobretudo acerca de autores contemporâneos. Por algumas vezes, encontrei a autora Banana Yoshimoto nas listas de indicações e, pela excentricidade do nome, não o esqueci.

Quando a editora Estação Liberdade resolveu lançar o romance mais recente dela, não me contive de curiosidade e felicidade. Além do mais, esta é a primeira vez que a autora é traduzida direto do japonês para o português.

Vamos ao livro! A escrita de Yoshimoto é simples, suave e limpa. Sendo muito fácil para o leitor se agarrar com um livro dela e não conseguir mais largar. Tsugumi, personagem que dá nome à obra, é a protagonista. No entanto, quem narra a história é Maria Shirakawa, prima e pessoa mais próxima a Tsugumi.

Maria vive com a mãe na pousada dos tios, pais de Yoko e Tsugumi, numa cidade litorânea na Península de Izu. Devido a questões familiares, muda-se para Tóquio. Retorna à cidade natal para passar as férias de verão. É nesse momento que se foca a narrativa – já que esse período será um fechamento de ciclo na vida de todas as personagens. Elas irão passar momentos especiais juntas e sabem que, depois daquela temporada, nada mais será como antes.

 Maria nos fala a todo o momento da importância de guardar as boas lembranças, sobre como desejaria congelar alguns situações da vida e revivê-las continuamente. Como no trecho:

 “Nós crescemos vendo inúmeras coisas. E mudamos pouco a pouco. Avançamos conscientes dessas mudanças que se tornam reiteradamente perceptíveis de diversas formas. Mas, se por acaso eu pudesse impedir tais mudanças, manteria aquela noite intocada. Uma noite perfeita, repleta de singela e doce felicidade.” (p.. 120)

Tsugumi, como confessa Banana no posfácio e no epílogo da edição, é um alter-ego, e o amor pelo mar e pela península é fruto dos momentos felizes, quando passava as férias com os pais naquela região. Talvez assim seja mais fácil compreender de onde a escritora tirou inspiração para construir uma personagem tão controversa e rica. Mesmo sobrevivendo durante toda a vida com uma saúde frágil, ela é a personagem mais vital da narrativa. Nela habitam as emoções mais fortes, como a raiva, a rebeldia, a maldade e a bondade.

É inevitável não se apaixonar pela sua autenticidade e sua capacidade de vislumbrar o mundo por meio de mecanismos interpretativos tão próprios. Ela sempre consegue nos surpreender e nos fazer rir em várias passagens. Tsugumi não pode ser contida, nem mesmo pelas restrições físicas. Embora Maria se sinta magoada ou chateada com algumas atitudes da prima, ela termina cedendo e entendendo. Provando que o exercício da alteridade é fácil quando o fazemos por quem tanto amamos.

“A vida é uma encenação, pensei. A palavra “fantasia” também possui uma conotação semelhante, mas, para mim, o termo “encenação” é o que melhor expressa o que sinto sobre a vida. Naquela tarde, em meio à multidão, tive esse instante vertiginoso de epifania. Cada um carrega em seu peito uma profusão de coisas boas e ruins, suportando esse fardo durante a vida. E, apesar de termos de suportar todo esse peso sozinhos, ainda procuramos, na medida do possível, ser amáveis com aqueles que nos são caros”. (p. 43)

Não sei dizer quais sentimentos ela despertou em mim, sei que não consegui sentir raiva por nenhum momento. Senti candura e fascínio. O melhor do livro é sua simplicidade, sem muitas idas e vindas ou intromissões linguísticas em excesso. 

                                                                                 Banana Yoshimoto



Por: Ananda Sampaio

Revisão: Ceiça Souza

27 de novembro de 2015

Nossa lista de personagens marcantes

Fizemos mais uma brincadeira, dessa vez com personagens que amamos

Não é por acaso que tantos livros literários têm como título o nome do protagonista. Dizer que o personagem é a alma da história é muito óbvio, mas é fato. Qual é a graça de ler sem se apegar àquelas criaturas que você adoraria ter em carne e osso na sua vida? Personagens podem se transformar em ídolos. Quantos fãs de Sherlock Holmes estão espalhados pelo mundo? Ele é mais conhecido que seu autor: “Elementar, meu caro Watson”!

Os jovens leitores contemporâneos vivenciam uma época em que os personagens se sobrepõem às narrativas, como o fenômeno Harry Potter, por exemplo. E o que dizer da síndrome de Pollyana e de outros transtornos com nomes inspirados em personagens da literatura – Peter Pan, Alice, Otelo, Huckleberry Finn, Rapunzel, Dorian Gray?(http://super.abril.com.br/blogs/superlistas/6-transtornos-com-nomes-inspirados-em-personagens-da-literatura/)

Em Israel, uma rede de livrarias lançou campanha publicitária, em 2013, que se propôs a ajudar as pessoas a dormir com seus personagens literários favoritos: os anúncios mostram leitores dormindo ao lado de famosos personagens literários – Dom Quixote é um deles –, os quais, literalmente, fazem-lhes companhia. A campanha estimula o hábito de ler, não simplesmente pelo prazer da leitura, mas pela certeza de que, na literatura, é possível estar sempre acompanhado. (http://literatortura.com/2013/08/rede-de-livrarias-ajuda-voce-a-dormir-com-seus-personagens-iterarios-favoritos/)

E o Coletivo Leituras tem sempre por companhia personagens marcantes, inesquecíveis...

Conheça alguns deles:

Raissa Sampaio

Aslam, do livro Nárnia, de C. S. Lewis

Pra mim, é marcante porque é uma alegoria para Jesus Cristo. Aslam é o criador de Nárnia e de tudo que existe nela. Um ser sobrenatural, filho do Imperador de Além Mar. Sempre que Nárnia e os seus habitantes estão em perigo, Aslam retorna. São várias as semelhanças entre o Leão e Jesus. Em “O Sobrinho do Mago” vemos a criação de Nárnia por meio de uma canção, e em “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa” temos o sacrifício, a crucificação e a ressurreição de Aslam.  

Elizabeth Bennet, do livro Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

É minha personagem preferida de toda a obra de Jane Austen por ser muito forte, que não se encaixa nos padrões sociais em que se enquadravam as mulheres, contudo não perde o romantismo, a delicadeza. Elizabeth tem o hábito da leitura e, talvez por isso, seja tão segura das suas opiniões e tão consciente da sua época.

Huckleberry Finn, de Mark Twain

O sentimento que eu tive ao terminar este livro foi de que eu estava me despedindo de um amigo. Talvez seja pelo fato do personagem, por vezes, se comunicar diretamente ao leitor. Huck é um menino em fuga que passa por várias situações inusitadas e é salvo tanto por sua esperteza quanto por sua inocência. É um personagem divertido, e vejo nisso uma qualidade do escritor Mark Twain, ao usar da leveza da infância para tratar de temas relevantes.

Ananda Sampaio

Escolhi personagens que me ajudaram a encontrar sabedoria na vida. Personagens que são quase tão reais quanto as pessoas que nos rodeiam.

Frankie, A Convidada do Casamento, de Carson McCullers

Alguns críticos dizem que esta é a obra menos significativa de Carson. Ainda não findei a lista, mas já posso dizer que este é um livro especial. A grande maravilha dessa narrativa é a adolesce te Frankie, que deve ter entre 14 e 15 anos e que vive numa cidade minúscula e atrasada no estado da Geórgia, Estados Unidos. O que guardei da Frankie em mim é a poderosa sensibilidade que ela tem para perceber ao seu redor e a vontade que tem de desbravar a vida. Frankie é alguém que se coloca o tempo todo na berlinda – que oscila entre o doce e o amargo. E que não se poupa das transformações. Há quem diga que ela é muito parecida com a própria autora, posso dizer que as duas são pura poesia.

Holden Caufield, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger

O famoso Holden Caufield é fruto de seu tempo, mas sempre será uma referência sobre a fase da adolescência. Para alguns, Holden é classificado como anti-herói; para mim, Holden é pura coragem. Ele resiste por não admitir a mesquinhez que vem com a vida adulta. Ele se isola em Nova York e lá encara muito de si mesmo e dos outros. Enquanto perambula pela cidade, traça conosco um diálogo intenso e direto sobre sua apreensão dos relacionamentos humanos. Eu jamais poderia esquecer o quanto lamentei não ter lido esse livro antes, mas mesmo assim me sinto grata por tê-lo encontrado. Tive a oportunidade de reviver meus sentimentos e o turbilhão de emoções adolescentes. E percebi que eu tinha mais de Holden em mim, antes, do que tenho hoje. Que pena!

Gatsby, O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald

Gatsby é um personagem que sempre fará parte da minha lista. Talvez seja redundante falar desse personagem tão icônico e lacônico. Mas, vamos lá. Ele é um herói e não no sentido chato ou pormenorizado. Mas, sim, no sentido amplo, ele venceu a pobreza ao se envolver com a máfia, construiu um império de ostentação, beleza e muita festa para ter a chance de conquistar o amor de uma mulher. Gatsby é surpreendentemente um peixe entre tubarões, embora tenha sabido lidar com a máfia, ele não está preparado para viver entre os burgueses e aristocratas, que terminam usando-o e descartando-o quando lhes convém. Dentre toda aquela gente “decente”, Gatsby era o único pelo qual se deveria morrer.

Lais Romero

A mulher do médico, do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

Personagens muitas vezes são reflexos de nossas necessidades. Diante dessa máxima que carrego comigo, ando de mãos dadas com ‘a mulher do médico’, do romance ‘Ensaio sobre a cegueira’, de José Saramago. Como muitas personagens de Saramago, ‘a mulher do médico’ não tem nome, apoia-se na explicação que traz como referência o ofício do marido. No entanto, ela é o fio condutor do romance que habita.


Hamlet, de Shakespeare

Tenho profunda ligação com ‘Hamlet’, de Shakespeare. Hamlet mergulha em si mesmo, sobrevive nas veredas da própria existência. As realidades humanas ecoam nessa personagem tão marcante. Um dos meus favoritos.

Sherazade, As mil e uma noites

Encerro com a emblemática Sherazade (Saharazad ou outras grafias que nos satisfaçam), da obra ‘As mil e uma noites’. A inteligência da personagem ao se ater às narrativas como salvação da morte iminente me toma por inteiro. Sherazade é a consciência narrativa do ocidente, e, por essa razão, permaneço acordada ouvindo suas histórias.

Luciana Lis

Lena Greco e Lila Cerullo, Amiga Genial, de Elena Ferrante

Li somente o primeiro volume desta tetralogia que virou uma febre mundo afora e conquistou fãs do quilate de Alice Munro, que também não resistiu a #ferrantefever. Neste primeiro volume, acompanhamos a infância e a entrada na adolescência das duas garotas - Lila era uma criança impetuosa e não recuava diante dos meninos; na escola era brilhante e surpreendia, aprendeu a ler sozinha e lia escondida mais livros que todos os amigos, além de ser a melhor da turma. Lena, era doce e comedida, estava sempre atenta aos passos de Lila, a quem admirava e se inspirava pela coragem e inteligência. A amizade entre as duas é inspiradora! Ambas são encantadoras e nesta série poderemos acompanhar seus passos até a velhice. Aguardo ansiosa a tradução brasileira!

Lara Matos

Ifemelu, do livro Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie

 Além da identificação pessoal com a figura e com as opiniões de Ifemelu, a inteligência com que ela gerencia seu blog e o modo com que descreve sua adaptação a um país estrangeiro, sendo muitas vezes irônica e explicitando questões que me incomodavam bastante (sobre racismo e academicismo, como nas citações abaixo), mas que eu não sabia expressar com palavras. Ifem consegue, dando-me voz e me abraçando. As experiências dela com os namorados Obinze, Curtis e Blaine, sua depressão e a volta para a Nigéria após muitos anos morando nos Estados Unidos, o que, para mim, foi uma decisão sábia. Enquanto residiu nos EUA, Ifemelu conviveu com toda sorte de ignorância e de preconceitos, e os rebateu de forma deliciosa em seus escritos e falas, que enriquecem ainda mais essa personagem. Ifem (tou fazendo a íntima mesmo haha) escrevendo é fantástica:

“Muita gente – principalmente quem não é negro – diz que Obama não é negro, é birracial, multirracial, mestiço, qualquer coisa menos simplesmente negro. Porque a mãe dele era branca. Mas raça não é biologia; raça é sociologia. Raça não é genótipo; é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo.”

“[...] Quando acrescentou que acadêmicos não eram intelectuais, não eram pessoas curiosas, apenas construíam tendas de conhecimento especializado e se mantinham dento delas seguros.”

Mathilda, do livro Mathilda, de Roald Dahl

 Conheci Mathilda por meio do filme da Disney, que, em geral, é fiel ao livro. Eu, que também era uma criança leitora e ligeiramente creepy, se comparada às menininhas bonitinhas e bem ajustadas da minha infância, identifiquei-me na hora. A solidão de Mathilda, suavizada pela Srta. Honey e por Lavender, era também muito da minha solidão quando criança e parte da adolescência. Para mim, a menininha de laços de fita na cabeça era mágica não por ter poderes de telecinese: isto pouco me importava. O que Mathilda até hoje me ensina é uma das lições mais valiosas para uma criança: a de não ter medo de ser exatamente quem se é. A não temer parecer excêntrica ou maluca aos olhos alheios. Enfim, a acontecer e a brilhar e ser tudo o que se pode ser.

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25 de novembro de 2015

Meio Sol Amarelo, Chimamanda Ngozi Adichie

Romance aborda fatos históricos sobre a guerra e independência da Nigéria

O carinho imenso que tenho por esse livro tem muitos motivos. Um dos temas, irmandade, sempre me foi caro, porque tenho a sorte de ter muitas irmãs, de sangue ou de escolha. Romances históricos bem escritos sobre fatos não tão conhecidos também aguçam minha curiosidade.

*Por ser a resenha de um livro que trata de fatos históricos, mesmo que de modo ficcional, eventualmente este texto pode conter spoilers

A trama do livro trata da criação e guerra por independência da República de Biafra, ocorrida na Nigéria entre 1967 e 1970. A secessão foi liderada pela etnia Igbo, ocupando territórios a sudeste do país e elegendo a cidade de Enugu como capital. Lendo esta e outras obras da autora, percebe-se que o equilíbrio entre as variadas etnias que vivem na Nigéria é muito delicada. As maioritárias são Igbo (católicos), Yorubá, Haussa (islâmicos em maioria) e Fulani. Ao final d livro a autora deixa claro que mesmo a opção de escrita do nome dessas etnias é um ato de resistência cultural: ao não escrever “ibo” como fazem os ingleses, Chimamanda ajuda a preservar sua linguagem e sua cultura.

A principal causa do conflito relatado no livro foi a existência de petróleo em abundância na região sudeste da Nigéria, o que fez com que o governo nigeriano lutasse com todas as forças contra a separação deste território. Lembre-se que nos anos 60 algumas das guerras (no Oriente Médio e África mediterrânea, como a Guerra dos Seis Dias entre países árabes) que ocasionaram crises de preços de petróleo já haviam ocorrido, e nesta época, ser possuidor ou aliado de um país com território rico neste recurso tinha grande importância estratégica e econômica. Em razão disso, muitos países poderosos ajudaram a Nigéria a derrotar Biafra em troca de lotes de exploração petrolífera ou preço mais barato nos barris.

A história principal é de Olanna, cujo nome significa “meu ouro” e sua irmã gêmea Kainene, não tão graciosa quanto Olanna, porém astuta e sucessora do pai, um “grande homem” da Nigéria, nos negócios da família. Elas se chamam por “minha gêmea”, e na relação das irmãs com o tempo, algo perdeu-se nas curvas do crescimento. O título do livro é uma construção impecável: as metades do sol são as irmãs, e o sol nunca poderá ser completo se elas não estiverem juntas. Mas repito: a relação das duas não é fácil ou isenta de rancores. Tem silêncios pesados e acusações feitas com olhares, tem irresoluções como toda relação familiar. Kainene é enciumada da beleza e graça de Olanna, uma vez que esta não aprova muitos dos métodos e traços de caráter da irmã. E um acontecimento desastrado causado por impulsividade torna tudo ainda mais difícil na relação das duas.

Olanna tem um namorado que leciona na universidade. Logo no início do livro, vai morar com Odenigbo sem casar-se, em regim de companheirismo (algobem avançado para a época), e há uma atmosfera de felicidade, interrompida por alguns contratempos domésticos e a presença da sogra de Olanna, uma mulher tradicional da aldeia de Abba que não aprova a união do filho com uma mulher instruída. Por isso, a mãe de Odenigbo força um acontecimento que ao final, após toda dor e mágoa que causa, ao contrário dos planos dela, aumenta a união e amor entre o casal que ela tanto quis separado. Algumas das passagens mais belas do livro estão relacionadas a isto:

“'Você nunca deve se comportar como se sua vida pertencesse a um homem. Ouviu bem?', disse tia Ifeka. 'A sua vida pertence a você e só a você, soso gi.'”

“Não veja isso como um perdão. Veja como permissão para ser feliz. O que vai fazer com a tristeza que escolheu? Vai comer tristeza?”

Um parêntese: a segunda citação veio até mim quando eu realmente esteva presa por uma tristeza que pesava e me impedia de ser feliz. Não era a tristeza por ser traída de modo carnal como Olanna fora por Odenigbo, era uma faca que cortava meu coração cada vez que meu sangue se oxigenava, de novo e de novo. Uma grande tristeza de monção apoderou-se de mim então e já fazia quase um ano e ao ler esta frase, assim, nestes segundos, me libertei. Perdoar é mais sobre si mesmo que sobre o outro e a clemência verdadeira é silenciosa. O corvo que vivia espreitando o brilho da minha alegria para comê-la bateu suas asas e saiu de mim. Esta foi mais uma das provas de que um livro também pode instruir a alma.

Então, após as articulações políticas e o movimento pela independência, começa a Guerra Civil da Nigéria, e com ela todos os horrores da fome e dos ataques aéreos direcionados a civis. Um dos personagens, Richard, um professor inglês que mantém um relacionamento com Kainene, inicia então a escrita de crônicas e reportagens sobre a guerra de Biafra. A figura deste professor dá forma ao ranço colonialista inglês, que é um pouco desastroso mesmo quando tenta ser benevolente e generoso. Em uma das frases da crônica de Richard, vemos que muito pouco mudou a respeito de como se trata de tragédias ao redor do mundo:

“Iria escrever sobre isso, sobre a regra do jornalismo ocidental: cem negros mortos equivalem a um branco morto.”

Com o mundo mergulhado na crise de refugiados do Estado Islâmico, esta frase não poderia ser mais atual. A importância de cada alma não-branca é menor, as notícias fazem com que se sinta menos as mortes e todo o sofrimento. “O Mundo Estava calado Enquanto Nós Morremos” é o título de um livro escrito por Ugwu, inicialmente criado de Odenigbo e Olanna, mas que torna-se amigo da família. O mundo assiste calado às tragédias consideradas menores e nada faz. Mais de cem mil civis mortos de fome, por raides aéreos e execuções sumárias. Apesar de formarem uma família economicamente privilegiada, Olanna e Odenigbo, por escolherem não fugir para o exterior (como fazem os pais de Olanna) e resistirem por Biafra, vivendo em campos de refugiados, improvisando abrigos anti-bombas e enfrentando toda sorte de privações. De forma surpreendente, Kainene também o faz, usando de suas habilidades escusas de barganha para manter sua família e amigos vivos.

Ao fim do escrito, situado no final da guerra com a volta de Olanna e Odenigbo para sua casa em Nsukka inventariando os estragos e perdas, dentre eles dos amados tios de daquela, percebemos que o sol vai brilhar sempre pela metade no peito de Olanna e dos biafrenses que sonharam com a liberdade.


Chimamanda (foto acima) faz parte do que denomino de escritores oráculos, aqueles que consulto sempre que preciso de respostas quando estou muito angustiada. Junto dela, Valter Hugo Mãe, Saramago e Marguerite Duras, dentre outros. Esta autora me trouxe lindas luzes quando eu precisava de alento, e muito da importância que tem para mim vem disso. Do poder que esta mulher tem de me libertar e de me ensinar coisas mágicas.

*Há um filme de 2013, de Biyi Bandele, homônimo ao livro, baseado na obra de Chimamanda produzido na Nigéria, que tem uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo.


Por: Lara Matos

12 de novembro de 2015

Estação Atocha: um pouco de pós-modernismo

O livro critica abertamente o americanismo pelo mundo

Estação Atocha, de Ben Lerner, é extremamente autorreferencial – como disse o próprio autor, o protagonista Adam Gordon é uma versão exagerada dele mesmo quando jovem. O personagem, assim como o escritor, é poeta, norte-americano e consegue uma bolsa em uma prestigiada fundação para morar na Espanha e desenvolver um trabalho que envolve poesia e Guerra Civil Espanhola.

O livro critica abertamente o americanismo pelo mundo. Em algumas passagens, Adam Gordon, que é também narrador, descreve o sentimento de desprezo que sente pelos turistas estadunidenses – até mesmo por aqueles que tentam a todo custo enquadrar-se nos costumes espanhóis e que tentam adentrar em grupos sociais formados apenas por espanhóis.

“Manifestei meu desprezo infinito a cada turista com cujo olhar cruzei, o que podia facilmente fazer com as sobrancelhas. Meu olhar os acusava de apoiar a guerra, de tratar as pessoas e as relações interpessoais como objetos, de ser os camicases de um império assassino e prepotente, acusava-os como se eu fosse um escritor em fuga de um regime depressivo, e não um de seus bolsistas mais desonestos” (p. 59)

Como pode ser observado na passagem acima, Adam não poupa críticas. Em vários momentos, ele se autoanalisa, e com severidade e remorso reconhece seus defeitos.

Os Estados Unidos vivem a era Bush, e na Espanha em breve acontecerá o atentado terrorista ao metrô de Madri (11 de março de 2004), na estação que dá nome ao livro “Estação Atocha”.

A barreira da língua, enfrentada por Adam Gordon, frequentemente o salva. A falta de entendimento gera equívocos e potencialidades de entendimento.  Refletindo um pouco a própria relação do poeta e da poesia com o público – que parece sempre procurar sentidos e explicações sobre o fazer poético e até mesmo com a arte em geral.  Na tentativa de se chegar sempre a um denominador comum.

“Nossa relação se fundava, em grande parte, na minha incapacidade de me comunicar, uma desculpa para falar por fragmentos enigmáticos” (p. 63)

Viver num país estrangeiro pode ser bem interessante para um impostor ou farsante – analisa o nosso narrador, que, entre mentiras e atropelos, cria estórias para chamar a atenção ou supostamente para adquirir controle das suas relações.  Tudo isso acompanhado de um temeroso sentimento de culpa. Ele vai para Espanha, no entanto, pouco ou quase nada sabe sobre a cultura poética do país ou da situação política dele. Adam é interpelado algumas vezes por espanhóis que perguntam sobre esse ou aquele poeta e, pela tangente, ele sai tentando disfarçar seu desconhecimento.

Pode-se dizer que Adam é um reflexo da juventude norte-americana pós-moderna. No entanto, algumas de suas atitudes, suas impressões e seus sentimentos podem ser mais generalizados para o estilo de vida que temos hoje. Como a fluidez dos relacionamentos e até da própria identidade. E até do desleixo com que rompemos algumas relações. O uso totalmente desequilibrado de medicamentos controlados, como antidepressivos e ansiolíticos, o haxixe, a maconha e o álcool como escapes do vazio interminável.  Talvez por isso ele reflita várias vezes sobre as experiências reais e virtuais. E, sobre virtual, pode-se entender como qualquer experiência mediada, não apenas pela tecnologia, mas, inclusive, pelas substâncias psicotrópicas das quais ele faz uso, ou ainda a própria poesia, por meio da qual ele tenta vivenciar o mundo.

“Bebia e fumava de modo que tornara a identificação dos efeitos específicos dos comprimidos brancos impossível. Mas, de qualquer maneira, era o ritual de tomá-los que se tornara importante para mim, não tanto por causa de eventual efeito placebo, no sentido de que o mero fato de engoli-los me estabilizava, mas porque representavam um lembrete cotidiano de que eu era oficialmente um indivíduo perturbado, que estava seguindo um tratamento médico, que sofria de uma doença com nome específico.” (p. 121)

Muitas vezes, dar nome às nossas angústias já é um atenuante para nosso temor. Catalogar a dor e diagnosticá-la pode torná-la mais aprazível e menos delirante. Pelo menos, em parte, é isso que Gordon tenta nos comunicar. Quando o ataque à Estação Atocha acontece e toda a Espanha se vê enrodilhada num caldeirão de emoções, é que o deslocamento do protagonista se torna mais aparente. Enquanto todos parecem envolvidos em manifestações, dores coletivas e conversas políticas – Adam Gordon passeia por esse cenário sem muito esforço ou pretensão de entendê-lo. Ele lê os jornais, participa de algumas passeatas, mas se sente ridículo toda vez que tenta gritar junto com a multidão. A sua condição de deslocamento também permite um olhar diferenciado sobre os acontecimentos. Vivemos numa era tão instantânea que até quando parecemos estar envolvidos por alguma comoção social/coletiva/política não sabemos de nada ou quase nada.  Constituindo, assim, envolvimentos esporádicos.

Essa construção de leitura também se deve ao fato de que conhecemos a perspectiva espanhola por meio dos olhares e dos comentários de três amigos de Adam, que são ricos e de família tradicional.

“Perguntei se ela conhecia alguém que tinha morrido no ataque, mas respondeu que não. Disse que muitas das vítimas eram imigrantes. Que era um crime contra os trabalhadores e que ela não conhecia muitas pessoas que trabalhava. [...] Ela se lançou numa teorização incrivelmente detalhada e, pelo que pude entender, sofisticada, sobre as consequências políticas daquele atentado. Estava certa de que o ETA nada tinha a ver com aquilo. Eu não disse nada.” (p. 153)

Um anti-herói que teoriza sobre nosso tempo que pode ser classificado como mentiroso compulsivo, mas que é bem honesto. Fecho a resenha com o trecho abaixo que esclarece e ressalta uma parte interessante do livro.

“A angústia sobre Isabel e Teresa, aliada ao sentimento de culpa sobre meus pais, abriu o caminho para dúvidas mais profundas sobre minha desonestidade; que eu fosse um impostor ninguém podia duvidar – quem não era? Quem não desempenhava de maneira ilegítima um dos poucos papéis pré-fabricados postos à disposição pelo Capital, ou como quisermos chama-lo, mentindo descaradamente cada vez que dizia “EU”, quem não atuava, pelo menos como figurante, no comercial informativo, reprisado excessivamente, sobre as injustiças da vida?” (p. 122).


Por: Ananda Sampaio

Revisão: Ceiça Souza

11 de novembro de 2015

Nossos inícios de livros inesquecíves

Confira nossa lista!

Para este post, nós, do Coletivo Leituras, dedicamo-nos a encontrar inícios marcantes de obras que lemos –uma tarefa bastante prazerosa, pois nos permitiu voltar a encontrar livros fundamentais em nossas histórias. Já ouvimos algumas pessoas dizerem que quando vão à livraria escolher um título avulso, leem os inícios dos livros para saber se a obra despertará interesse. Um critério interessante para quem deseja se aventurar por novos títulos e autores. Para fazer essa escolha difícil, sentamos diante da estante e relembramos com carinho desses livros listados abaixo.

Confira nossa lista!

Eulália Teixeira:

Um livro pode me pegar pelo início, principalmente se eu já souber o final. Ou seja, os motivos que levaram ao acontecimento e o desenvolvimento da história são aspectos extremamente importantes de uma boa obra. Lógico que depende de livro para livro, mas um começo pelo final, estórias que vão e voltam, tempos e espaços que se intercalam mexem muito comigo. Dentre os livros que seguem essa linha, cito três que me marcaram profundamente: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Feliz Ano Velho” e “Paula”. Li os três em épocas e momentos completamente diferentes da minha vida, e em circunstâncias também.

“Feliz Ano Velho” me prendeu logo com o parágrafo inicial. Lembro que tinha 12/13 anos e devorei a história de Marcelo Rubens Paiva em coisa de dois dias.

“Subi numa pedra e gritei:

– Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.

Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiin.”

  O começo com o acidente, principalmente pela maneira como ele o descreveu, deixou-me curiosa sobre tudo daquele jovem que viu sua vida se transformar após um pulo. Um inocente pulo.

  Daí, deparei-me com Machado de Assis, poucos anos depois, mas como leitura obrigatória da escola. Enquanto meus amigos sofriam e amaldiçoavam aquele livro, eu me apaixonei pelo estilo machadiano ao me encontrar com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, primeira obra que li do escritor. A dedicatória foi o que me prendeu:

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”

  E não larguei mais.

 Recentemente, li “Paula”, de Isabel Allende. Já havia lido “A Casa dos Espíritos”, e sabia o que iria encontrar neste livro. Uma simples frase do começo já me prendeu e me mostrou a riqueza e a declaração de amor dela à filha nas cerca de 400 páginas que eu tinha pela frente.

“Escute, Paula, vou contar uma história para que você não se sinta tão perdida quando acordar.”

  Mas também me encanto por inícios instigantes, e os que mais me marcaram posso dizer que foram “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, e “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway.

  Clarice inicia o livro dizendo assim:

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”

  E Hemingway, com seu estilo direto, jornalístico, simples e profundo, já inicia “O Velho e o Mar” mostrando a beleza da relação entre Santiago e o garoto Manolin.

“Ele era um velho que pescava sozinho em um barco a remo na corrente do Golfo e estava com 84 dias sem pegar um peixe. Nos primeiros 40 dias um garoto o acompanhara. Mas depois de 40 dias sem um peixe, os pais do garoto disseram a ele que o velho estava agora definitivamente e finalmente salao, que era a pior forma de má sorte. O garoto tinha seguido as ordens dos pais e estava em outro barco o qual pescou três bons peixes na primeira semana.”

Laís Romero

Do livro Ficções, de Jorge Luís Borges, marca-me o início do conto“As ruínas circulares”:

“Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que sua pátria era uma das infinitas aldeias que estão águas acima, no flanco violento da montanha, onde o idioma zenda não se contaminou de grego e onde é infrequente a lepra.”

Eu poderia destacar apenas a expressão ‘unânime noite’, que já carrega em si uma totalidade sonora e visual capaz de me transportar direto para o ambiente do conto de Borges. É um convite suave e que me acertou em cheio.

Raissa Sampaio

Escolhi o início de “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen:

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa. Por pouco que os sentimentos ou as opiniões de tal homem sejam conhecidos ao se fixar numa nova localidade, essa verdade se encontra de tal modo impressa nos espíritos das famílias vizinhas que o rapaz é desde logo considerado a propriedade legítima de uma das suas filhas.”

O começo de “Orgulho e Preconceito” traz uma característica bem marcante da escritora e uma das que eu mais gosto: a ironia com que ela critica as convenções sociais, tais como o casamento e a fragilidade da mulher diante de uma sociedade machista. 

Luciana Lís

Uma obra marcante, desde o primeiro parágrafo, é “Água Viva”, de Clarice Lispector:

“É com alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas grito é de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é loucura do raciocínio – mas agora quero plasma – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar, pois o próximo instante é feito por mim? ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena.”

Já na primeira linha, Clarice Lispector dá o tom da epifania, da liberdade, da ruptura, da busca de si e de perguntas fundamentais que fazemos para nós mesmos enquanto tateamos no escuro da vida buscando o cerne de nossa existência e a tentativa de encontrar o nosso lugar do mundo.É um livro encantador!

Ananda Sampaio

“O Mar”, de John Banville

"Os deuses partiram no dia daquela manhã estranha. Durante toda a manhã, sob um céu leitoso, as águas da baía foram subindo, subindo, atingindo alturas inauditas, com pequenas ondas lambendo a areia ressecada que, por anos a fio não soube o que era umidade, a não ser pela chuva, e chegando até a base das dunas. Os despojos enferrujados do velho navio encalhado lá na entradada barra, e que, para qualquer um de nós, estavam naquele lugar desde sempre, devem ter achado que tinha chegado a hora de volta a navegar. Depois daquele dia, nunca mais nadei. As aves gritavam e mergulhavam do céu, parecendo perturbadas pelo espetáculo daquela imensa bacia cheia de água que inchava como uma bolha azul quase chumbo malignamente reluzente. Naqueles dias os pássaros estavam mais brancos, com uma cor nada natural. As ondas iam deixando uma faixa de espuma amarelada na areia. Nenhuma vela manchava a linha do horizonte. Não, não voltei a nadar depois desse dia. Nunca mais."

Escolhi esse início porque ele já mostra para o leitor o estilo sinuoso do Banville. A construção muito rítmica, detalhada e tortuosa. Sempre que o leio tenho a impressão de que as palavras dançam e formam um lindo bordado. Esse início já diz muito sobre o que virá: o mar, lembranças profundas e impactantes. Um super livro!

“Stoner”, de John Williams

"William Stoner entrou na Universidade do Missouri como calouro no ano de 1910 com a idade de 19 anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, recebeu o diploma de doutorado e assumiu um cargo na mesma universidade, onde lecionou até a sua morte, em 1956. Nunca subiu na carreira acima da posição de professor assistente, e poucos estudantes se lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas. Quando morreu, seus colegas doaram à biblioteca da universidade um manuscrito medieval em sua memória. Esse manuscrito ainda pode ser encontrado no "Acervo de Livros Raros", com a seguinte inscrição: ‘Doado à Biblioteca da Universidade do Missouri. Em memória de William Stoner, departamento de inglês, por seus colegas’".

Li esse livro este ano e não pude deixar de me encantar com o protagonista. Uma pessoa comum, de uma vida comum, mas não menos interessante e vívida. O começo do livro, como você pode identificar, é tremendamente honesto. De antemão, o autor resume a vida do seu personagem e nos diz, nas entrelinhas, que vamos acompanhar apenas a história de um simples professor, que passou pela vida sem grandes feitos históricos. 

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05 de novembro de 2015

Livro "As Virgens Suicidas", Jeffrey Eugenides

Confira a video-resenha no canal do Coletivo Leituras no YouTube

Envolvente e apaixonante, "As Virgens Suicidas", de Jeffrey Eugenides, prende-nos desde o início da narrativa, quando expõe o instinto suicida das Lisbon. Já acompanhamos toda a história, sabendo o final, o que não tira o brilho, pelo contrário, a deixa mais instigante e nos cativa com toda a simplicidade e a realidade nela contida. 



A história fala de cinco irmãs que vivem nos Estados Unidos, na década de 1970, auge da liberação sexual, e optam por uma vida breve, uma a uma, antes mesmo de saírem do invólucro ao qual estão submetidas. Eugenides usa "virgens" exatamente por essa razão. A não experiência, a ausência de vida real e o excesso de proteção contra o mundo externo nos estimulam a adentrar nesse universo paralelo, não da família, mas das meninas Lisbon. A narrativa, feita por muitas vozes, vozes essas em busca de preencher o quebra-cabeças dos suicídios das adolescentes, faz com que o leitor também se sinta parte daquele grupo de narradores. A história é apresentada sob o ponto de vista de adolescentes que faziam, ou desejavam fazer, parte do cotidiano e do real-imaginário das garotas Lisbon. Um livro lindo que nos leva a questionar a adolescência e os conflitos vindos com ela sob um ângulo diferente, o de quem vivenciou a não vivência dessa fase de transformações e cobranças.

Tem vídeo-resenha dessa obra no Canal do Coletivo Leituras no YouTube, só clicar AQUI 

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30 de outubro de 2015

"Se a leitura para alguns é fuga, para mim não se aparta do que é vida"

Histórias do Coletivo Leituras sobre o envolvimento com os livros

Esta semana celebramos a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca. Para celebrar a data, nós, do Coletivo Leituras, abrimos o coração e falamos sobre o nosso envolvimento pessoal com os livros e a leitura – uma atividade contemplativa que é lazer, constrói estórias, faz parte de histórias pessoais e coletivas, expande o conhecimento e o vocabulário, faz-nos fugir do óbvio porque é uma atividade intelectual e que estimula nosso senso crítico, aguça nossos sentidos e ajuda a termos para com as pessoas e as experiências diárias um olhar mais sensível e enternecido.

Ananda Sampaio: A cada ano ou ciclo da minha vida encontro novos bons motivos para ler. Porque um bom livro é fonte de aprendizados que se renovam. Dizem que a partir do momento em que o autor lança a obra, ela deixa de pertencer a ele. A ela vão se incrustando novas perspectivas, interpretações que, por fim, entrelaçam-se com a vivência do leitor. Ler é um exercício de alteridade e ao mesmo tempo de autoconhecimento. É um reflexo no qual nos reconhecemos e nos reinventamos.

Existem livros que me escolheram, aos quais serei grata eternamente porque me deram mais uma fonte de vida, de amor e de fé. Os livros trazem a poesia que o cotidiano usurpa sorrateiramente. Embora seja um hábito muito solitário, é por meio da leitura que me sinto mais conectada ao mundo, aos outros e a mim mesma.




Luciana Lis: Viver em meios aos livros é saber que sempre teremos a oportunidade, ao abrir uma nova obra, de sentir prazer e felicidade; às vezes, tensão, medo e angústia; desdobrar-se; crescer; ir ao outro lado do mundo e além; e, nessa miscelânea de sentimentos e de experiências, ter a certeza de que ao terminar um livro já não seremos mais os mesmos, pois cada leitura é uma experiência indelével– construímos nossa identidade, fantasiamos, ampliamos a compreensão da realidade em que vivemos, já que existe um conhecimento do mundo e dos homens proporcionado pela experiência literária que humaniza em sentindo profundo, não porque ensina ou moraliza, mas porque nos faz viver! Livros são transformadores!



Laís Romero: Quando eu tinha 11 anos, achava que o aspecto mais interessante que uma pessoa poderia exibir era o livro que ela carregava, quando o fazia. Cresci acreditando na beleza do objeto livro e vivendo entre histórias. Se a leitura para alguns é fuga, para mim não se aparta do que é vida.


  Eulália Teixeira (que ainda nos oferta uma linda poesia): Desde criança, sempre fui curiosa. Gosto de saber histórias e gosto quando elas me levam ao desconhecido e a outras muitas histórias. O livro me permite isso, entrar em mundos ainda a serem desvendados. E o engraçado é que um dos primeiros livros que ganhei, foi um presente de aniversário, chamado “Longe é um lugar que não existe”, de Richard Bach. Um livro que resume bem o que penso sobre viver: não existem distâncias nem barreiras para nada. Ganhei esse livro e, depois disso, sempre as pessoas me presenteavam com mais livros.  Daí, passei a ler muito e querer ler mais.

  Comecei com poesia, Da Costa e Silva, acho que algum perdido pela casa dos meus avós e na minha mesmo, e então passei a ler Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Mas tudo muito solto, pegava e lia.  





  Em 1987, antes dos meus 13 anos de idade, li “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva. Este livro me marcou como pessoa e como leitora. Então conheci Hemingway, Clarice Lispector e me agarrava à poesia. Descobri o concretismo dos irmãos Campos, Décio Pignatari, chegando a Arnaldo Antunes. Voltava para os clássicos, Stendhal, Machado de Assis, Dostoyeviski, e muito Hemingway e Drummond. Vivia entre as biografias, os clássicos, os romances e as poesias. Gostava de ler para entender a diversidade do mundo.

  Ler, para mim, é conhecer, é descobrir, é encontrar, é se conectar com mundos, pessoas, histórias.

“Muita gente me pergunta por que eu gosto tanto de ler

ou o que me levou a gostar de ler.

Não sei, de verdade.

Acho que foi a curiosidade.

Sempre gostei de indagar, questionar

de entender os acontecimentos

Mas, muitas vezes, para os adultos, tantas interrogações

geram aborrecimentos.

Daí, melhor buscar suas respostas

nas prateleiras sobrepostas

carregadas de conhecimento.

É na estante, em cada abrir e fechar de livro

em cada virar, folhear, acariciar de página

que eu navego entre mundos,

muitas vezes escondidos

nos textos mais profundos

que você nem imagina

e que te leva direto para viver experiências na surdina.

Me deixe com o livro, à vontade

que a gente se entende

Entre nós tem muita reciprocidade

Ao entrar no mundo dos narradores

sinto cheiros, vejo cores e me envolvo com amores.”

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